Ensaios e Resenhas

maio 2019 / Ensaios e Resenhas / Um tanto de engano e um resto de verdade

Texto publicado na edição #229

Um tanto de engano e um resto de verdade

"Ninguém precisa acreditar em mim", de Juan Pablo Villalobos, traz os traços cômicos dos romances anteriores, mas configurados em uma forma particular e original

> Por Iara Machado Pinheiro

Juan Pablo Villalobos, autor de Ninguém precisa acreditar em mim

Juan Pablo Villalobos, autor de Ninguém precisa acreditar em mim

Ninguém precisa acreditar em mim

Juan Pablo Villalobos — não o autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorro, mas sim um dos narradores de Ninguém precisa acreditar em mim — escreve que, em literatura, o impossível é ultrapassado por meio da criação de um mundo novo e com outras regras de funcionamento. Essa é apenas uma das provocações sobre a escrita ficcional e as leis narrativas que despontam do mais recente livro do autor mexicano, mais ou menos discretamente, num enredo tão vigoroso quanto cômico e ligeiramente sádico. O desconcertante é perceber que o riso e o estado de suspensão, que fazem com o que o romance seja devorado em poucas horas, não se deve à criação de novas regras. Nele, o funcionamento do mundo é fragmentado e como que colocado em um anteparo que foca de maneira excessiva, o que torna tudo tão deformado quanto verdadeiro.

Em linhas gerais, a narrativa poderia ser apresentada com a partida do protagonista, Juan Pablo, do México para realizar um doutorado em teoria literária e literatura comparada — ou complexada, como diz um personagem do modo jocoso — em Barcelona. O conflito começa com as ameaças sofridas pelo personagem por parte de uma misteriosa organização criminosa, de maneira que ele é coagido a mudar o tema de sua pesquisa, a fazer sexo a três com sua namorada e uma espanhola, a matar um senhor xenófobo, até que ele mesmo torna-se vítima dessa facção e desaparece sem deixar vestígios.

Estrutura de mosaico
Na segunda das quatro subdivisões do romance, o leitor se dá conta que os fragmentos escritos com a primeira pessoa de Juan Pablo constituem um projeto de romance do personagem. O primeiro que ele consegue levar adiante e que parece servir de escopo para as tensões que resultam do inesperado rumo que sua viagem acadêmica assume, uma vez que ele é envolvido pelo primo nas artimanhas da organização criminosa. Logo que chega a Espanha, Juan Pablo passa a sofrer de uma coceira crônica, que deixa sua pele manchada e é sempre retomada pelos outros personagens com o diagnóstico de dermatite nervosa, enquanto o rapaz nega e diz serem apenas umas alergias. A escrita aparece como uma ocupação alternativa para os dedos angustiados do rapaz, um outro destino para o mal-estar e para o medo, o personagem diz escrever para não coçar.

O romance é ainda construído por outras três vozes: os diários de Valentina — a namorada mexicana de Juan Pablo que viaja com ele a Barcelona —, as cartas póstumas do primo — assassinado pouco antes do protagonista deixar o país natal —, e mensagens da mãe do personagem, que curiosamente nunca usa o pronome eu, sempre fala “sua mãe”.

A estrutura fragmentária constrói e desconstrói uma ilusão de totalidade. Constrói porque os diferentes olhares vão fornecendo pistas que faltam aos que enunciam o pronome eu. As cartas do primo, por exemplo, elucidam um pouco como Juan Pablo foi parar no meio dos criminosos. Os diários de Valentina oferecem uma segunda perspectiva do estranhamento e do ressentimento que ela experimenta ao notar as bruscas alterações que o namorado sofre assim que eles chegam a Barcelona. E as mensagens da mãe apresentam algo possivelmente bastante familiar para o leitor brasileiro: o preconceito da classe média de um país subdesenvolvido em relação aos conterrâneos, principalmente os pobres, o sentimento de “viralatismo” para com a Europa, e o que seria uma inegável superioridade moral e civilizatória do velho continente.

A ilusão de complementariedade das vozes é quebrada de maneira tão súbita quanto delicada na passagem do último capítulo para o epílogo. A terceira parte é encerrada com os últimos registros do diário de Valentina, que descobre o manuscrito do ex-namorado e tenta salvá-lo da facção. Em termos de enredo, o desfecho vai se desenhando na direção de uma quase redenção de Juan Pablo, já que a personagem consegue unir uma policial e a atual namorada espanhola do protagonista para tentar salvá-lo. No entanto, o epílogo — composto por uma derradeira mensagem da mãe de jovem pesquisador — apresenta que não só Juan Pablo desapareceu, como também Valentina e até mesmo uma criança argentina, de quem a mexicana era babá.

Ainda mais interessante do que a quebra de expectativa em relação à história é a questão da estrutura narrativa. Em determinado momento, Valentina descobre algumas dissonâncias entre o que seria a vida real e o manuscrito do ex-namorado. A partir dos sutis desencontros, ela experimenta alguma tranquilidade, por imaginar que o conteúdo relativo aos criminosos também pudesse ser exagerado ou distorcido. E o epílogo vem justamente confirmar a veracidade de tudo que parecia inverossímil.

A verdade das mentiras
É a desastrada trajetória criminosa de Juan Pablo que o faz começar a escrever seu primeiro romance, não a vida pacata de pesquisador ou o idílio amoroso que vivia com a namorada antes de ser cooptado por mafiosos. Como se a matéria-prima da literatura estivesse nos desvios, e não na amenidade do conhecido. A coincidência dos nomes, de um dos narradores do romance e do escritor, é bastante provocadora nesse sentido (há uma nota do Juan Pablo autor esclarecendo que a mãe do personagem não divide semelhanças com a sua mãe), até em razão do que tanto se fala hoje sobre autoficção. Talvez o “auto”, para virar ficção, precise ser disfarçado e destorcido, não há transcrição possível.

O que parece ser sugerido, portanto, é que a produção de verdade poética não passa pela reprodução da realidade, mas pelos efeitos de sua configuração em uma forma. Formas, aliás — Ninguém precisa acreditar em mim é composto por narrativa em primeira pessoa, escrita de diário e construção epistolar. Os vários gêneros, o título e a repetição dos termos verossímil e inverossímil talvez possam ser lidos como marca do impossível de agarrar a realidade, e os consequentes remendos artificiosos necessários para contornar o tanto de absurdo que há na verdade.

Como acontece com os bons livros, ainda seria possível falar de Ninguém precisa acreditar em mim sob várias outras perspectivas, como a relação colonizador/colonizado; desenvolvido/subdesenvolvido, que aparece por vezes colocando o humor em questão, ou ainda as sutilezas do espanhol, do castelhano e do catalão — mantidas, como vocativos, em sua variedade e riqueza pela tradução de Sérgio Molina —, e os pequenos abismos também de língua que se colocam para um imigrante.

O destaque às questões de estrutura narrativa se deve ao contraste deste último livro em relação aos três outros publicados no Brasil, que compõe a trilogia mexicana. A distorção e o absurdo como ferramentas de construção de verdade também estão presentes nos títulos anteriores. Em Festa no covil, por exemplo, o isolamento e a solidão do jovem narrador, criado em uma redoma pelo seu pai narcotraficante, é expressa com comicidade e sensibilidade no vasto vocabulário do personagem, tão inadequado a uma criança, e na felicidade encarnada nos hipopótamos anões da Libéria. Em Ninguém precisa acreditar em mim, Villalobos volta com a particularidade na construção dos personagens, mas em uma forma fragmentada, que coloca em questão o próprio escrever e o que não pode ser agarrado pela escrita.

 

 

Juan_Pablo_Villalobos_Ninguém_precisa_acreditar_229

Ninguém precisa acreditar em mim
Juan Pablo Villalobos
Trad.: Sérgio Molina
Companhia das letras
260 págs.

O AUTOR
Juan Pablo Villalobos
Nasceu em Guadalajara, México, e atualmente vive em Barcelona, Espanha. É autor da trilogia Festa no covil, E se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorro.

 

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