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dezembro 2019 / Rodapé / Um contista do nosso tempo (2)

Texto publicado na edição #236

Um contista do nosso tempo (2)

As cinco vertentes dos contos de Carlos Gildemar Pontes

> Por RINALDO DE FERNANDES

Os contos de O olhar tardio de Maria, do cearense Carlos Gildemar Pontes, se dividem, do ponto de vista temático e formal, em cinco vertentes. A primeira, e a mais vigorosa do livro, com uma incidência maior de narrativas, é a do quase poema do imaginário às soltas. Um lirismo intenso impera nessa vertente, cujos contos de maior destaque comento: A viagem, no qual sonho e vigília se baralham, alegoriza o desejo de deslocamento do protagonista, um solitário de uma metrópole que resolve explorar um terreno baldio vizinho ao pequeno quarto onde vive; Arrepios na noite, que tangencia o fantástico e contém boa dose de suspense, narra uma noite (e os sobressaltos) de um casal numa casa de praia; Miragem, muito bem composto, o mais intensamente lírico do livro, é uma alucinação do desejo; Minha mãe ouvia Chico Buarque é um conto emotivo, nostálgico (nostalgia = dor do retorno), de tons autobiográficos, tratando do convívio familiar perdido — a infância do narrador [autor] junto aos irmãos, a dolorosa perda da mãe; Paredes e retratos também traz um narrador [autor] tratando da memória familiar — a ausência da figura paterna, os desencontros com irmãos na vida adulta, a saudade da mãe; e A arte de fazer aeroplanos, mais um texto de timbre autobiográfico, abordando a inexorabilidade do tempo. Dois contos, Gemidos sinceros e, em especial, O sorriso de brinquedo, se inserem na segunda vertente, a da violência ou brutalidade no espaço público e urbano. A violência em Gemidos sinceros explode no banheiro de um hospital público, para onde o protagonista conduz uma idosa para ser operada e é surpreendido por dois indivíduos que lhe querem arrebatar a camisa. Na cena em que o protagonista enfrenta os dois no banheiro há asco (uma dentadura despenca no fundo de um vaso) e escorre muito sangue — de repente aparece um punhal, se sucedem “chutes” e “pisões” e a parede é lambuzada com “os beiços” de um dos indivíduos ensanguentados. O sorriso de brinquedo, por sua vez, é um dos contos brutais mais bem realizados no Brasil nas últimas décadas. Incluí-o na coletânea Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea, que organizei em 2006 (Geração Editorial). Relato rápido e certeiro, trata de uma briga entre mendigos que atacam o depósito de um lixão. Na briga, os mendigos sacam suas giletes e se “retocam uns aos outros”. Um deles segura “a torneira da jugular”. Aproveitando a confusão, a neta do que está espirrando sangue escapa com uma boneca retirada do depósito de detritos e vai para o sinal pedir esmola — sendo que um sujeito “do outro lado da rua” já está de olho nela. Violência extremada e infância desprotegida, vulnerável — tudo num texto que prima pela compactação, pelo dizer bastante com muito pouco.

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