Ensaios e Resenhas

novembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Um pouco em cada lugar

Texto publicado na edição #127

Um pouco em cada lugar

Quando dei por mim, estava ali, no teatro, hipnotizada pela letra da canção. Não sei se quem cantava era Sá […]

> Por ANDREA RIBEIRO

Adriana Lisboa. Foto: Matheus Dias

Quando dei por mim, estava ali, no teatro, hipnotizada pela letra da canção. Não sei se quem cantava era Sá ou se era Guarabyra. Sei que a frase não saía da minha cabeça. Confesso: tive de recorrer à tecnologia da rede para lembrar a melodia. Mas a frase, essa eu lembro bem: “Meu lar é onde estão meus sapatos”. Meu lar é onde estão meus sapatos. Primeiro, achei que não. Que, imagine, como vamos ficar por aí, um pouco em cada pedaço e lugar? Depois, achei que sim. Claro. E pensei: “Que bonito! Mas ainda bem que meus sapatos estão todos em minha casa. Que é lá o meu lar. Que eu tenho raízes, que eu tenho família, que eu sou daqui…” Um mês depois do show, ainda me rondava a frase de Sá. Ou Guarabyra. Não sei com o leitor, mas, comigo, as frases, depois de um tempo, viram gás. Ficam mais fraquinhas e voam. Depois caem, feito chuva. Pois então. Só voltei a pensar nos sapatos e no lar quase um ano depois. Quando li Azul-corvo, de Adriana Lisboa, choveu.

A escritora criou três personagens que parecem ter vindo com o refrão da música embutidos. Evangelina, a Vanja, nasceu nos Estados Unidos, mas veio para o Brasil ainda pequena, aos dois anos. Morou com a mãe no Rio de Janeiro por dez anos. Até que a mãe morreu — como já havia anunciado que faria. Durante um ano, viveu com a tia de criação. Mas havia uma coisa que ela precisava saber: e seu pai? Para descobrir, só viu uma solução: foi morar na casa de Fernando, ex-marido de sua mãe — e pai apenas no papel —, no Colorado. Ele certamente a ajudaria a encontrar seu pai biológico. E, assim, foi.

Fernando conheceu Suzana, a mãe de Vanja, em um pub londrino. Apaixonado, foi até os Estados Unidos atrás da moça, com quem se casou e de quem se separou. Vanja nasceu alguns anos depois que eles não estavam mais juntos. Mas Fernando foi quem registrou a menina que lhe procuraria 13 anos mais tarde para encontrar suas raízes. E foi para ela que ele contou tudo sobre o tempo em que foi guerrilheiro. Sobre o tempo em que foi conhecido como Chico Ferradura, lá no Araguaia. Sobre o que ele fez.

O terceiro personagem é Carlos, um parrudo piá salvadorenho de nove anos que mora com a família, ilegalmente, perto da casa de Fernando. Vanja ensinou o menino a ler e a falar inglês melhor. De quebra, ensinou um pouco de português também. A família de Carlos queria voltar para El Salvador. Mas ele não. Iria ficar ali, com Vanja e com Fernando, até conseguir os papeles.

Trio improvável
A história do trio é narrada por Evangelina, alguns anos depois da busca pelo pai, das aulas de inglês e português, das confissões sobre a guerrilha. Mas não é contada cronologicamente. Os fatos vão se misturando. São narrados fora de ordem, mas não se atropelam. Há como perceber uma linha de raciocínio. As idas e vindas no pensamento de Vanja. As mesmas informações acrescidas de novos detalhes.

Adriana Lisboa é detalhista. Por isso, prefere falar do que conhece. Das montanhas do Colorado, das areias de Copacabana, da neve felpuda que cai do céu. E de ser estrangeira — carioca, morou na França, no Japão, e agora vive nos Estados Unidos. Mas ela entra em terreno desconhecido quando resolve colocar como pano de fundo de um dos protagonistas a guerrilha do Araguaia. Não se sai mal — pelo menos, não a meu ver, totalmente leigo no assunto jamais ensinado nas aulas de história da minha época de estudante. Mas também não esclarece muito mais do que consegui pesquisar na internet. De qualquer modo, Azul-corvo não é um romance histórico. É uma história de encontros, desencontros, de pertencimento (a pessoas, lugares, coisas). De amor e descobertas.

Antes de ler, ouvi Adriana Lisboa falar um pouco sobre o romance no Paiol Literário, aqui em Curitiba (leia às páginas 12 e 13). Já sabia que Vanja, Fernando e Carlos formariam um trio de amigos improváveis. Eu os achei, mesmo, improváveis. Mas só até descobrir que todos eles estavam procurando os sapatos. E que os encontraram no mesmo lugar.

LEIA A PARTICIPAÇÃO DE ADRIANA LISBOA NO PAIOL LITERÁRIO

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ADRIANA LISBOA

Começou oficialmente sua carreira em 1999, com o romance Os fios da memória. Nos anos seguintes, lançou outros três: Sinfonia em branco (2001), Um beijo de colombina (2003) e Rakushisha (2007). Em 2004 lançou a coletânea de contos curtos e poemas em prosa Caligrafias. Em 2007 publicou a novela O coração às vezes pára de bater, adaptada para o cinema por Maria Camargo. Sua obra se completa com três livros infanto-juvenis: Língua de trapos (2005), A sereia e o caçador de borboletas (2009) e Contos populares japoneses.

Conheci imigrantes brasileiros que tentavam esquecer que eram brasileiros. Arranjavam parceiros americanos, filhos americanos, empregos americanos, guardavam a língua portuguesa dentro da garganta num lugar de difícil acesso e só se orgulhavam de suas origens quando alguém mencionava de modo elogioso o samba ou a capoeira (esta última também, na origem, a luta dos deslocados, dos expatriados, dos arrancados de casa.

AZUL-CORVO

Adriana Lisboa
Rocco
219 págs.