Ensaios e Resenhas

março 2014 / Ensaios e Resenhas / Um percevejo

Texto publicado na edição #167

Um percevejo

A grandiloqüência, o rebuscamento e o excesso na obra de Alberto Rangel desconhecem limites

> Por RODRIGO GURGEL

Alberto Rangel tentou repetir, em Lume e cinza, de 1924, o relativo sucesso de Inferno verde, publicado em 1908 com elogioso prefácio de Euclides da Cunha, seu amigo e mestre. Aliás, a correspondência do autor de Os sertões apresenta momentos expressivos dessa amizade: em 20 de março de 1905, escrevendo de Manaus, Euclides relata sua saudade, dá detalhes acerca dos preparativos para a Expedição de Reconhecimento do Alto Purus e agradece a Rangel pelas “generosas palavras” que este publicara no jornal Província do Pará; a 10 de dezembro de 1907, questiona sobre o lançamento do livro e revela a prática censurável, de exagerada camaradagem, ainda hoje comum no sistema literário brasileiro: “[…] Quando surgirá, afinal, o Inferno verde? Espero-o todos os dias. Tenho já três críticos a postos, de penas perfiladas, prontos à primeira voz”. No mesmo ano, em data desconhecida, com o livro em mãos, Euclides decreta: “Julgo o sucesso inevitável”.

De fato, muitos apreciaram o estilo que tentava repetir, de maneira desbragada, o “cipoal” euclidiano, as excentricidades que faziam o autor de À margem da história colocar-se, segundo Gilberto Freyre, “perigosamente próximo do precioso, do pedante, do bombástico, do oratório, do retórico, do gongórico”. Mas há profunda diferença entre os dois prosadores, pois a retórica que, nos trechos memoráveis de Euclides, surge carregada de dramaticidade, bem como o gênio do escritor para dosar possíveis artificialismos, transformam-se, nas mãos de Alberto Rangel, em mera cabotinagem.

Monstros
Semelhante a um parque de diversões, Lume e cinza oferece narrativas para todos os gostos: o inusitado diálogo entre um atlante e certo náufrago, subitamente interrompido pela destruição da ilha; o vôo inaugural de um “filóptero”, exercício de ficção científica; as angústias do monarca que não suporta mais a abundância de ouro no seu Eldorado; a volúpia de mulheres temporariamente abandonadas pelos homens da vila — desesperadas, atacam, à noite, cinco idosos que ali ficaram; a relação doentia, sempre próxima do assassinato, de um casal de fazendeiros; o ciúme incontrolável de uma menina, que chega a transformá-la em assassina; a descrição minuciosa dos males causados pelo Trypanosoma cruzi; o caso do amigo que não pode agradecer pela ajuda financeira, pois o câncer devorou sua língua; o pobre-diabo que acredita ter mau-olhado poderoso o suficiente para causar incêndios; o gramático e sofista abandonado pelos amigos quando os dias de fartura terminam. Essas histórias compõem as duas primeiras partes do livro, Fantasmagorias e Contos e recontos. Na última, Frutos da terra, o autor oferece crônicas sobre os elementos que considera característicos do Brasil: a jangada, o carro de boi, a palmeira, o monjolo, a queimada, a mandioca, dentre outros.

Um resumo assim, entretanto, não explicita o principal problema do autor cuja grandiloqüência desconhece limites. Alberto Rangel se espoja na própria linguagem, deleitando-se como incontrolável Narciso, a ponto de comprometer a verossimilhança das narrativas. Logo na primeira, Nas grimpas da Atlântida, o náufrago lançado à ilha é um homem destruído: “As chagas do seu corpo borbotavam sangue, como se na rocha sombria do costão desabrochassem em sete fontes sete rios de um rúbido cruor”. Mas essa criação hiperbólica, esse homem exaurido e à beira da morte, ganha, duas páginas depois, a força de um titã — e sobe por um “grosso cabo de cânhamo” até o cume da escarpa em que se encontra a civilização. Descobrimos, na justificativa para a súbita mudança, a linguagem rebuscada, responsável pelas características simiescas do personagem:

Habituado a levantar-se pelos galhos dos seus bosques natais, a fim de evitar os grandes répteis dos pauis e perseguir pelas ganeiras das árvores o vôo das tragopanas e o salto dos camaleões, alçou-se […] a vigorosos puxões dos pulsos reforçados.

Tratamento igualmente desagradável recebe a planta que dá título à segunda narrativa, O horto dos marroios:

[…] Não invejariam os labiados e almiscarados marroios a glória doutras flores mais notáveis ou pomposas, daquelas cujo perfume de longe entontece e arrebata as abelhas, e cujas corolas tingem os canteiros e latadas de mais cores que as da palheta de Apeles. Sem alardeio de vulto ou colorido, além de servirem os marroios a farmacopéias e ervanários, aureolavam na Beócia o abrigo dos brincos da imaginação, das ferroadelas da sátira, dos transportes dos poemas e dos textos de luz da erudição, na roda de alguns eleitos e preclaros…

Para usar uma expressão do próprio Rangel, sua linguagem é um “realejo incessante de metáforas” cujo preciosismo irrita e enfastia, a ponto de, em O Filóptero, salvar-se apenas curtíssimo trecho, quando a nave, pousando com violência na Antártica, mata algumas dezenas de pingüins. Trata-se, também, de narrativa em que o eruditismo concede ininteligibilidade à história:

— Hei de medir com o verboperêmetro a intensidade oratória desse canibal, resmoneou o velhusco, consertando esse octaedro de cobre onde se fixava um fio em espiral que, emergido da coveta de ondonite do turbilhonoscópio, se atirava ao quadrante graduado de uma espécie de eletróforo.

Tudo transpira esforço pompeante, ornamentação vazia. Em outro texto, Nos paços do Eldorado, a adjetivação desmesurada e a reiteração da presença de ouro em cada detalhe fazem a alegria dos semioticistas, pois recriam no leitor o nojo que o rei experimenta. É um exemplo de como a chamada função poética pode chegar ao paroxismo e produzir monstros.

Adornos e patriotada
A linguagem carregada de bacharelismo lembra os piores trechos de Afonso Arinos e Raul Pompéia:

A lisonja magnificava-o, recamando-lhe a fama das limalhas de um sol preluzido. Assim, miúdo de corpo e com as desproporções homunculares de um ludião ou um feto em bocal, na sua prolixidade enxurravam-lhe os embargos e a contrafacção.

Não basta ao narrador descomedido de Sono e peçonha dizer que o pai sai sem fazer barulho, a fim de não acordar a filha. Não… ele precisa agigantar a cena, florear:

[…] E acabou de vestir-se na ponta dos pés, para não acordar a filhinha, que deixaria a ressonar com o anjo de asa rútila e fechada que a velava, chumbando-lhe as pálpebras sedosas com os raios da alvorada.

Ainda insatisfeito, o narrador extrapola até provocar engulhos no leitor:

Pelas frinchas da telha vã entravam as primícias auritrêmulas da aurora a palorejarem a luzinha da lamparina à cabeceira da criança. Um grilo alongava com o invariável cricri a sua insônia de solista mofino e soporífero da noite. Os cílios e os lábios da boneca cerravam com fechos de seda e rosa a crisálida suave que palpitava na pasta branca e tenra da figurinha de amor. Devia ter um desses nomes com que a botânica por vezes se apura em adornar tão docemente a secura de seus róis taxinômicos: alba, mimosa, graciles e laeta.

Alberto Rangel sofre da patologia que aponta em uma de suas personagens: “eloqüência flageladora”. As digressões cansativas e a verborréia mesclam-se, algumas vezes, a manifestações gratuitas de erudição vocabulista, como ao listar, em Bucho-de-Piaba, os diferentes nomes da cachaça:

Era a venda do Saturnino, onde se vendia a cana, a outra má sorte deste povo: — a bicha, o caxixi, a pinga amaldiçoada, o parati de todas as horas, a mangereba reimosa, a pilóia, a sinhaninha, a tiúba, o restilo, a jeribita, que vilificava os fregueses e amadores, o mata-bicho que assassinava o bicho homem.

Em Ritinha Arapari, as informações sobre a ciumenta menina são repetidas ad nauseam — e o narrador se converte num equilibrista que, depois de refazer as mesmas acrobacias dezenas de vezes, merece apenas ser arrancado do palco.

No relato O crime de Rozendo Filho, enquanto o marido alimenta seu desejo de assassinato ao lado da esposa “contabescente”, esta, “magra e transida, desfolhava” — acreditem! — “a grinalda lampejante das flores mortais da insônia”.

Mas não joguei o volume pela janela antes de chegar à última página, pois tudo pode ficar pior quando se trata de retoricismo. É exatamente o que ocorre na parte final, quando ao discurso bombástico se acrescenta, num estilo exclamatório e anafórico, tremenda patriotada: a jangada é “diligente e volteira”, “humilde e libertadora”, “afoita e pescadora”. O monjolo é “o emblema da vida e da paciência no coração da roça”, mas depois se torna o “emblema da vida e da abundância no coração da roça” e o “emblema da vida e da pachorra no coração da roça”. A mandioca é o “pão do trópico”, a “mãe do trópico”, a “ração do trópico”, a “alma e segurança do trópico”, a “sustância e benefício do trópico”, a “salvação do trópico” e, finalmente, “riqueza dos pobres do trópico”.

Contudo, de todos os exemplos horrorosos que poderiam ser citados, o trecho a seguir, dedicado à palmeira, merece ser inscrito no panteão dos nossos retóricos:

És harmonia e firmeza, graça e desempeno, retidão e altura! Orgulho do Brasil que levanta no horizonte o seu exército fiel e ardente, firme e inumerável de lanças e penachos. Palmas à palmeira!

Alucinações
Essa literatura de penachos mostra os limites da Semana de 22 — que não passou de um traque para a maior parte dos escritores da época — e como alguns autores conseguem desprezar sua melhor tradição: em 1924, Alberto Rangel nada aproveitara de Manuel Antônio de Almeida ou Machado de Assis — e nem mesmo de Inglês de Souza, de quem certamente lera Contos amazonenses e cujas narrativas O gado do Valha-me-Deus e A quadrilha de Jacó Patacho, publicadas em 1893, são exemplos do melhor que a literatura brasileira produziu no século 19.

No prefácio de Lume e cinza, Alberto Rangel defende “a cor, a precisão e a energia de certos epítetos”, condena a “embirração” com os vocábulos, tratando-a como “infantilidade”. Esclarece que “não é tudo ir à pesca com o seu puçá de singularidades e bons achados no mar morto da língua”, mas é necessário estilo, pois este “é um meio, não é uma finalidade”. Faz, no entanto, exatamente o contrário. Ou seja, trata-se de mais um caso patológico, em que ação e pensamento dissociados produzem alucinações.

“Até hoje não surgiu ainda um crítico que ousasse dar-me a parte do que literariamente me pertence”, reclama Rangel em carta a Péricles Moraes, depois de perguntar: “[…] Não lhe parece ter havido uma espécie de conspiração para me reduzir a um simples percevejo do lombo euclidiano?”. Este breve ensaio responde à pergunta e, principalmente, atribui ao escritor a ínfima, desprezível parte que lhe cabe.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Antônio Torres e As razões da Inconfidência.

 

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Alberto do Rego Rangel

Nasceu no Recife (PE), em 29 de maio de 1871, e faleceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 14 de dezembro de 1945. Formou-se engenheiro pela Escola Militar do Rio de Janeiro em 1899, dando baixa do Exército no ano seguinte. Exerceu depois o cargo de diretor-geral de Terras e Colonização no Amazonas e de secretário do governo do mesmo Estado. Após ingressar na carreira diplomática, foi encarregado de pesquisar documentos nos arquivos europeus, onde se demorou vários anos e recolheu material para livros sobre fatos e figuras da história brasileira. Além de Inferno verde e Lume e cinza, deixou, entre outros: Euclides da Cunha (1913), Sombras n’água (contos, 1913), D. Pedro I e a marquesa de Santos (1916), Gastão de Orleans, o último conde d’Eu (1935) e A educação do Príncipe (1945).

A claridade do arco voltaico da iluminação pública turvou-se num eclipse, justamente quando buscava inspecionar o interior da abertura negra e cacóstoma, rasgada à maneira da boca de um pacamão nas barbas grisalhas e maltratadas do estafermo. Senti e corajoso suportei o hálito adurente e fétido do gastrálgico. Olhava, reolhava e não via bem.