Passe de letra

março 2012 / Passe de letra / Um time chamado Caduca

Texto publicado na edição #104

Um time chamado Caduca

  Numa de suas crônicas, publicada no livro Coroas não se mancam!, o grande João Saldanha brinca com os atletas […]

> Por FLÁVIO CARNEIRO

Em pé: Levy, Marcelo, Luiz Paulo, Peru, Pelé, Henrique e Valério. Agachados: Flávio, Isaías, Márcio, Guto, Wilson, Melo e Jorginho.

 

Numa de suas crônicas, publicada no livro Coroas não se mancam!, o grande João Saldanha brinca com os atletas de fim de semana, os quarentões que aos sábados e domingos ocupavam os campos de futebol de alguns bairros do Rio, Petrópolis e Teresópolis na ânsia de praticar um esporte que não seria mais para eles.

No seu humor ferino, Saldanha cita o caso de um laboratório francês que ofereceu como brinde para seus clientes um caderninho todo bem-feito, com capa de couro e encadernação caprichada, onde se podia ler, na capa: “O que deve fazer um atleta depois dos quarenta anos”. Quando o cliente abria o caderno, se deparava com folhas e folhas completamente em branco.

Felizmente os mestres também erram. Estivesse certo o Saldanha, talvez não existisse hoje o glorioso Clube Atlético Duque de Caxias, de Teresópolis, mais conhecido na cidade e arredores por sua sigla: CADUCA.

Os outros que me perdoem, mas o CADUCA é diferente. A começar pelo drible do nome, que finge ir para um lado e vai para o outro, no melhor estilo Mané Garrincha. Sim, porque, até prova em contrário, embora quarentões (ou cinqüentões, em alguns casos), não tem ninguém caducando no time não!

Na verdade, não se trata exatamente de um time, mas de dois. E esses dois nunca repetem a mesma formação de um jogo para o outro. Cada jogo é único, absolutamente único.

O CADUCA é um grupo, do qual orgulhosamente faço parte, cujo plantel é formado por aproximadamente (o número exato varia sempre) trinta valorosos atletas. De prancheta em punho, um dos diretores — claro, temos uma diretoria, como não? — vai anotando os nomes dos jogadores, à medida que vão adentrando o estádio do Barra Futebol Clube (onde jogamos, na falta de sede própria), nas manhãs de sábado.

Quando a lista chega a vinte e dois nomes, estão definidos os titulares do dia. Quem chega depois disso, seja quem for, fica no banco. Tem início, então, a árdua e insana tarefa de montar as duas equipes para o duelo na arena gramada (o campo é oficial mesmo, onze contra onze, está pensando o quê?).

Todos os jogadores usam meiões e calções pretos. As camisas do dia (temos vários jogos de camisa) também são uma incógnita. Só no vestiário ficamos sabendo qual o manto sagrado que haveremos de honrar naquele dia. Azuis, cinzas, amarelas, vermelhas, verdes, pretas, tem para todo gosto.

Entrando em campo, uma coisa é certa: alguém vai reclamar que seu time está mais fraco. O time deles é muito melhor, isso estraga a pelada, assim não dá — são as frases mais comedidas.

Temos uniforme, temos estádio para jogar, com arquibancada e tudo. O que falta? Trio de arbitragem? Não falta não (às vezes falta um bandeirinha, ou os dois, mas juiz sempre tem). Massagista? Temos também. Pegador de bola? Temos. (No nosso caso, prefiro dizer pegador de bola a gandula porque, convenhamos, gandula não vai pegar bola na rua ou no quintal do vizinho). Torcedores? Vá lá, temos também — uma meia dúzia de três ou quatro que estão sempre lá, faça chuva ou faça sol.

E você pode perguntar: tem departamento médico? Claro (quer dizer, serve um centroavante ginecologista?). Segurança? Temos também (em nível estadual e federal, diga-se de passagem). E não poderia faltar, evidentemente, um departamento financeiro, composto por hábeis contadores (de histórias, inclusive).

Um grande clássico
Até cobertura da imprensa já tivemos numa época! Toda semana, mais precisamente às terças-feiras, um jornal da cidade publicava uma crônica sobre nosso jogo. Quem escrevia era um dos caducas, que relatava o que de mais importante havia acontecido no sábado. Era como se cada jogo nosso fosse um grande clássico!

Como não dava para dar nome aos times do clássico — éramos todos caducas, em última instância — nosso cronista apelava para as cores das camisas. As crônicas, então, estampadas num dos diários da cidade, traziam como títulos, em letras garrafais: CINZA EMPATA COM AZUL EM JOGO QUENTE: 4 X 4. Ou esta outra, uma das minhas preferidas. BRANCO E AMARELO FAZEM JOGO DE GALA. Ou ainda a pérola: VERDE ARRASA VERMELHO EM GOLEADA HISTÓRICA.

E seguindo as manchetes vinham as escalações, o relato do jogo, os comentários, os nomes de quem havia feito gol, recebido cartão, etc. Por motivos que não cabe aqui relatar, a coluna não existe mais. Durante um bom tempo, no entanto, éramos notícia semanal na página de esportes de Teresópolis, e tinha gente que deixava de ler a reportagem sobre o treino da seleção brasileira na Granja Comary para saber como havia sido o nosso último jogo. Não acredita? Então venha até aqui e converse com os mais antigos. Eles vão dizer se é verdade ou não.

E não é para menos que ocupávamos as páginas do jornal. Além do espetáculo em si, cada jogo do CADUCA sempre rende alguma história. Teve, por exemplo, aquela do nervosinho que foi expulso de campo duas vezes na mesma partida. Para que o leitor entenda o fato insólito, é preciso antes dizer que, no nosso regimento interno, lavrado em ata e registrado em cartório, quando um jogador é expulso deve ficar fora de campo por vinte minutos, podendo retornar depois.

Em pé: Valdir, Raul, Baú, Mário, Luciano, Robson, Luiz, Oswaldo, Carlos Alberto e Jorge. Agachados: Netinho, Bicicleta, Antônio Carlos, Beto, Marcão e Camarão.

 

Reexpulso
Pois naquele dia o dito cujo supracitado deu de reclamar acintosamente do juiz e foi mandado mais cedo para o chuveiro. Chuveiro, entenda-se, é força de expressão, o camarada foi mesmo para o banco de reservas, contando no relógio a hora de acabar o castigo. Quase no final do jogo o caduca retorna ao gramado e, revoltado com a marcação de um pênalti contra o seu time no último minuto, dá um bico na bola para longe das quatro linhas e é expulso. Ou, para ser mais exato com o episódio, é reexpulso.

E teve também, recentemente, o caso de um dos nossos goleiros picado por uma abelha em pleno jogo. O coitado era alérgico e não sabia. Foi parar no hospital. No sábado seguinte alguém chegou no vestiário dizendo que a Paula Toller iria dar um show na cidade. Pronto, foi o suficiente para desestabilizar psicologicamente o goleirão: Kid Abelha? Nãããooo!!!

E teve também aquela do zagueiro de dois metros de altura, três de largura e quatro de fundura, ex-jogador do Fluminense e tal, que falava grosso com os atacantes e não levava desaforo pra casa. No vestiário, todo mundo tirando das bolsas suas ferramentas de trabalho, quer dizer, chuteiras, meiões, caneleiras, etc. — o problema todo é o “etc.” —, eis que o zagueirão saca da bolsa algo que, definitivamente, não era para estar ali: um par de sandálias douradas. Femininas. De salto alto. São da minha filha, tentou explicar, em vão.

Como era de se esperar, depois do jogo tem sempre a cervejinha, no bar do estádio. É nessa hora que os egos se inflamam e cada lance é revivido com detalhes. O que pareceu apenas sorte vira um golaço e o autor cara-de-pau ainda é capaz de explicar exatamente o que pensou antes de fazer a jogada. Se houve uma furada, a culpa foi do campo, é lógico, que coisa horrível esse gramado, hein!

Na hora da cerveja não tem meio-termo: ou você é bola murcha ou é bola cheia, podendo ser inclusive as duas coisas, dependendo de quem esteja avaliando. E o mesmo avaliador pode mudar você de classificação, do céu ao inferno ou vice-versa, dependendo do momento etílico em que for dado o veredito. E não adianta chiar, a voz do povo é a voz de Deus, o que disserem que você fez no jogo você fez mesmo e pronto, não importam as evidências contrárias.

Disseram que você é fominha, que não toca a bola? Pois então você é fominha, mesmo tendo servido os companheiros várias vezes no jogo. Você fez três gols e deu o passe para o quarto mas a galera inventou de dizer que você jogou mal? Pronto, você deve rever seus conceitos futebolísticos.

No final do ano há sempre uma festa de encerramento da temporada, com a devida entrega dos troféus. Há o troféu de artilheiro, de craque do ano, de fair-play. E há também o renomado troféu Camisolão, ofertado ao atleta que mais vezes faltou aos jogos para ficar em casa, fazendo sabe-se lá o quê.

Fundado em 1966 por um pequeno grupo de amigos — um deles tinha uma loja na rua Duque de Caxias e teve a idéia brilhante de criar o nome de modo a compor a sigla —, o CADUCA foi muito além das expectativas de seus fundadores. Diria mesmo que, mais do que um grupo de apaixonados por futebol, tornou-se um patrimônio da cidade. Aliás, acho que deveria rever o título da crônica. O CADUCA não é um time, é um estado de espírito. E tenho dito.

NOTA
Com esta crônica, encerro a coluna Passe de letra. Durante quase dois anos, tive o prazer de contar com a companhia dos amigos que também colaboram com o Rascunho e com o apoio do Rogério Pereira, que me deu total liberdade para escrever o que quisesse. Espero não ter feito nenhuma (grande) bobagem. Agradeço a todos e, em especial, aos leitores. Em breve será publicado pela editora Rocco um livro reunindo todas a crônicas. Como diria o velho Saldanha: vida que segue.

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