Ensaios e Resenhas

setembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Um subversivo êxtase cômico

Texto publicado na edição #173

Um subversivo êxtase cômico

Obra de Jaroslav Hašek traz uma irresistível sátira do agonizante Império Austro-Húngaro

> Por MARCELO LAIER

O frenesi despertado pela Copa do Mundo aqui nestas paragens infelizmente impediu a devida repercussão de um dos grandes lançamentos literários do ano. Traduzido diretamente do tcheco para o português brasileiro pela primeira vez, As aventuras do bom soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, é uma irresistível sátira do agonizante Império Austro-Húngaro, do ‘imperial e real’ exército e por extensão da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário da deflagração foi relembrado em julho último.

O bom soldado Švejk, este Cândido sem Cunegundes, declarado idiota oficial e demente, sofre diversas detenções, é submetido a tribunais de divisão, juntas de médicos militares e conselhos de guerra, é considerado duas vezes como espião russo, mas nunca perde a ingenuidade de seus bondosos olhos azuis. De estatura atarracada e corpo rechonchudo, rosto ingênuo, sorridente, que ‘lembrava a lua cheia’, tem sempre a sinceridade inata e a literalidade dos tidos como idiotas. Chega a ser descrito como não tendo nenhuma característica especial e muitas vezes repete o que seu interlocutor fala. Mas este astuto idiota sempre se safa de todas as trapalhadas e lambanças que faz e representa uma subversiva ameaça a todas as autoridades do agonizante e borocoxô Império Austro-Húngaro, um Estado em decadência política, econômica e moral, paralisado pela paranoia de sua vasta burocracia que perseguia todos, com direito a risíveis interrogatórios cruzados e detenções com motivações patéticas, as quais são debochadas ad nauseum neste romance. Também devemos nos lembrar que foi o último império católico da humanidade. Portanto os trechos sobre capelães, missas campais e extrema-unções militares são particularmente engraçados.

A suposta idiotice subserviente do personagem representa, na verdade, uma fascinante ambiguidade. É colocada em dúvida em dois momentos por seu superior, o Tenente Lukáš, tcheco como ele, do qual é feito ordenança ou escudeiro militar. No início da segunda parte, No Front, Lukáš diz a ele, depois de mais uma confusão: “Ainda não sei se se faz passar por idiota ou se nasceu idiota.” Ao final da terceira parte, A Surra Gloriosa, o tenente verbaliza o que os leitores certamente já perceberam àquela altura: “Švejk, quanto mais eu o ouço, mais me convenço que você não tem o menor respeito por seus superiores.” Os verdadeiros idiotas do livro são os personagens patrióticos, duramente execrados, que insistem em lembrar dos tempos de glória do Marechal Radetzky ou do príncipe Eugène de Savoy.

Uma corporificação de Mnemosine, o verborrágico Švejk, entre uma e outra trapalhada, utiliza-se de sua infinita capacidade anedótica para contar histórias virtualmente sobre qualquer assunto ou fato trazido à baila em suas conversas com outros soldados ou oficiais. Disposto a derramar até a última gota de sangue pelo imperador, não chega a participar de nenhuma batalha. Com suas parábolas de taverna, ele representa, em certo sentido, os resquícios de uma imemorial cultura oral, mas, acima de tudo, um triunfo da arte narrativa.

Escatologia onipresente
O romance é em larga medida escatológico, com imprecações, blasfêmias e palavrões (em tcheco, alemão e até húngaro). Há referências constantes a porcos e excrescências humanas. O subtenente Dub, por exemplo, um dos implacavelmente ridicularizados carrascos de Švejk, é descrito como um ‘semipeido’. O título honorífico de ‘peido’ é reservado a capitães, majores e coronéis. Uma das cenas mais terríveis do livro é uma narrativa de Švejk sobre um soldado que morre no front desta maneira:

Bem, no último momento ele se cagou de tal maneira que a merda misturada com sangue ficou escorrendo calças abaixo, botas abaixo e trincheira abaixo. O sujeito passa por uma coisa dessas e nem sabe como aconteceu.

Incontáveis diálogos e histórias do romance se passam na cozinha do batalhão, onde todos parecem só se preocupar em “comer e cagar”. Podemos acrescentar “beber” ao jogo de palavras, pois a maioria dos personagens bebem quantidades gargantuescas de todos os tipos de aguardentes. Da vasta trupe mambembe que aparece no livro, dois personagens secundários são mantidos até o final do romance: o pantagruélico ordenança Baloun e o cadete Biegler. Baloun, que hoje seria classificado como bulímico, rouba desde chocolates a latas de sardinhas de seu superior. Com suspeita de cólera, o pomposo suboficial Biegler é afastado da guerra com as “calças cheias”, antes de chegar ao front. Mas ao final da quarta parte ele retorna, mesmo debilitado pelas seguidas internações devido à sua incontrolável diarreia. Na verdade, Hašek faz uma incômoda provocação subliminar: a moral e os bons costumes se preocupam com o ‘bom gosto’, enquanto indivíduos rastejam como vermes em trincheiras em uma matança inexplicável.

É muito significativa a vitriólica reação de Hašek, no epílogo da primeira parte, às censuras do mundo culto de Praga, das associações de nobres damas, estas zeladoras dos bons costumes. Advogado de si mesmo, defende a sua obra e mesmo sua vida, já que ambas se confundiram até o final: “(…) Este romance não é um manual de como as pessoas devem se comportar nos salões requintados nem um livro didático de expressões a serem usadas na alta sociedade. É um retrato histórico de determinada época.” De fato, na linguagem coloquial, corriqueira, as pessoas não falam de modo empolado, seguindo algum manual de etiqueta; Hašek pretendeu reproduzir a linguagem das tavernas e dos bordeis .

Genealogia do soldado Švejk
Os antepassados literários de As aventuras do bom soldado Švejk são Boccaccio, Rabelais, Cervantes e o Cândido de Voltaire. A dupla Tenente Lukáš e ordenança Švejk, guardadas algumas diferenças, remetem a Dom Quixote e Sancho Pança. Ao fazer uma breve historiografia dos escudeiros militares o autor afirma no capítulo Švejk como ordenança do tenente Lukáš: “O que Sancho Pança era para Dom Quixote? Acho estranho que, até agora, ninguém tenha escrito a história dos escudeiros militares.” Já Rabelais é talvez o único escritor a ser explicitamente homenageado, quando o capelão Lacina acorda no vagão dos soldados sem saber onde está, depois de um porre descomunal: “O capelão despertou em toda sua magnificência e dignidade. Seu despertar veio acompanhado pelas mesmas manifestações do despertar do jovem gigante Gargântua, segundo a descrição do velho e engraçado Rabelais. O capelão-mor soltou um peido, arrotou e bocejou ruidosamente abrindo a boca de orelha a orelha.” Talvez uma diferença importante entre Švejk e o universo de Rabelais ou Boccaccio seja a ausência de concupiscência, a boa e velha sacanagem. De fato, em As aventuras do bom soldado Švejk há poucas cenas licenciosas, exceto algumas visitas a bordéis e menção a algumas festas dos oficiais, onde eventualmente vomitavam no colo das condessas. Mas não devemos nos esquecer que eram tempos de guerra, a maior carnificina da humanidade até aquele momento.

Já que estamos no campo das intertextualidades literárias, muito se escreveu comparativamente sobre as duas glórias da República Tcheca ou antiga Boêmia: Hašek e Kafka. Foram contemporâneos, nasceram no mesmo ano e morreram com apenas um ano de diferença. Sem consultar nenhuma fonte biográfica, arrisco dizer que jamais devem ter se encontrado ou correspondido, ainda que morassem também na mesma cidade. Aliás, um encontro ficcional entre os dois poderia resultar em um intrigante conto ou mesmo novela. Eles criaram originais e distintos universos ficcionais, em línguas diferentes, ainda que a matéria-prima da literatura de ambos seja o absurdo da paquidérmica e paranoica burocracia. E como nem tudo deve ser reduzido a classificações estanques, Kafka também foi um escritor cômico e Hašek nos proporciona trechos aterrorizantes em sua sátira suprema.

Ao eternizar as peripécias e trapalhadas de Švejk, Hašek produziu um humorístico O homem sem qualidades avant la lettre, um êxtase cômico infinito e inacabado, a partir da periferia do Império Austro-Húngaro, escrita na língua local, já que as classes cultas da Boêmia liam e escreviam em alemão, e de forte apelo popular. Recentemente comentei com um amigo cidadão do mundo que estava lendo o livro de Hašek. Ele me respondeu: “Estive em Praga diversas vezes e sempre vi lá as vitrines das livrarias tomadas por este livro.” Claro que Hašek só foi ‘canonizado’ post mortem, pois enquanto estava vivo foi um grande incômodo, já que não poderia jamais louvar a decrépita monarquia austro-húngara, cujos oficiais chamavam os tchecos de porcos, farsantes, traidores e pestilentos civis. Em um momento do livro chega a mandar um ‘recado’ ao primeiro presidente da República Tcheca, Tomáš Masaryk. Foi obrigado a publicar seu Švejk por conta própria após a recusa de todas as editoras e do público mais habituado aos romances para moças. Como todo grande escritor, Hašek foi contra seu próprio país, para depois ser canonizado por ele.

Enfim temos no mercado editorial brasileiro uma edição decente desta importante sátira. Há boa fluidez do texto em português e notas de rodapé na medida certa. Percebe-se claramente a magnitude dos desafios da tradução de uma obra desta estirpe, onde existem frases em alemão, húngaro e até em dialeto ucraniano dos rutenos. Ainda não chegamos ao padrão de qualidade da versão inglesa do livro, cuja edição tem um guia de pronúncia dos nomes tchecos, úteis mapas da extensão do Império Austro-Húngaro e das inúmeras cidades e aldeias pelas quais Švejk passa e, ausência mais sentida, todas as ilustrações originais de Joseph Lada ao longo do texto. Difícil não se comover com a reverência das duas frases adicionais do tradutor e diplomata britânico Cecil Parrott ao final desta obra inconclusa:

Ele já estava doente e a morte o silenciou para sempre em 3 de Janeiro de 1923. Ela o impediu de completar um dos mais famosos e lidos romances publicados após a Primeira Guerra Mundial.

Nestes tempos de ‘geniais’ humoristas nas crônicas de jornais e redes sociais, ler As aventuras do bom soldado Švejk reestabelece a ordem natural da hierarquia do humor.

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Jaroslav Hašek

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Nasceu em Praga, Boêmia (hoje República Tcheca), então parte do Império Austro-Húngaro, em 1883, e faleceu aos 39 anos na pequena aldeia tcheca Lipnice nad Sázavou em 1923, devido aos anos de alcoolismo. Exerceu diversas atividades, de redator da revista Mundo animal, auxiliar de farmacêutico a editor de jornais anarquistas. Sua obra de vida inteira foi As aventuras do bom soldado Švejk, planejada em seis volumes e ditada até o início da quarto volume.

Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica repousava nesta receita: “Às seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.

Capa As aventuras do bom soldado Svejk.indd

Jaroslav Hašek
Alfaguara
682 págs.