Ensaios e Resenhas

setembro 2018 / Ensaios e Resenhas / Um dicionário para um indecifrável

Texto publicado na edição #221

Um dicionário para um indecifrável

Borges babilônico, organizado por Jorge Schwartz, propõe uma análise temática e detalhada do gênio argentino

> Por Jonatan Silva

Jorge Schwartz, autor de A mágica de pensar grande.

Jorge Schwartz, autor de A mágica de pensar grande.

Jorge Luis Borges foi um escritor enciclopédico e labiríntico: as bibliotecas sempre representaram o Paraíso. Se o portenho houvesse escrito A divina comédia no lugar de Dante, por certo que Virgílio, ao vagar pelo Inferno, passaria por um mundo sem livros. A relação do autor de Ficções (1944) com a bibliofilia é curiosa. Até sofrer um grave acidente na véspera do Natal de 1939, pouco escreveu de prosa ficcional. Para demonstrar, possivelmente a si mesmo, que ainda era um homem são, criou aquele que se tornou um de seus maiores contos: Pierre Menard, autor do Quixote. No relato, o personagem-título busca a perfeição em sua tradução do opus magnum de Cervantes para o francês, fazendo do próprio Menard o auteur do texto. Borges faria o mesmo com algumas das narrativas de História universal da infâmia (1935), cujo bojo é formado por escritos experimentais e releituras de Stevenson, por exemplo, e de O informe de Brodie (1970).

Mapear o vastíssimo universo criado — e adquirido — por um sujeito como Borges é uma tarefa quase impossível. Para tentar criar um livro à guisa de guia — ou enciclopédia, termo que deixaria o argentino mais à vontade — o professor e escritor Jorge Schwartz, sob coordenação editorial de Maria Carolina de Araújo, ambos tradutores do Ensaio autobiográfico (1970), organizou Borges babilônico, volume que se dedica a explorar os temas, ao menos a maioria deles, trabalhados por Borges ao longo de sua carreira literária. Dentre os colaboradores, responsáveis por escrever os verbetes desse dicionário, estão os escritores Alberto Manguel, Ricardo Piglia, Beatriz Sarlo, David Arriguicci Jr. — um dos grandes fomentadores do borgeanismo no Brasil — e o próprio Jorge Luis Borges.

Borges babilônico é como a biblioteca de Babel proposta no conto homônimo. Ao mesmo tempo que o livro não contempla tudo, se transforma em uma fonte infalível que não deve ser lida de uma única vez, mas consultada pouco a pouco — a cada leitura do Maestro. Entretanto, Schwartz é consciente que falar de Borges é também apresentar ao leitor suas imperfeições, como se o víssemos ao microscópio. Sem polêmica e nenhum sensacionalismo, temas como o apoio a Perón e a relação com Maria Kodama são abordados com a imparcialidade necessária. O volume não se debruça sobre a integralidade dos contos do autor de Discussão (1932), porém, escrutina os mais memoráveis. Como alerta o organizador, ter em mãos Borges babilônico não isenta o leitor de procurar os textos originais.

Se Borges é um escritor amplo, é difícil mensurá-lo ou defini-lo de maneira muito clara. Quando Borges babilônico nasceu, no final dos anos 1990, como um exercício que Schwartz realizava com os estudantes de graduação de Espanhol e de História da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), chegou-se ao número de 7 mil entradas, que precisaram ser reduzidas em um “processo seletivo” “subjetivo e arbitrário”. Pior ainda, argumenta o organizador, é subordinar os verbetes “à tirania do critério alfabético”.

Enciclopédico
Desde muito jovem Borges era grande leitor, principalmente, dos títulos que compunham a imensa biblioteca de seu pai, Jorge Guilhermo Borges. Muito além das literaturas, dedicou-se a devorar dicionário, enciclopédias, coletâneas temáticas sobre os mais diversos assuntos, construindo uma cultura ímpar a respeito de questões universais, inimagináveis.

A relação com obras vade mecum é o tema de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Ficções, ou do discurso O livro, de Borges oral & Sete noites (2011). O fascínio o fez também um organizador. Publicou O livro dos seres imaginário (1957), com Margarati Gerrero, Índice de la nueva poesía americana (1926), em parceria com Vicente Huidobro e Alberto Hidalgo, Antología clásica de la literatura argentina (1937), com Pedro Henríquez Ureña, e o mais conhecido: Antologia de literatura fantástica (1940), enciclopédia escrita com Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo.

Bioy Casares — leitor, discípulo e, posteriormente, parceiro de escrita — anotou em seu diário que Borges mencionou as enciclopédias como “obras de leitura”. Não que não reconhecesse o caráter consultivo destes livros, mas, para o autor de O fazedor (1960), uma enciclopédia é também uma espécie de compêndio de pequenas histórias como As mil e uma noites — uma das grandes obsessões de Borges. Há sim um quê de misticismo, não no sentido pejorativo, nos relatos borgeanos, que não demorou a formar um esoterismo muito particular e peculiar em suas narrativas. Esse caráter foi adquirido justamente no “folhear de páginas”, como o próprio escritor gostava de afirmar, dos volumes da biblioteca paterna.

É possível identificar uma simbologia recorrente em sua literatura: a cabala judaica, o conto policial — em especial Poe, considerado por Borges como o pai deste gênero —, o tigre, a adaga, o espelho — que, não raras vezes assume a forma do duplo (obsessão aprendida com Dostoievski) —, a cidade de Buenos Aires e, obviamente, o gaucho — figura fundamental na personificação da valentia e virilidade como em Homem da esquina rosada, de História universal da infâmia, e Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-74), do clássico O Aleph (1949).

Schwartz é consciente que falar de Borges é também apresentar ao leitor suas imperfeições, como se o víssemos ao microscópio.

Para construir em torno de si essa redoma mítica, Borges teceu seu tapete com inúmeras referências, referências que jamais cansou de citar. Parte de sua biografia — como Discussão (1932), Outras inquisições (1952), História da eternidade (1936) e Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespeare (2011) — são ensaios sobre os temas que mais apreciava. Borges babilônico, não por acaso, costura cada uma dessas referências. 

Infinito
O leitor de Borges é como o protagonista de O Aleph, está a buscar algo de único e divino em suas páginas. No prólogo de Nova antologia pessoal (1968) sentencia: “o que um homem não consegue fazer, as gerações fazem”. Ali parecia prever sua própria enciclopédia. A ordem que não conseguiu dar às peças do seu xadrez só ganhou forma à medida que seu jogo foi se alargando, tornando-se infinito.

Ainda que o termo não esteja em Borges babilônico, o termo é definido pelo Michaelis como:

Infinito

adj

  1. Que não é finito; que não tem nem pode ter limites ou fronteiras no tempo ou no espaço, em extensão ou magnitude; ilimitado, infindável, infindo.
  2. Que é dotado de poder, capacidade, sabedoria ou excelência extremos; excelso, sublime, transcendente.
  3. Que não se pode calcular; que não se pode exprimir em forma de cálculo; desmesurável, incomensurável.

Borges era — e é — tudo isso. Poucos conseguiram se alastrar de tal maneira. Entre os argentinos, talvez, apenas Cortázar, outro grande gênio que, infelizmente, não parece receber a atenção que lhe cabe. Como explicaria Edwin Williams na mais completa, e importante, biografia escrita sobre Borges, El Maestro nunca foi unicamente portenho, sempre se sentiu como um cidadão do mundo, alguém sem lugar fixo. Nasceu em um país, passou a adolescência em vários e voltou para um destes países de juventude para deitar sua lápide. Nisso, ele e autor de As armas secretas se parecem.

Jorge_Schwartz_Borges_Babilônico_221

Borges babilônico
Org.: Jorge Schwartz
Companhia das Letras
576 págs.

 

 

O ORGANIZADOR
Jorge Schwartz
Nasceu em 1944. Graduado em estudos latino-americanos e inglês pela Universidade Hebraica de Jerusalém e doutor em teoria literária e literatura comparada na USP, onde é professor titular de literatura hispano-americana na USP. É organizador de A mágica de pensar grande (2011), Vanguardas latino-americanas (2008), Borges no Brasil (2001), e autor de Fervor das vanguardas (2013) e Vanguarda e cosmopolitismo (1983).

 

Print Friendly