Ensaios e Resenhas

outubro 2016 / Ensaios e Resenhas / Um céu estrelado debaixo da terra

Texto publicado na edição #198

Um céu estrelado debaixo da terra

"Pé do ouvido", de Alice Sant’Anna, intercala momentos de convivência, solidão e relatos

> Por RAFAEL ZACCA

Alice Sant'Anna, autora de Pé do ouvido

Alice Sant’Anna, autora de Pé do ouvido

“Não é possível conversar sobre a cor com um cego.” Essa afirmação de Goethe, em sua Doutrina das cores, parte da certeza de que uma forma qualquer é uma manifestação sensível, uma organização que se oferece ao sentido que lhe é correspondente. Ela pressupõe também que, sem esse sentido, a forma não pode ser vivida. Goethe pode explicar a lei das cores para um cego, mas não a sua natureza. Em outras palavras, para o poeta a afecção pelas cores não pode ser traduzida (trans-portada/formada) sem prejuízo de sua própria substância. “Há algo insanamente atraente a propósito do intraduzível”, segundo Anne Carson. Em Nay Rather, a poeta canadense propõe, contra as soluções “aproximadas” ou mesmo “pré-estabelecidas” para palavras e expressões intraduzíveis, uma “catastrofização” das formas. Em Carson, não está em jogo o ataque ao amputado (a negação do debate com o cego a propósito das cores, por exemplo), mas ao sistema que reconhece os sensíveis e os não-sensíveis.

Não tanto um problema de comunicação, quanto de convivência. Viver junto, viver as mesmas coisas, viver ao lado, viver com. Alice Sant’Anna já o esboçara, em livro anterior, como um de seus motores poéticos, com um enorme rabo de baleia que afundava diante da falta de assunto entre os conviventes despercebidos. Agora com Pé do ouvido, o problema retorna na forma de uma viagem, que intercala momentos de convivência, solidão e relatos. Como no caso em que Alice relata a aparição da lua magnânima, elevando-se sobre um público (novamente) despercebido, que ela gostaria de mostrar a seu companheiro de viagem; no entanto, “a câmera não ajustaria o foco/ e escrever que viu uma grande lua/ não impressionaria ninguém”. E, já que a vivência da forma, como a das imagens, se dá por impressões, “guardou para si/ como um segredo: a lua cheia”. Que este seja um problema de tradução, o denunciam alguns dos primeiros versos do livro, em que Alice dialoga diretamente com uma tradução de e. e. cummings feita por Augusto de Campos:

as árvores
cada qual de uma cor
ela faz caminhos muito mais longos
para ver se aquele laranja
de perto é mesmo possível
e quando as folhas começam a cair
e a contaminar as calçadas
e as escadas e as portas das casas
da nova Inglaterra
com seus surpreendentes amarelos
a diferença entre solitude
e loneliness qual é?

Não tanto para impressionar o sujeito, como para imprimir uma imagem através de algum sentido é que a arte se torna formalista. É no reconhecimento de que são as formas que atuam em nós que a arte se torna um exercício de linguagem antes de tudo. Da reflexão infinita originada nesse processo, dão testemunho os primeiros românticos da Alemanha. No entanto, e isso é de alguma maneira sugerido por esses precursores da poesia e da crítica de nosso tempo, é preciso investigar em que posição se encontra cada obra em particular diante do problema da forma.

No que diz respeito ao eixo vertical da relação com a linguagem, o artista tem à sua disposição duas atitudes básicas: pode apresentar-se como senhor, como se faz em alguma poesia conceitual, comandando o jogo (doméstico ou selvagem, pouco importa distinguir aqui) dos significantes (é o que faz magistralmente Augusto de Campos, como poeta e como tradutor); ou pode rebaixar-se ao nível da linguagem, e conviver com suas aparições como se fossem objetos pré-formados, isto é, emulando (ou crendo, e novamente não é o lugar para essa distinção) uma correspondência entre vida e imagem, coisa e sensação (como em Hilda Hilst). A segunda atitude elabora uma linguagem mais lírica, frequentemente mais amorosa ou irada, melancólica ou eufórica, o que é usualmente confundido com certa ingenuidade. Não há, no entanto, nenhuma ingenuidade na proposta de viver entre, e não sobre, as formas.

Viver entre formas é limitar-se não apenas a elas, mas também como elas. É essa atitude de Pé do ouvido, e a voz elaborada por Alice Sant’Anna opera por distração imagética, em que as analogias se acumulam, causal e casualmente, como uma onda que quer levar seu interlocutor… para onde? Talvez pouco importe; talvez banhar o outro seja um jeito de estar junto. Nisso a poeta aparenta-se ao trabalho recente de Marília Garcia em Um teste de resistores; no entanto, os elementos a serem imprimidos na poesia de Marília são percursos, trânsitos, e em Alice, coisas transitórias ou transitivas.

O barulho dos tamancos e balcões de madeira com marcas d’água; as estações do ano e a poesia oriental; as árvores, as frutas, os legumes; a tristeza do outono chinês e a vivacidade do antigo outono japonês; as fases da lua e as cores; a poesia de Alice quase nos faz sentir tudo isso. E o consegue graças a um trabalho sutil de dispersão e unidade. Mas esse quase se faz notar. É possível, por exemplo, explicar a receita do ovo poché, mas não o entregar; o coração das coisas está distante, indisponível:

se pudesse segurar o coração
entre os dedos uma fruta
um pêssego com pele de veludo
uma maçã robusta com casca vermelha

Pé do ouvido é dividido em duas partes. Trata-se efetivamente de um longo e solitário poema, que Paulo Roberto Pires apelidou “poema de formação”. De fato, trata-se de um poema de formação: não apenas por apresentar uma personagem jovem que “parte em viagem e [que], a cada experiência vivida, forja, por acumulação, sua personalidade e visão de mundo”, mas principalmente porque é um poema formador de outros poemas. Diversos de seus trechos podem ser lidos como se fossem poemas autônomos. São essas pequenas unidades que passam por experiências, e que forjam, por acumulação, diversas “personalidades” (ou ainda “formalidades”) e “visões de mundo”. Uma vez que tais unidades são, efetivamente, formas, afetam o eu-lírico anacronicamente, que se comove com o deslumbramento que uma personagem tivera no passado:

aos dezesseis
entrou numa caverna onde o breu era total
e quando os olhos começaram
a se acostumar com o escuro
quando começaram a discernir
um cinza aqui, um tom mais claro ali
as larvas suspensas no teto
aos poucos se acenderam
até que subitamente eram muitas luzes acesas
um céu estrelado
debaixo da terra
pleno sol lá fora
como explicar a noite e o dia
ao mesmo tempo? tem certeza
de que não foi um sonho?

Se as personagens desejam conviver e se frustram, o mesmo não se passa no nível formal. Talvez seja possível afirmar que o eu-lírico alcança alguma convivência com as formas, ao se aparentar a elas, que também convivem entre si. É um gesto generoso, que entrega, ao leitor, um convite para o mundo das formas. Cego ou não, o convidado contempla, se não o espetáculo das cores, o intercâmbio das impressões causadas pelas imagens. Qualquer coisa como um milagre, ainda que sem restituição do órgão perdido. Foi Henry Focillon quem formulou que “a vida das formas (…) engendra diferentes geometrias no interior da própria geometria” — corresponde a esse engendramento o “estremecimento ligeiro” de um “milagre dessa imobilidade hesitante”. Podemos imaginar Alice tremendo.

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Pé do ouvido
Alice Sant’Anna
Companhia das Letras
64 págs.

A AUTORA
Alice Sant’Anna

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1988. Colabora com a revista Serrote. Além de Pé do ouvido, publicou Dobradura (2008) e Rabo de baleia (2013). Em 2012, publicou Pingue-pongue, em parceria com o poeta Armando Freitas Filho.

 

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