Nossa América, nosso tempo

maio 2016 / Nossa América, nosso tempo / Um círculo talvez não seja um círculo

Texto publicado na edição #192

Um círculo talvez não seja um círculo

Breve história de Charles Van Doren

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Ilustração: Fábio Abreu

Ilustração: Fábio Abreu

No princípio era a imagem
No Evangelho dos dias que correm, seria necessário adaptar as palavras de João, pois o verbo cedeu lugar à imagem.

Não se trata, porém, de equação simples, pois a força do universo digital reside na reunião de palavra e imagem e som. Na observação certeira de Néstor García Canclini, hoje, somos todos, e ao mesmo tempo, leitores e espectadores e ouvintes e internautas.

Não se discute, contudo, a centralidade da imagem no mundo contemporâneo.

(A tal ponto que a frase anterior corre o risco de tornar-se um truísmo — um aforismo do querido Conselheiro Acácio.)

Poucos experimentaram as vicissitudes desse deslocamento com a intensidade de Charles Van Doren, o interlocutor de Mortimer Adler no livro que reúne a conversação dos dois autores, A arte da leitura: Diálogos sobre livros.

De fato, a história de Van Doren, como se diz, daria um filme!

Ou um livro — se pensarmos em sua família.

O tio, Carl Van Doren, recebeu em 1939 o Prêmio Pulitzer de Biografia por seu livro Benjamin Franklin. Professor renomado, publicou em 1921 The American novel, um dos primeiros estudos críticos a reconhecer a proeminência de Herman Melville no cânone da literatura norte-americana. Ainda hoje, ele é recordado como um dos mais talentosos biógrafos do país.

E o que dizer de seus pais?

Mark Van Doren foi um poeta reconhecido e um crítico respeitado. Em 1940, conquistou o Prêmio Pulitzer de Poesia pela reunião de seus poemas, Collected poems — 1922-1938. Especialista no teatro de William Shakespeare, dedicou um livro ao dramaturgo, deixando uma bibliografia tão vasta quanto apreciada.

Círculo familiar completo, pois sua mãe, Dorothy Van Doren, foi uma romancista de sucesso; títulos como Strangers (1926), Brother and brother (1930) e Menwomen and cats (1962) tiveram boa acolhida de público e de crítica.

Círculo ampliado: Mark Van Doren foi um professor de literatura celebrado como poucos, uma autêntica lenda no campus da Universidade Columbia.

Charles Van Doren, portanto, cresceu cercado de livros e estimulado por longas conversas acerca de autores e sobre os clássicos da tradição. Ao que parece, seu pai tinha um hábito peculiar, que consistia em distrair a família com um tipo próprio de jogo literário: inesperadamente, em meio à refeição, o especialista em Shakespeare empostava a voz e declamava um verso ou recordava uma fala qualquer de um personagem da vasta galeria shakespeariana. Cabia ao filho, Charles, completar os versos do soneto ou declinar o nome da peça, e, se possível, recordar o ato e a cena em que a fala tem lugar.

O reconhecimento do exigente pai e incansável professor era a única recompensa desejada.

Mais ou menos como num programa de televisão — desses que propõem perguntas as mais diversas para eruditos de ocasião, eloquentes sobre todo e qualquer assunto — até acerca daqueles que ignoram. Trata-se da erudição criativa, muito comum entre teóricos que redigem incontáveis páginas discutindo conceitos cujo idioma original nunca estudaram.

Os italianos têm uma palavra-navalha para esses sabichões: tuttologo. Recentemente, criaram outra, deliciosa, para definir os professores universitários que sempre encontram algo a dizer acerca da miríade de acontecimentos do calor da hora: opinionista.

O sofista de si mesmo…

Pois é.

Como se fosse um programa de televisão.

Mas, nesse caso, era um programa de televisão — infelizmente.

Um escândalo no meio do caminho
Twenty One, assim se chamava.

Vinte e um, como o jogo de cartas, assim se chamava o programa de televisão que mudou radicalmente a vida, em tese, perfeitamente organizada de Charles Van Doren.

Estamos em janeiro de 1957.

O jovem professor assistente da Universidade Columbia, com apenas 30 anos, mas já dono dos títulos de mestre em Astrofísica e doutor em Literatura Inglesa, começou a participar de umas das atrações mais populares da televisão norte-americana: os shows de perguntas e respostas acerca de temas diversos. O sucesso da fórmula estimulou a concorrência entre os canais e encontrar participantes atraentes para os telespectadores era a obsessão de todo quiz show.

No caso de Charles Van Doren, a combinação de fatores parecia imbatível: bem-apessoado, charmoso e polido, o benjamim de uma reputada família de letras, o doutor em Literatura encantou o público, enobrecendo de forma inédita um modesto formato televisivo.

Cartas na mesa, todos ganharam.

A audiência foi aos céus nos três meses de participação de Van Doren.

Os patrocinadores lucraram como nunca antes.

O jovem professor amealhou aproximadamente 130 mil dólares; em valores atualizados, quantia equivalente a 1,2 milhão de dólares.

Nada mal.

E ainda houve mais.

Em 11 de fevereiro de 1957, triunfante, Van Doren apareceu na revista Times, e, pouco depois de deixar o Twenty One, tornou-se apresentador da rede NBC, como renomado especialista em assuntos culturais.

(Um opinionista — portanto.)

Seria Charles Van Doren o primeiro intelectual de formação sólida a tornar-se uma celebridade televisiva?

Não!

Mas poderia muito bem ter sido, se, em 1959, uma investigação sobre programas de televisão cujos resultados eram fraudulentos, pois arranjados previamente, não tivesse alvejado a jovem estrela em ascensão. Paradoxalmente, a projeção midiática de Charles Van Doren tornou-o um alvo fácil, quase óbvio. Ademais, o polido professor terminou por admitir que a razão pela qual venceu a todos os seus oponentes por três meses consecutivos nada tinha a ver com um impressionante domínio da história do conhecimento — passado, presente e inclusive futuro.

O motivo das conquistas certamente não encheu de orgulho sua família de letras: ele recebia as perguntas antes da emissão do programa.

E também as respostas — bem entendido.

E ainda ensaiava com os produtores do quiz show, preparando uma verdadeira coreografia de gestos e de expressões, a fim de encenar uma hesitação aqui, um nervosismo ali; afinal, se acertasse todas as questões com facilidade, pareceria arrogante, o que decepcionaria seu fiel público.

O que veio depois é bem conhecido; o episódio virou um filme de sucesso, lançado em 1994, Quiz Show, dirigido por Robert Redford, com Ralph Fiennes no papel do jovem professor.

O próprio Van Doren escreveu o relato definitivo acerca do episódio.[1]

Numa frase: meteórica foi sua fama e ainda mais célere sua desmoralização.

Perdeu o emprego na NBC.

Foi atacado sem piedade, e ao vivo, por Dave Garroway, apresentador de The Today Show. Na recordação agridoce de Van Doren: “me disseram que ele estava sinceramente irritado — nem conseguiu terminar a emissão e foi substituído”.

Claro: a audiência nesse dia superou todas as expectativas — que eram grandes. A crônica de uma reputação assassinada é o gênero mais exitoso da televisão desde os seus primórdios, ou seja, exatamente nos anos de 1950.

Já tinha sido de certa imprensa — dita marrom.

E continua sendo o bestseller das redes sociais com seus juízos sumários e linchamentos virtuais.

A Universidade Columbia emitiu um comunicado lacônico, esclarecendo que a carta de renúncia de Van Doren seria prontamente aceita.

Sem dúvida, era o fim do caminho.

Águas de Mortimer
A arte da leitura: Diálogos sobre livros começou a nascer nesse contexto nada favorável.

Eis: homem de reputação impecável, Mark Van Doren era amigo de longa data do filósofo e educador norte-americano Mortimer Adler. De fato, ele dedicou um poema a Adler, Philospher at Large, no qual louvava o talento maior do pensador, qual seja, ir além das aparências, numa busca permanente do núcleo dos fenômenos, dos textos e das pessoas.

Vale a pena recordar alguns versos:

The ancient garden where most men
Step daintily, in specimen dust,
He bulldozes; plows deep;
Moves earth, says someone must,
If truth is ever to be found
That so long since went underground.
What truth? Why down? He shakes his head.

(Umas das melhores páginas do livro é justamente aquela na qual o filho pródigo se converte em exegeta do pai e “explica” a Mortimer Adler o “sentido” do poema.)

Literalmente o “philosopher at large” lavrava a terra a fundo, pois, para o poeta, Adler evocava a figura do homem que passou a vida cultivando a mente.

Como fazê-lo sem escavar o solo em busca do húmus?

Além de uma fecunda carreira acadêmica, Adler também trabalhou como um dos principais editores da Encyclopædia Britannica. Assim, pôde oferecer uma vida nova a Charles Van Doren, contratando-o como assistente.

No princípio, ele precisava assinar seus textos lançando mão de pseudônimos, já que o escândalo continuava fresco na memória coletiva. No entanto, a amizade intelectual com Adler tornou-se pouco a pouco mais sólida e eles acabaram preparando em 1972 uma edição atualizada do bestseller acadêmico How to read a book; edição essa firmada pelos dois.

Adler, aliás, fez questão de dar a Charles o que pertencia a Van Doren:

Para a tarefa de atualizar, refazer e reescrever este livro, tive o auxílio de Charles Van Doren, que há muitos anos é meu colega no Institute for Philosophical Research. Já trabalhamos juntos em outros livros, como Annals of America, em vinte volumes, publicado pela Encyclopædia Britannica em 1969. O aspecto mais relevante, talvez, desta empresa cooperativa em que fomos coautores, é que durante os últimos oito anos Charles Van Doren e eu trabalhamos muito próximos na condução de grupos de discussão sobre os livros clássicos e na condução de seminários em Chicago, San Francisco e Aspen. Essas experiências nos proporcionaram muitas das intuições que levaram à reescritura deste livro.

Agradeço a Van Doren pela contribuição dada a nosso esforço conjunto.[2]

A iniciativa teve grande êxito.

Por fim, Charles Van Doren retornou à televisão, batendo papo com Mortimer Adler.

Agora, contudo, as únicas respostas que precisou encontrar versavam sobre livros que ele havia efetivamente lido, relido e treslido — como Machado de Assis definia seu ato particular de leitura.

Nada mais estava em jogo.

Ou não.

No diálogo que originou A arte da leitura, os dois interlocutores dão corpo à metáfora clássica da tradição — e especialmente dos livros que a transmitem — como uma longa conversa entre pessoas que nunca se encontraram, mas que jamais estiveram distantes.

Releia a última frase proferida por Van Doren sobre a arte de ler livros: “Basta desligar a televisão e começar a lê-los”.

Ninguém poderia dizê-lo com mais propriedade.

Coda
Aposentado, Charles Van Doren seguiu a trilha do mestre e assinou um livro que rapidamente se tornou um bestseller.

Você quer saber o título?

A history of knowledgePastpresent and future.

(Reinventar-se é possível. Ainda bem. E, não se esqueça, a lição importa para todos nós.)

nota
Na próxima coluna, retorno à série sobre museus. Visitaremos o Musée Eugène Delacroix.

notas

[1] Charles Van Doren. “All the Answers. The quiz-show scandal – and the aftermath”. Disponível em: http://www.newyorker.com/magazine/2008/07/28/all-the-answers. A citação se seguir foi extraída deste artigo.

[2] Mortimer J. Adler & Charles Van Doren. Como Ler Livros. O Guia Clássico para a Leitura Inteligente. Trad. Eduardo Wolf & Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, p. 22.

 

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