Nossa América, nosso tempo

dezembro 2014 / Nossa América, nosso tempo / Uma hipótese: ars combinatoria machadiana

Texto publicado na edição #176

Uma hipótese: ars combinatoria machadiana

Machado de Assis: enxadrista Neste artigo, pretendo iniciar uma investigação acerca do caráter estrutural das constantes referências e alusões feitas […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Machado de Assis: enxadrista
Neste artigo, pretendo iniciar uma investigação acerca do caráter estrutural das constantes referências e alusões feitas por Machado de Assis à música e ao jogo de xadrez. A recorrência do procedimento autoriza a pesquisa. Por isso, ademais do sentido anedótico e biográfico, pergunto: as constantes referências ao jogo de xadrez e à música permitem trazer à tona um elemento fundamental para caracterizar o entendimento machadiano da própria literatura?

De fato, Machado foi um bom jogador de xadrez, chegando mesmo a compor problemas do tipo mais simples: “as brancas jogam e dão xeque-mate em dois lances”. Ele também foi um conhecido melômano, entusiasta de ópera. Machado formou parte da diretoria do “Clube Beethoven”, assim como disputou campeonatos de xadrez. Além desses dados biográficos, é possível surpreender em sua paixão pelo jogo de xadrez e pela música um dado propriamente estrutural?

Vale dizer, parto do pressuposto da existência de uma afinidade eletiva intrínseca entre literatura, música e jogo de xadrez. Penso, portanto, em poderosas matrizes combinatórias, que, partindo de um número necessariamente limitado de regras e de convenções, produzem variantes virtualmente inesgotáveis: como peças no tabuleiro de xadrez.

Ou como notas do teclado no piano.

Pode-se supor que a paixão de Machado pelo jogo de xadrez e pela música possa ter estimulado a renovação de seu entendimento acerca do caráter lúdico do fictício?

Ars combinatoria: eis o eixo de sustentação dessa ideia. Naturalmente, não se trata de estabelecer uma relação de causa e efeito entre a tradição da arte combinatória e a literatura de Machado de Assis. Pelo contrário, trata-se de identificar uma similaridade potencial entre procedimentos artísticos e lógicos, isto é, entre arte literária e arte combinatória.

O principal resultado desse possível futuro projeto seria o pleno desenvolvimento do conceito de ars combinatoria machadiana, desenvolvido através de uma nova perspectiva acerca da centralidade da música e do jogo de xadrez no imaginário do autor.

João_Cezar_ilustra_Carolina_Vigna_176

Ilustração: Carolina Vigna

Uma proposta teórica: Ars combinatoria
Em geral, sistemas combinatórios são descritos a partir de três procedimentos fundamentais: permutação, combinação e variação. A pluralidade das combinações possíveis permitidas por esses procedimentos tem estimulado sua apropriação pelo universo das artes, ampliando seu escopo inicial, que dizia respeito, sobretudo, ao mundo das matemáticas e das operações lógicas.

De Ramon Llul a Leibniz, a noção de ars combinatoria foi desenvolvida e aprimorada, desempenhando, posteriormente, um papel decisivo na arte e na literatura moderna. O livro de Leibniz, De arte combinatória, publicado em 1666, estimulou inúmeras apropriações nos séculos seguintes, constituindo um modelo de pensamento lógico, cujas similitudes com operações poéticas sempre foram observadas. Aliás, aqui, o jogo de xadrez e a música sempre foram vistos como modalidades especiais dessa grande ars combinatoria. As teses de Leibniz encontram-se na base epistemológica da cultura digital contemporânea, isto é, a matriz de pensamento ali exposta foi muito importante tanto na formulação de sistemas de programação, quanto no desenvolvimento da noção de “Inteligência Artificial”.

Eis, então, o sentido mais abrangente de minha proposta: em que medida a ficção machadiana pode ser iluminada a partir de um ângulo novo proporcionado pela tradição da arte combinatória? Trata-se, assim, de pensar seu interesse absorvente pelo jogo de xadrez e pela música como uma das formas que ele encontrou para pensar a própria literatura, entendida como uma modalidade particular de ars combinatoria.

Recordo o que todos conhecem bem: a riqueza da ars combinatoria empolgou escritores os mais diversos e através dos séculos.

No século 20 vem à mente as fascinantes experimentações do grupo OuLiPo — Ouvroir de Littérature Potentiel, que se pode traduzir como “Oficina de literatura potencial”. Grupo reunido na França em 1960, cujos expoentes mais conhecidos foram Italo Calvino, Georges Perec e Raymond Queneau.

Ora, o laboratório poético de Queneau, Cent mille milliards de poèmes, merece uma menção à parte.[1] Esse autêntico livro-objeto é, avant la lettre, um livro interativo — para empregar o vocabulário atual. Trata-se de uma máquina de produzir sonetos a partir de decisões que o leitor deve tomar e que sempre implicam a invenção de uma miríade de possibilidades latentes, que devem ser materializadas no ato de escolha deste ou daquele caminho.

De igual modo, o romance de Julio Cortázar, Rayuela (O jogo da amarelinha), dialoga com as experiências do OuLiPo, propondo um texto que pode ser lido pelo menos de duas formas diversas, conforme as orientações do autor. Porém, ao mesmo tempo, o leitor pode inventar suas próprias sequências de leitura dos capítulos, gerando virtualmente um livro-sem-fim.

Contudo, devagar com o tabuleiro: não se trata de relação simples, monocausal, mas de observar que o jogo de xadrez supõe uma técnica de arte combinatória; técnica definidora de uma linguagem peculiar, cuja forma potencializa interesses e obsessões do autor — e, naturalmente, essa ressalva é igualmente válida na análise para a obra machadiana.

Neste projeto, vale reiterar, pretendo associar essa potência da literatura à tradição da ars combinatoria, buscando entender o fascínio machadiano pela música e pelo jogo de xadrez como uma forma de apropriação dessa técnica para a transformação de sua literatura.

Vejamos, então, como a música e o jogo de xadrez são elementos recorrentes na literatura machadiana.

Machado de Assis e a música
Recentemente, importantes contribuições ajudaram a redimensionar a relevância da música na literatura de Machado de Assis. José Miguel Wisnik associou, com grande engenho, o personagem de Um homem célebre, Pestana, com uma proposta inovadora acerca da literatura machadiana e sua mescla de temas eruditos e populares. Jairo Severiano acreditou ter identificado o personagem, ou seja, o músico mesmo: “Outros autores importantes de modinhas e lundus na segunda metade do século 19 são Miguel Egídio Pestana, que virou personagem de Machado de Assis (…)”.[2] Idelber Avelar buscou radicalizar a fecunda interpretação de Wisnik, aproximando as referências machadianas à música aos estudos cultuais.

Porém, na perspectiva proposta neste artigo, a presença da música, autêntica paixão de Machado, na ficção do autor de Terpsícore, assume um tom diverso. O tema poderia ensejar um livro, tal a onipresença das referências à música na obra machadiana. Em alguma medida, Machado definiu sua poética em textos cujo protagonista é a música mesma, ou músicos, sempre às voltas com um cruzamento tenso entre música erudita e manifestações populares. Penso, entre outros, nos contos O machete (1878), Cantiga de esponsais (1883), Cantiga velha (1883), Trio em lá menor (1886), Um homem célebre (1888).

Nesse sentido, é possível surpreender uma confissão do autor na pena do Conselheiro Aires: “A música foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poético e acaso o patético, diria que é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe?” (I, p. 1142).[3] O próprio conselheiro define o perfil de Flora em Esaú e Jacó: “A música tinha para ela a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma coisa fora do tempo e do espaço, uma idealidade pura” (I, p. 1036). Essa descrição é uma autêntica fotografia da personagem, cujo caráter etéreo atravessa a narrativa, desorientando a todos: o conselheiro, e, por certo, os irreconciliáveis gêmeos, Pedro e Paulo. A música, portanto, desempenha função constitutiva no enredo, ajudando a definir o perfil de Flora. Já no Memorial de Aires, a nomeação do casal de protagonistas, Fidélia e Tristão, homenageia óperas de Beethoven e Wagner. Aliás, reitere-se que Machado foi membro ativo do Clube Beethoven e, em sua juventude, envolveu-se nas querelas a favor desta ou daquela soprano; Machado foi partidário fervoroso de Augusta Candiani.

Esqueço a impertinência dos fatos e concentro-me no aspecto estrutural.

A escala musical, com sua sequência ordenada de tons, limitada por um número predeterminado de notas, recorda um tabuleiro de xadrez, embora, por assim dizer, com quantidade inferior de casas e de peças. Ainda assim, as variações possíveis da escala musical são na prática infinitas.

O rendimento ficcional dessa noção leva longe.

Recordem-se as palavras cortantes de Hamlet, desaconselhando Guildenstern a seguir as ordens do rei:

— Ora, vede que coisa desprezível fazeis de mim. Pretendíeis que eu fosse um instrumento em que poderíeis tocar à vontade, por presumirdes que conhecíeis minhas chaves. Tínheis a intenção de penetrar no coração do meu segredo, para experimentar toda a escala dos meus sentimentos, da nota mais grave à mais aguda. No entanto, apesar de conter este instrumento bastante música e de ser dotado de excelente voz, não conseguis fazê-lo falar. Com a breca! Imaginais, então, que eu sou mais fácil de tocar do que esta flauta?[4]

A equivalência entre as escalas musicais e o diapasão das possibilidades de uma existência é tema que atravessa as mais diversas tradições. Por isso, imaginar que “todas as histórias já foram contadas”, ou “todos os modos de narrativa já foram explorados”, é um lugar-comum que a literatura de um autor-enxadrista-músico como Machado ajuda a superar. No universo da arte combinatória, sempre se podem encontrar variações que ainda não foram exploradas. Afinal, nunca se pode experimentar toda a escala dos (…) sentimentos, da nota mais grave à mais aguda.

Autêntica partitura, a ars combinatoria machadiana exige um leitor que seja capaz de acionar sua potência, convertendo o ato de leitura num ato de colagem.

Machado de Assis e o xadrez
O xadrez é uma referência importante na sua obra.

Em Iaiá Garcia, o namoro de Jorge com a filha de Luís Garcia é mediado por peões, cavalos, torres, bispos e, claro, reis e damas. A conclusão do narrador é um xeque-mate: “Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: olho de guia e paciência beneditina; qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas” (I, p. 464). A analogia é tentadora, mas tem limites. E por um motivo simples, a vida não é exatamente um jogo de xadrez, pois, no dia a dia, nem sempre as regras são obedecidas, muito embora ninguém possa escapar ao xeque-mate final que a todos vence.

O Conselheiro Aires talvez discordasse. Ele costumava armar-se para o convívio social como se antecipasse os lances do adversário, num complexo jogo de idas e vindas: “Ouvi todas essas minúcias e ainda outras com interesse. Sempre me sucedeu apreciar a maneira por que os caracteres se exprimem e se compõem, e muita vez não me desgosta o arranjo dos próprios fatos. Gosto de ver e antever, e também de concluir” (I, p. 1162, grifos meu). Não importa; afinal, a contradição é inerente à disputa.

Machado, repito, também compôs problemas de xadrez, geralmente os de tipo mais singelo: As brancas jogam e dão xeque-mate em dois lances. Porém, um problema composto por poucos elementos pode ser muito sofisticado, na economia de recursos característica da prosa do autor de Quincas Borba. Não é verdade que um romance como Dom Casmurro se assemelha a um quebra-cabeça sem solução? Ou a uma partida de xadrez, cujo xeque-mate fosse precisamente a impossibilidade de concluí-la?

E não é tudo: o primeiro torneio de xadrez realizado no Brasil teve lugar no Rio de Janeiro e contou com seis participantes; entre eles, Machado de Assis, que obteve um honroso terceiro lugar. O campeão foi o músico Artur Napoleão — como vimos, “parceiro” de Machado na composição de Lua da estiva noite.

(As pontas começar a ser atadas — e com êxito, ao contrário do casmurro narrador Bento Santiago.)

Por fim: o pioneiro campeonato de xadrez aconteceu em 1880, ano de publicação das Memórias póstumas de Brás Cubas — de Machadinho a Machadão, como bem disse Augusto Meyer em célebre artigo.

Acrescento: trânsito decidido como se disputasse uma imprevisível partida de xadrez consigo mesmo.

(Partida, aliás, disputada por uma legião de escritores.)

Música e jogo de xadrez, portanto, são formas da arte combinatória: experiências de pensamento que aprendemos a denominar machadianas.



[1] Raymond Queneau. Cent mille milliards de poèmes. Paris: Libraire Gallimard, 1961. Aliás, o livro de Queneau pode ser visualizado, afirmando o elo inesperado entre a arte combinatória de Leibniz e a cultura digital: http://x42.com/active/queneau.html.
[2] Jairo Severiano. Uma história da música popular brasileira. Das origens à modernidade. São Paulo: 34 Letras, 2008, p. 82.
[3] Citarei a obra de Machado de Assis pela edição da Nova Aguilar, em três volumes. Por isso, indicarei apenas o número do volume e a página da edição.
[4] William Shakespeare. Hamlet. Teatro Completo. Tragédias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 578, grifo meu.

Print Friendly