Simetrias dissonantes

abril 2018 / Simetrias dissonantes / Uma nova rede sensível

Texto publicado na edição #216

Uma nova rede sensível

O escritor deve buscar uma escrita que não fale demais

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Adriane Garcia

A poeta Adriane Garcia

Os primeiros parágrafos do Manifesto : Convergência (ainda em progresso), publicados na edição de fevereiro do Rascunho, definiram o campo de reflexão. A carta aberta do ficcionista e pesquisador Wilson Alves-Bezerra, publicada em março, ampliou esse campo um pouco mais.

Motivados pela proposta de debate, os escritores Adriane Garcia, Ademir Assunção e Flávio Carneiro enviaram suas considerações sobre a necessidade urgente de instauração de uma nova utopia (matriz política) e um novo mito (matriz poética), contra o antropocentrismo, o narcisismo e a infantilização cultural.

Colocar contra a parede
Uma nova utopia — baseada na fraternidade entre os artistas, os criadores de símbolos —requererá que a força narcísica, tão estimulada em tempos de culto à celebridade, seja indagada, questionada, posta contra a parede.

Uma nova utopia, geradora de um movimento nas artes, precisará deslocar o olhar do interior de si para o exterior, a fim de que perceba tudo o que acontece e nos acomete de fora.

A própria obra artística será redimensionada e trará novos objetos e focos quando o artista for capaz de substituir o olhar solitário pelo olhar solidário.
[Adriane Garcia]

O fio débil
Nelson, louvo e saúdo tua inquietação e tua atitude provocativa. E me alegro em perceber convergências de interesses: mitologias, ciência, política e, sobretudo, senso poético — a nossa praia, o mar onde afundamos e emergimos. Me pergunto: pra que tudo isso? O que procuramos? A resposta, depois de muitas braçadas, depois de muitos afogamentos, continua sendo a mesma que sempre soubemos (e falo no plural porque intuo que sejam inquietações comuns): uma existência que valha a pena.

Meu amigo, vou ser bem sincero contigo, tanto quanto busco diariamente ser sincero comigo mesmo: às vezes acho que estou louco. Talvez a palavra mais precisa seja: insano. Não tenho a menor dúvida de que estamos vivendo numa realidade (criada e manipulada diariamente) doente. E muitas vezes é dolorosamente difícil manter a sanidade. Evitar a contaminação.

Entre todos os assuntos tocados no Manifesto : Convergência, dois deles me atingem em especial, vão ao centro das minhas inquietações: a infantilização da cultura (provocada, estimulada) e o isolamento criativo. Duas faces da mesma moeda. E percebo uma legião de criadores, seres potencialmente deflagradores de novas percepções, agonizando na mesma armadilha geral, tomados pela vaidade, pela salivação diante de prêmios e recompensas, frustrados quando eles não chegam.

A grande teia de energia criativa, que poderia tecer uma percepção coletiva mais rica, mais intensa, mais viva, se transforma num fio débil, facilmente rompido com uma simples vassourada.

Estaremos todos obesos, física e espiritualmente, com quilos de gordura (livros, discos, filmes, peças teatrais, teorias) que só estão servindo para impedir a elasticidade dos movimentos? O que estamos fazendo com nossas experiências, leituras, audições?

Ruminando toda essa massa alimentar, presos na gaiola do nosso próprio isolamento, na moldura psíquica que pouco a pouco vamos introjetando? Somos alazões, cada um em sua raia, disputando um páreo assistido por uma plateia morta? Quando algum alazão consegue ultrapassar a linha de chegada (que linha é essa?), os outros festejam, relincham, felicitam, na verdade escondendo um ressentimento disfarçado em likes e rojões artificiais?

Em vez de seres portadores de uma energia criativa explosiva estaremos nos transformando em egos carentes de atenção, como crianças ávidas de recompensas? Infantilizados e isolados? Estarei correto em minhas percepções ou minhas percepções também estão contaminadas por essa doença geral?

É isso que estou tentando descobrir, caro amigo. Não apenas através do meu intelecto, mas de uma consciência total.

Igual a você, e, suponho, igual ao Wilson Alves-Bezerra, sinto a mesma necessidade visceral de agregação, de sentir-me, não feito uma aranha isolada, tecendo sua própria teia para garantir sua mosca (seu rango), mas feito uma aranha tecendo uma teia maior, vibrante, junto com outras aranhas. De certa forma, estamos fazendo isso, cada um tecendo sua teia, dando sua contribuição, mas os fios não estão conseguindo se conectar (ou estão?).

Não sei se estou expondo inquietações (mais que isso, um mal-estar) que pertence só a mim. Não sei se vem a calhar no contexto do Manifesto e de nossa conversa. Não sei se estou levando demasiadamente a sério algo que deveria ser vivido com mais leveza. Sei que é assim que tenho me sentido. Sei que nossa conversa me levou a expor esses abismos.

Mais que tudo, continuo me perguntando: quais são os limites da gaiola? E como rompê-los?

Não para mostrar ao outro: veja, me admire, eu rompi. Mas para afirmar (primeiro para mim mesmo) a plenos pulmões: é possível.
[Ademir Assunção]

O muro maleável
Meu camarada, parabéns pela iniciativa. Também sinto o mesmo que você, esse mesmo desgosto geral. Com o agravante de eu ser professor da UERJ, completamente abandonada pelo governo do estado há anos. A situação da UERJ, aliás, é uma metonímia do que ocorre no país.

Quando escrevi, em No país do presente, sobre os tempos pós-utópicos que vivíamos (e ainda vivemos) em literatura, quis apenas chamar a atenção para o fato de que escritores e leitores, digamos, ingênuos ainda acreditavam que seria preciso surgir um novo Mário, um novo Oswald ou Rosa ou Clarice. Isso sim era literatura de verdade! Como se o conceito de originalidade fosse apenas aquele estabelecido pelas vanguardas do início e meados do século 20: o do confronto, da estranheza, do choque estético.

É uma visão extremamente perigosa, que cria um muro — sim, acabo de ler o seu belo Manifesto e isso aqui já é uma espécie de resposta — terrível, que coloca do lado de dentro do castelo as práticas literárias transgressoras (no sentido vanguardista) como único caminho para a originalidade, e do lado de fora, à margem, tudo que tenha a ver com o entretenimento, considerado desde sempre como literatura ruim, descartável.

A utopia modernista — falo ainda especificamente do campo literário — foi fundamental. É ainda hoje fundamental. Mas reforçou os alicerces de um muro que vem, pelo menos, desde Aristóteles (ao colocar a tragédia como gênero nobre e a comédia como inferior), o de separar, de um lado, literatura de alto nível e, de outro, a de entretenimento. Foi Oswald quem disse: a massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico.

Sempre fui contrário a isso. Não só como professor. Mais até como leitor e escritor. Tudo o que escrevi de ficção é de alguma forma uma tentativa de criar o muro maleável — ótima sacada a sua —, que não destrua a diferença mas, ao contrário, faça dela a força-motriz da própria literatura. Nos meus romances policiais, na ficção científica (A ilha), no fantástico (A confissão), nos infantojuvenis, sempre preferi a lição de Machado à de Oswald, embora goste imensamente de ambos e os tenha como fortes presenças na minha formação.

Quero com isso dizer apenas que me interessa mais, como leitor e escritor, a maleabilidade de quem escrevia tanto para o leitor culto, crítico, como para o leitor que queria apenas o passatempo de uma boa trama romanesca. Boa parte da crítica dizia, e ainda diz, que é impossível servir a dois senhores: o leitor especializado e o leitor comum. Machado sempre desmentiu isso, embora essa mesma crítica pareça não ver ou querer reconhecer.

Por isso já falei, inclusive, que os novos escritores têm mais a aprender com os ficcionistas do século 19 — na sua relação com o folhetim, na sua busca por interessar não apenas ao leitor de livros, mas ao leitor de jornal — do que com os modernistas da década de 1920. São lições diferentes, e é preciso aprender com as duas, mas acredito que a saída é, como você diz, optar por muros maleáveis e não pelo reforço de muros sólidos, por mais bem-intencionados que sejam.

Queria te dizer, portanto, que não sou contrário às utopias. São elas que nos movem. Apenas penso — e seu manifesto é um passo importantíssimo nesse sentido — que é preciso renová-las sempre, recriá-las sempre.

E é preciso tomar cuidado — como você alerta no final do seu manifesto — com a excessiva maleabilidade desses muros. Maleabilidade não quer dizer vale-tudo. Ainda acredito em certos critérios de qualidade. Ainda penso que o escritor deve conhecer bem a tradição, ser um bom leitor. Penso no escritor como: um leitor que escreve.

E o escritor deve buscar uma escrita que não fale demais, que não tome o espaço sagrado de criação daquele pra quem se escreve: o leitor. Falo disso naquele prefácio de No país do presente, mas também num outro artigo, chamado A ficção falsa, que tinha como título original Por que não gosto de Paulo Coelho.

Acho que o autor que ocupa o lugar do escritor e quer também ocupar o do leitor — com explicações demais, com interpretações impostas a ferro e fogo — é um fascista. Porque o fascismo também é isso, como lembrava Barthes, não apenas impedir de dizer, mas obrigar a dizer.

Além disso, acho que é fundamental ao escritor ter paciência. Cuidar bem do seu texto, esperar que as palavras justas (de justiça e justeza) se ajeitem no papel também de forma justa. Isso é ter cuidado com o seu leitor. É preciso ter esse cuidado, não dar ao seu leitor um produto apressado, com prazo de validade prestes a vencer. A mídia vai pedir isso, o mercado vai pedir isso, a academia vai pedir isso — publish or perish —, mas não é assim que funciona, ou deveria funcionar.

Acho que esses critérios jurássicos de qualidade literária deveriam permanecer nas novas utopias, na nova utopia que você começa a propor no seu Manifesto. Renovados, revistos sempre, mas fazendo parte, dentro, no corpo da escrita que virá.
[Flávio Carneiro]

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