Ensaios e Resenhas

outubro 2015 / Ensaios e Resenhas / Uma guerrilha sem voz

Texto publicado na edição #185

Uma guerrilha sem voz

Palavras cruzadas, de Guiomar de Grammont, trata dos conflitos ocorridos durante a ditadura brasileira no Araguaia

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Guiomar de Grammont, autora do romance Palavras cruzadas.

Guiomar de Grammont, autora do romance Palavras cruzadas.

Os grandes traumas nacionais, como Canudos, a guerra do Contestado e a revolta dos Muckers, por exemplo, têm gerado belas obras de ficção. Canudos, além do clássico Os sertões, uma ampla reportagem escrita por Euclides da Cunha, encantou Vargas Llosa em A guerra do fim do mundo e José J. Veiga em A casca da serpente. Contestado ganhou seu romance em O bruxo do Contestado, de Godofredo de Oliveira Neto, e os Muckers, Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil. Em todos os textos, além de uma forte dose de contestação social, sobressai a intensa desigualdade entre as forças legais e a base armada da resistência, um conflito que Machado de Assis descreveu como a guerra entre o Brasil oficial e o Brasil real.

Pródigo na produção de episódios traumáticos, a ditadura militar que durante mais de vinte anos se apossou do país, passada a fase do memorialismo, vem ganhando cores e interpretações ficcionais que também salientam desigualdades bélicas e sociais. Assim não chega a ser surpresa que os escritores procurem uma versão romanesca para a guerrilha do Araguaia, uma dramática e frustrada tentativa de reproduzir nas florestas amazônicas um espelho da revolução cubana. Guiomar de Grammont, em seu novo romance, Palavras cruzadas, se debruça sobre o tema para mostrar um país desestruturado entre o sonho da resistência e a violência real dos senhores do poder, embora faça isso centralizando o drama na figura de uma jornalista que procura o irmão desaparecido no conflito.

Não é esta a primeira vez que o movimento do Araguaia ganha uma versão romanceada. Em 1993, ainda sob o impacto das revelações de fatos tão recentes, Pedro Correa Cabral, um capitão que pilotou helicópteros no palco da guerrilha, lançou o romance Xambioá — A guerrilha no Araguaia, no qual conta atrocidades profundas praticadas por militares e guerrilheiros. O livro, no entanto, não chegou a se consolidar literariamente. Faltava ao autor pujança narrativa para dar um tratamento qualificado à sua narrativa.

Guiomar de Grammont também não acerta de todo a mão ao ficcionar a guerrilha. A forma meio edulcorada como ela busca contar a paixão de dois guerrilheiros, Leonardo e Mariana, não parece ser a mais apropriada. Talvez o problema esteja na escolha do ponto de partida, um diário escrito pelo casal de guerrilheiros e lido pela jornalista Sofia, irmã de Leonardo. Falta à linguagem usada pelos narradores iniciais, uma derivação entre a poesia e o sofrimento, dramas e sangues mais inerentes à própria condição física dos protagonistas; uma matéria que Erich Maria Remarque nos ensinou a admirar já na primeira metade do século passado. Esta parte inicial de Palavras cruzadas, aliás, aos poucos apaga todo o desenrolar de suspense do romance, quando Sofia persiste em encontrar as verdades sobre a guerrilha.

Pouca força
O próprio enredo, enfim, ao se escudar de maneira muito direta na verdade histórica, perde força, afinal esta representação foi cunhada pelos vencedores. E há vários exemplos deste diálogo mais intenso entre “realidade” e ficção. O mais gritante deles conta que Mariana praticamente foge da zona de conflito para se livrar da pressão dos companheiros para que aborte a criança concebida com Leonardo. Um leitor atento não deixará de lembrar o estudante Pedro Albuquerque, preso sem documentos no aeroporto de Fortaleza em 1971. Pedro fugia do Araguaia para livrar a namorada Ana Cristina de um aborto imposto, e terminou por denunciar seus camaradas.

Leonardo não chega à condição de delator, mas ao se deixar apanhar com um diário — uma imprudência imperdoável — e ainda informar aos militares o endereço da própria família — uma suposição escrita nas entrelinhas do romance — perde um tanto de sua condição heroica. A desconstrução talvez involuntária do personagem se manifesta ainda em sua própria narrativa. Guiomar frequentemente descreve as várias formas de sobrevivência na selva encontradas pelos guerrilheiros. O tom, no entanto, perde a dramaticidade ao se aproximar do relatório, da quase transcrição de um manual de instruções. Encaixam-se aí a permanente fome e o constante medo de animais noturnos que assolam o espírito de Leonardo.

Passei dias ainda mais difíceis, querida, andei desesperado, pois não encontrava comida. Comia coco-babaçu e palmito selvagem. Venci a repugnância e comecei a comer até as lagartas brancas que se desenvolvem dentro da casca dura do babaçu. Com a marcha apressada e a barriga vazia comecei a ter tonteiras.

Outros tantos relatos ficcionais de guerra falam da superação quase imediata de todas as condições fisiológicas — até mesmo da fome e do medo do ambiente — diante das incertezas nascidas da situação de encurralado.

O romance chega a ganhar uma dimensão mais consequente quando fala das angústias geradas pelas incertezas de Sofia. Ao percorrer o mundo — do Araguaia a Cuba, de Minas à Europa — a personagem dá provas de sua obstinação, que outra não é senão aquela que move as vítimas de insondáveis injustiças. Mas aí o romance já percorreu mais da metade de seu caminho e o leitor se encontra plenamente envolvido com Leonardo e Mariana, e até o surpreendente desfecho de toda trama fica perdido, encoberto pelo protagonismo do casal de guerrilheiros.

Um bom enredo para falar de um tema fascinante. Pena que tenham faltado uma linguagem mais adequada e uma linha de suspense mais intensa. Estes dois pecados, desta vez, prejudicaram a condição de boa escritora que tem Guiomar de Grammont.

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Guiomar de Grammont

É escritora, dramaturga e professora universitária. Publicou, entre outros, a pesquisa histórica Aleijadinho e o aeroplano, o romance A casa dos espelhos, e os livros de contos Sudário, Corpo e sangue e O fruto do vosso ventre, pelo qual recebeu em 1993 o Prêmio Casa de Las Américas. Criou e dirige desde 2005 o Fórum das Letras de Ouro Preto.

Osvaldão, Sofia pensou. Era o temido e respeitado combatente, um dos chefes, tido pelos militares como o líder da guerrilha. Era mineiro como Sofia, um negro de um metro e noventa de altura, ex-soldado, com muita experiência de vida na mata. Carismático, despertava confiança nos guerrilheiros e fazia amigos por onde passava, muitas vezes, com caça na mão.

Guiomar_de_Grammont_Palavras_cruzadas_185

Guiomar de Grammont
Rocco
239 págs.