Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Uma leitura dos instantes

Texto publicado na edição #132

Uma leitura dos instantes

Há uma recorrência nas resenhas dos livros de contos: a definição do gênero. Naturalmente, isso não tem qualquer importância para […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Edson Valente. Foto: Edson Kumasaka

Há uma recorrência nas resenhas dos livros de contos: a definição do gênero. Naturalmente, isso não tem qualquer importância para o leitor comum, mas um problema que acompanha o analista da literatura brasileira é que costumeiramente os escritores subestimam os padrões canônicos. Esta atitude tem um lado extremamente positivo, que é a capacidade de revoluções causada pela rebeldia. Por outro lado, o gesto também pode esconder incapacidades narrativas, como acontece com o verso livre, frequentemente usado como um escudo para poetas limitados ou de nenhuma qualidade.

Voltando à questão do conto, há uma suruba literária que mistura o gênero com a crônica, ou, o pior, apresenta textos que não são nada, mas estão ali publicados como se contos fossem. Daí o lançamento de Refluxos, de Edson Valente, ser um fato interessante, pois, já na estrutura, os textos podem ser classificados como contos em essência. Isso porque carregam todos os elementos necessários da fórmula, em tese, estabelecida por Julio Cortázar. Dizia o argentino que o conto é a arte do soco, onde se deve vencer o leitor por nocaute, enquanto no romance se ganha por pontos.

Isso favorece o surgimento de uma arquitetura narrativa onde o que vale é a precisão de cada frase, de cada parágrafo. O conto, além de seu enredo marcante, do corte, da descrição de uma breve passagem na vida do personagem, precisa contar tal história envolvendo e surpreendendo o leitor. Edson Valente trabalha nesse limite, nessa linha de precisão e inquietude.

O autor insere-se no ciclo da literatura contemporânea, mas ao mesmo tempo amplia seus limites com sutis revoluções. Como trabalha esta alquimia? Vamos lá. O conto vive um momento especial. Multiplicam-se as antologias, os volumes do gênero. Não que estejamos numa revivência do boom da década de 1970. Naquele momento a característica cortante do conto serviu com precisão à necessidade de uma retórica, ao seu modo, revoltada. Havia necessidade de se protestar contra a violência política, contra o tolhimento das liberdades e, de certa forma, denunciar a urbanização que chegava violentando a ingenuidade das décadas passadas.

Hoje o boom traça outros sentimentos. A violência, antes política, agora é urbana e cotidiana. Em outras palavras, perdeu o pressuposto da resistência, da disputa ideológica para se fazer gratuita e se banalizar em cada nova edição de jornal. E aí termina por consolidar uma nova estética, onde o homem tem pouca importância, onde o fundamental é sua indiferença frente à crueldade. Esta dicotomia entre violência política e violência cotidiana é que estabelece as distâncias entre os dois momentos do fazer literário.

Edson Valente, mesmo falando de violência, foge aos dois instantes e cria uma outra sentimentalidade. Há violência sim em seus textos, mas ela não é política nem cotidiana. Sua estrutura está amparada no inusitado, na sutileza. Uma mulher se violenta calada pelo desejo de adquirir uma roupa. O casal se maculando na perda das afinidades. O homem se esvai na desilusão de todas as esperanças amorosas. A criança estabelece uma necessária confiança no único amparo que encontra, embora não confie em tal sustento. O cão abandonado anda errante.

Todos os seus personagens são esboçados, nunca desenhados. A partir daí cabe ao leitor adivinhar os rostos e os sentimentos. Neste ponto surge uma das mais intensas e contraditórias características do livro. Embora sem definições precisas e pontuais, trazem, os personagens, certa profundidade. São, de fato, reflexos vivos dos pontos que se perdem na multidão. Não sabemos de sua vida real, mas conseguimos captar, dentro do pouco a que temos acesso, todo um universo retórico.

Ausências
Neste ponto já podemos dizer que a literatura de Edson Valente é feita de ausências. Não há personagens nem cenários definidos, mas é exatamente nestes não-ditos que se firma sua segurança inovadora. Este jeito narrativo, que um dia se chamou de minimalista, neste caso, se apresenta em favor do exercício da metáfora. Recorrendo ao jargão filosófico, o autor oferece a tese e a antítese, deixando ao leitor a responsabilidade pela síntese.

Diante de tanta podridão, perguntei-me se você, onde quer que estivesse, teria apodrecido também. Imaginei varizes, galguei terrenos sulcados e pontuados por cancros espinhentos, penetrei sondas purulentas e procurei reconhecimento num pântano de remelas.

Taí um exemplo deste jogo de contrastes, deste trabalho com os contrários. É com senso poético e estético que Edson fala de secreções, podridões, degradações.

Esta dualidade se mostra ainda no espaço temporal de cada texto. Tal espaço pode durar toda uma vida, como no conto Invólucros — “E tudo era descoberta. Ele lhe fazia as vontades enquanto podia — e nem eram tantas —, ela se contentava quase secretamente e de todo pouco fazia um muito”. Ou simplesmente não tem tempo nenhum, como em Regresso — “O horror é justamente não poder precisar a chegada desse amanhecer, ou não estar devidamente preparado para ele; não poder fazer a contagem, em suma”. Mas no geral o que se lê são instantes, breves fatos em vidas que não se completam.

E volta a teoria cortaziana do soco. Refluxos, embora seja um livro curto, não é de fácil leitura, exatamente por buscar insistentemente provocar o leitor, por levá-lo a refletir sobre cada situação e daí tirar o sumo de cada conto. Quando se descobre a esfinge, quando se desvenda cada metáfora chega-se ao mundo degradado e até desumano denunciado nos textos. É uma espécie de soco lírico. Sofre-se o impacto, mesmo que o leitor o traga edulcorado por uma linguagem macia e até poética.

Neste ponto Edson Valente demonstra sua condição de escritor contemporâneo, escritor perfeitamente assentado nos padrões da nova literatura. Sua prosa é urbana, violenta e reflete os sentimentos do homem que entra um novo século desconhecendo plenamente as perspectivas do futuro. Esta incerteza, a ignorância sobre o bicho que o espreita na esquina, faz do personagem um homem inseguro, desconfiado e que reage aos seus medos com outra violência, como se tal atitude fosse capaz de reprimir os monstros que o rodeiam. Tudo dentro dos padrões atuais, em suma.

A novidade, a inovação está no mecanismo do uso da palavra. O livro se forma com metáforas. É texto para se ler nas entrelinhas, desafiando o entendimento, discutindo com o autor em cada novo parágrafo. Todo este exercício é excitante, sobretudo quando se tem, no geral, uma literatura amorfa, pouco criativa. Numa retórica de paralelos, a maioria dos novos escritores conversa com os naturalistas enquanto Edson Valente dialoga com um Campos de Carvalho sem o surrealismo, mais retratista.

Refluxo surge, assim, como um livro que consegue inovar, mesmo mantendo-se no cerne do debate literário atual.

:: 3 PERGUNTAS :: EDSON VALENTE

• Por que iniciar a carreira literária com um livro de contos?
Não foi uma estratégia, digamos, deliberada. O formato está relacionado ao caráter de urgência do que havia para ser dito. Eu tinha uma série de idéias, de pequenas reflexões que seriam mais bem expressas se trabalhadas separadamente, embora essas idéias mantivessem uma relação temática entre elas. Eu diria que os contos de Refluxos tangenciam histórias sem efetivamente narrá-las; são considerações sobre a condição de personagens que não têm uma identidade muito precisa. Considerações sobre a condição humana, enfim. O livro é como um disco de canções, e ao fazer essa comparação lembro que comecei a escrever canções antes de produzir contos. Geralmente ouço música enquanto escrevo, ela é o catalisador de meu processo criativo.

• Como foi o seu primeiro contato com a literatura? E o que ela representa atualmente em sua vida?
A escrita, desde muito cedo, ocupa um espaço irrevogável em minha vida. Costumava carregar diários e cadernos para onde quer que fosse e neles registrava fatos, sentimentos, pensamentos. Ainda conservo esse hábito. Também escrevia cartas, longas cartas para amigos, familiares, namoradas. Sempre me expressei com mais facilidade por escrito do que oralmente. E sempre li de tudo. Quando era criança, colecionava revistas em quadrinhos. No colégio, adorava as aulas de interpretação de texto. Considero a literatura como um aprofundamento na minha comunicação com o mundo. Em um sentido mais abrangente, é a tentativa de perceber esse mundo e de fazer parte dele, e, no âmbito mais prático, mais imediato, é um meio de enriquecer a relação com as pessoas próximas que lêem meus textos. As experiências para mim só se completam quando as registro, direta ou indiretamente, em um texto. O registro é a legitimação da experiência, seja ela objetiva, palpável, ou não; a literatura faz isso de uma forma muito simbólica, estética e ampla. Um estado de ânimo é o suficiente para originar um texto literário, ainda que esse texto não aborde explicitamente o sentimento que o inspirou.

• O que você espera alcançar com sua escrita?
Sobretudo alcançar um lugar que seja relativamente seguro, sobre o qual eu possa exercer algum tipo de controle. E encontrar o outro, estabelecer conexões, trazê-lo para esse lugar. Quero explorar os limites da escrita, o quanto ela pode emocionar, transgredir. A imagem e o som têm muitas vezes um impacto mais direto, mais imediato que o do texto. Eu penso ser mais comum alguém chorar no cinema ou ao ouvir uma música triste que atingir uma catarse ao ler um livro. A literatura, a meu ver, tende a ser menos emotiva, e considero um grande desafio escrever de uma maneira verdadeiramente comovente e ao mesmo tempo inteligente. A possibilidade de despertar e de comunicar sentimentos pela literatura me fascina.

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Edson Valente

Nasceu em São Paulo há 39 anos. É jornalista e trabalha na Folha de S. Paulo. Desenvolveu um projeto musical de canções folk chamado Edson & the Black Horses. É aficionado por cinema e música.

Era uma artimanha muito simples. Quando se apaixonava perdidamente por um vestido, em vez de empenhar nele o pouco que tinha, passava a dedicar-lhe horas e horas de pensamento e de pudica admiração platônica. No fim da tarde, comprava um sorvete pra disfarçar e rondava o amado indiferente, intacto sob um busto inerte, até que as pernas reclamassem ou os holofotes sucumbissem ao horário comercial.

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