Fora de sequência

setembro 2014 / Fora de sequência / Um caminho de conhecimento

Texto publicado na edição #173

Um caminho de conhecimento

O primeiro poema da humanidade — A epopeia de Gilgamesh — é uma coleta de “mitos de fundação”, mas também […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

O primeiro poema da humanidade — A epopeia de Gilgamesh — é uma coleta de “mitos de fundação”, mas também está na raiz daqueles périplos iniciáticos, daquelas viagens que são a Busca no interior de cada um, em deslocação para “fora”, rumo ao centro da terra do eu, conforme é a saga vivida pelo herói antigo e por seu Sancho Pança sumeriano, no “País da Primeira Vez”.

E isso prosseguiu para além da idade do bronze, fornecendo o modelo das novelas da Cavalaria que, bem analisadas, conservaram as lições do remoto mundo antigo, mesmo nos termos da cristandade. Foram torções da tradição milenar, à medida que a cultura avançava até o que possuía um completo conteúdo sagrado, naquele contexto arcaico, ir se dissolvendo através das idades. Gestas medievais, a Divina comédia, o Pilgrims progress de John Bunyan, o Livro Quinto do Pantagruel, de Rabelais… e, já meio irreconhecível, também na Viagem aos estados da lua e do sol, de Cyrano de Bergerac, e até no Wilhelm meister, de Goethe — todos conectados com o significado primordial até o ponto curioso da narrativa “científica” na qual se traveste o Viagem ao centro da terra, de Jules Verne.

No caso desse livro, temos uma iniciação disfarçada (conscientemente ou não) sob a baixa forma de um romance de aventuras “de antecipação” que o tempo ainda não desbotou, porque todos os meandros do tema — e mais a rede das suas articulações — estão presentes nessa novela infantojuvenil que é uma das criações vernianas mais populares entre os brasileiros que cresceram sob o fascínio do tio “Júlio”.

Primeiro, encontremos na Viagem a Dama das gestas, as quais se tornam protegidas dos cavaleiros na sua busca dominada pelo Eterno Feminino talvez até como uma encarnação sobrevivente do mito da Grande-Mãe. Na obra de JV, ela é a linda Graübein que Axel (o cavaleiro) encontra no começo e no fim da aventura, prêmio a ser conferido ao herói como recompensa pela coragem e audácia empregadas no mundo subterrâneo (que é o mundo de Perséfone, não o esqueçamos).

No contexto das sagas, a mulher é uma entidade primeiramente inatingível (embora muitas vezes em perigo, por paradoxal que pareça), e que se posiciona, no começo e no fim das narrativas, como importantíssimo estímulo e incentivo, porém sem tomar parte nelas — enquanto aguarda que o herói feche o seu périplo, reencontrando-o no mesmo lugar do início. Claro, nos termos das viagens iniciáticas tradicionais não há lugar possível, para a Dama, na aventura em si; e ela só pode aparecer no prólogo e no epílogo, pois, desse modo, a narrativa recupera seu sentido mais puro e mais alto, e a “iniciação” se realiza num meio totalmente masculino (um pouco como no ambiente do western — que é a saga medieval transportada para o moderno ambiente da conquista americana do Oeste).

Axel inicia a grande viagem contra a sua vontade, e essa é uma condição conhecida na iniciação dos cavaleiros errantes inscritos na Ordem apesar de si mesmos, tateantes no escuro. Apesar disso, ele é levado pelo tio — o professor Lidenbrok —, que, por sua vez, se sente guiado pelo predecessor misterioso, Arne Saknussen. Este é quem faz as vezes de guia da “iniciação”, e, assim, a trupe do professor irá seguir as runas gravadas, com a ponta do punhal, no mundo subterrâneo penetrado pelo desbravador Saknussen (Caronte a guiar para dentro da sombra infernal).

O sobrinho de Lidenbrok representa, nas suas hesitações e transformações, o metal pobre — o personagem burguês no lugar onde havia o impenitente, nas sagas medievais —, o qual precisa ser temperado no fogo da terra (o vulcão), e também lavado e endurecido na água do mar interior subterrâneo. Ao final da aventura, ele estará para sempre modificado, criatura maleável e sem um verdadeiro perfil (ou consistência interna, no mar vago da personalidade), e que retornará da viagem para o Centro com seu próprio Rosto, isto é, com o seu ser verdadeiro, afinal conquistado. A identificação do mundo subterrâneo com os meandros da interioridade é, pois, bem mais antiga do que se pensa — e não é nada para se descartar até mesmo um modelo mais direto, para Verne, representado por um livro célebre — Canto da mina, atribuído a um discípulo de Paracelso, que o célebre escritor francês cita numa carta para seu editor (Hetzel). Nele, um postulante da sabedoria penetra nos corredores da tal “mina” exatamente como nas etapas de um caminho de conhecimento.

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