Dom Casmurro

dezembro 2011 / Dom Casmurro / Um sonho bonito

Texto publicado na edição #121

Um sonho bonito

Eu na sólita poltrona Sólido assento de couro Ele, figura de espelho No etéreo divã vermelho. Eu bloco sempre imutável […]

> Por LIVIA GARCIA-ROZA

Eu na sólita poltrona
Sólido assento de couro
Ele, figura de espelho
No etéreo divã vermelho.

Eu bloco sempre imutável
Ele um e todos, carente
Uno de aspecto vário
Que se entrega, em paciente
Transformado em adversário.

O conteúdo latente
De seu sonho, à revelia
Minha e dele, transformou-se
Em manifesta poesia:

Da garrafa estilhaçada
No ladrilho já sereno
Escorre uma coisa espessa
Que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos
Mal redimidos da noite
Duas cores se procuram
Suavemente se tocam
Amorosamente se enlaçam,
Formando um terceiro tom…”

A que chamamos o quê?
(Ah, que chamamos Raimundos
Ah, que chamamos Robertos
Ah, que chamamos de amor
De mães, chamamos de pais,
Ah, nós chamamos demais!)

Que tom é esse que agora
Vai surgir sobre os ladrilhos?
A aurora do inconsciente?
O sêmen de muitos filhos?
Ou leite e sangue igualados?
Seio materno pingando
A eterna redenção?
Ou a virgem trespassada
Nos lençóis sobre o colchão?

Nesse tão belo sonhar
Líquidas e amantes cores
Quantas coisas, quantas dores
Quantos temores e amores
Se escondem? Quantas vigílias?
Quantas casas e famílias
Estão ali ocultadas?
Quantos gritos de revolta?
Quantas confissões caladas?
Ou, como em tudo na vida
Que coisa está escondida?

Leite e sangue misturados:
Berço coberto de luto
E a mãe ainda presente
Numa falta que é produto.

O ser adulto regride
Sem voltar a ser criança:
Largar a locomotiva
E caminhar, aos esbarros,
Num trem que corre pra frente
Até os últimos carros.

O sonhador paciente
Claro mistério profundo
Ainda não despertara
Para os seres outros do mundo;
(que o ser humano é capaz,
mesmo rudimentarmente,
de se abrir gradualmente
e ser também a outra gente).
A abertura pro ser outro
Sendo ele também, embora,
É cruz, sina e maldição
O eterno aqui e agora.

Pré-nascente paciente
Em minhas mãos estendido
Dádiva, presente, graça
A quem dou a luz e o dom
De reconhecer em si
Formar-se o terceiro tom.

Assim, o sonho cifrado
Convertido, deslocado,
Foi por nós interpretado
Não cabia simplesmente
Tentar uma explicação
Era preciso driblar
A sobredeterminação
Que é ela quem rege tudo:
O sonho, o sintoma, a fala
Quem chora baixo, ri alto
Quem mais quer gritar, mais cala.

Do sonho pra se iludir
Do sonho pra se ocultar
Surgiu vibrante e inteiro
Cresceu novo e derradeiro
O tom forte e verdadeiro
A que chamamos terceiro.

Ser autônomo no mundo,
Que aceitou a alteridade
Como graça e liberdade
E que aceita, com alívio,
A santa mutualidade
Do livre e puro convívio.

No consultório deserto
Uma dúvida me ocorre:
O leite é sempre o que nasce?
O sangue é sempre o que morre?
E depois de tanto estudo
E de tudo que foi dito
Será que um dia ele vai
Ter outro sonho bonito?

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