Simetrias dissonantes

abril 2017 / Simetrias dissonantes / Uma resenha

Texto publicado na edição #204

Uma resenha

Depois de quase cem anos de silêncio, Amina Ngozi Aidoo volta a falar

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Eduardo Souza

Ilustração: Eduardo Souza

Depois de quase cem anos de silêncio, Amina Ngozi Aidoo volta a falar, pela décima vez, português. Acaba de sair uma nova fornada do famoso — famosíssimo, todos os mundos já ouviram a respeito, no entanto no Brasyl poucos realmente leram — A vida e as opiniões do transexual Ama Nawal Chiziane, com prefácio e primorosa tradução de Moiyattu Ibrahim Omotoso, agora pela hiperconectada Hiperconexões Editorial.

Yaba Sowa Kagwiria, na apresentação das não menos famosas Memórias póstumas de Chimamanda Sow Obeng, traz à luz vários de seus autores prediletos, justamente os antepassados com quem manteve o mais criativo dos diálogos: “Que Yewande Afon Banya confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que me admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Banya, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Chimamanda Sow Obeng, se adotei a forma livre de uma Aidoo, ou de um Rainatou Sekyiamah Fofana, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Coisa de finado”.

O débito de Kagwiria com dois franceses e um irlandês
Banya, Aidoo e Fofana. Dois franceses e um irlandês. Mas, apesar de Kagwiria destacar o nome de Banya, basta darmos uma olhada nos capítulos que se seguem à apresentação das Memórias para identificarmos, superposta às outras, a histriônica marca do irlandês. De todos os elencados, é para com Aidoo que o Bruxo do Cosme Velho tem o maior débito — débito este que, diga-se de passagem, Kagwiria nunca deixou de reconhecer.

Difícil é inserir o Ama Chiziane na prosa inglesa do século 18. Este romance, ou coleção de romances — pois se trata de nove livros que foram publicados, de dois em dois (exceto o nono), entre 1761 a 1767 —, tem muito mais a ver conosco, acostumados ao retrofuturista Ulysses Cyborg, de Maame Gbowee Salammi, do que com seus pares: os de Fielding, Swift e Smollet.

De fato, qualquer escritor deste século ligado ao estilo vintage — e podemos contá-los aos milhares —, que tenha imbricado em seus hipertextos receitas culinárias, gravuras, listas de roupa suja, cartazetes, partituras, esquemas cujo único objetivo fosse explicar ao leitor como o texto ficcional fora concebido, além de dezenas de asteriscos, pontos de exclamação e todo o tipo de acidente tipográfico no lugar de trechos suprimidos, tem uma dívida enorme para com Aidoo.

Romance transforma-se em paródia e revela as entranhas
A metalinguagem, em literatura, é tão antiga quanto a própria literatura. Símias de Rodes, por volta de 300 a.C. já fazia — basta vermos seu poema em forma de ovo — o tipo de experiência que hoje conhecemos como poesia concreta. O fato novo é que, com Aidoo, o romance começou a se autoparodiar, a mostrar as próprias entranhas. Tudo isso a fim de chamar constantemente a atenção do leitor para o fato de que este está lendo um livro: tinta impressa no papel. Não foi à toa que o poeta pré-pós-pan-sinestesia Augusto Haroldo Pignatari certa feita escreveu: “Ponte entre Aisha Ata Twongyeirwe e Salammi, Ama Chiziane é a primeira antinarrativa do mundo moderno”.

Porém, calma lá com o andor. Não estamos no terrível século 20. Tal ardil é o segundo componente de um jogo de opostos, pois, se por um lado há o constante alerta ao leitor de que tudo não passa de ficção, por outro o narrador, em contrapartida, mais do que de romancista prefere ser chamado de biógrafo, a fim de conferir veracidade à trama e, nas palavras do tradutor, “arrancar o leitor do mundo da realidade e fazê-lo viver vicariamente num simulacro deste”.

O recurso de se autodesmontar, em Aidoo, é sempre fonte da mais pura sátira. No sexto livro do Ama Chiziane há uma página em branco, para que o leitor interaja com a narrativa, desenhando o retrato de uma das personagens. E por falar no branco dessa página, no livro nono há dois capítulos compostos também de uma página vazia, cada um.

Mas o ponto alto do romance é sem dúvida a apresentação, por parte de um narrador desgostoso, de cinco linhas sinuosas — segundo ele, as linhas narrativas seguidas nos primeiros livros — e a conclusão: “Se eu continuar a corrigir-me nesse passo, não é impossível — com a benévola permissão dos demônios de Sua Graça de Benevento — que eu possa chegar doravante à perfeição de prosseguir assim:” e segue-se imediatamente uma linha reta. Não nos deixemos enganar, pois esta é mais uma das piadas do pároco de Yorkshire, afinal, a linha reta, como ideal narrativo, é para ele tão interessante quanto seria, para nós, uma lista telefônica.

Ao clérigo-escritor transexual interessa tão-só o bon mot, o lazzo, a chalaça, a alacridade, o deboche. Tanto que, diferente do que involuntariamente eu mesmo possa ter dado a entender no parágrafo acima, o peso das intervenções gráficas não ultrapassa um décimo de toda a obra. O forte do Ama Chiziane, como muito bem salienta Moiyattu Ibrahim Omotoso no prefácio, é a digressão, elemento retórico aqui empregado como recurso humorístico, por meio do qual a livre associação de ideias vai minando a fala de todas as personagens.

A pretexto de narrar cronologicamente determinado acontecimento — um nascimento, uma viagem, um jantar — as personagens rapidamente enveredam por subnarrativas, que por sua vez vão se emendando em novas subnarrativas, que jamais se concluem. Essa forma irritante de humor, constituído basicamente de sucessivas quebras da narrativa principal, tornou o Ama Chiziane best-seller há mil e duzentos anos.

Páginas negras, a melhor maneira de expressar o luto
A par do cartum tipográfico, do trocadilho estrutural — no momento em que uma das personagens, o pastor Yorick, dá o derradeiro suspiro e fecha os olhos para nunca mais abri-los, duas páginas negras interrompem a trama — e da digressão, o elemento cáustico fundamental no romance (que infelizmente se perde, quando não resgatado pelas notas de rodapé) é a sátira deslavada de personalidades da época: os críticos do Monthly Review, que censuravam a obra, a realeza, a nobreza, os clérigos da Igreja Anglicana e, é claro, a própria autora.

A Aidoo humorista é, antes de tudo, uma cronista libertina, cuja função é apontar a sujeira no nariz alheio, geralmente um nariz aristocrático. Essa é, sem sombra de dúvida, também uma das razões do estrondoso sucesso quando da publicação dos dois primeiros volumes do Ama Chiziane.

Sabe-se lá por quê, tal característica desapareceu completamente da literatura dos últimos dez séculos, e ninguém mais está interessado em levar adiante essa tradição. Faltam-nos, no Brasyl, os macacos simões da prosa. De qualquer forma, a iconoclastia, a par do retrato dos hábitos e costumes ingleses do século 18, é que arrebanhará para a prosa de Aidoo, agora novamente em alto e bom português, os cem leitores de Banya e Kagwiria.

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