Inquérito

novembro 2017 / Inquérito / Um abraço bem apertado

Texto publicado na edição #211

Um abraço bem apertado

26 perguntas a Luci Collin

> Por RASCUNHO

Luci Collin, autora de A peça intocada

Luci Collin, autora de A peça intocada

Luci Collin acaba de lançar a coletânea de contos A peça intocada. Antes, publicara os poemas de A palavra algo (Iluminuras). Recém-eleita para a Academia Paranaense de Letras, é ficcionista, poeta, tradutora, professora e doutora em Estudos Linguísticos e Literários pela Universidade de São Paulo. Luci já publicou cerca de 20 livros, entre os quais os poemas de Querer falar (finalista do Prêmio Oceanos), o romance Nossa Senhora D’Aqui e os contos de A árvore todas. Integra antologias na Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Peru e México.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Com uns 14 anos, quando escrevi meu primeiro poema (precaríssimo, naturalmente) e senti de um modo intenso que o caminho pela frente era complexo, mas que eu queria muito enveredar por ele.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Quanto à leitura, me estimula ler vários livros de gêneros diferentes ao mesmo tempo. Quanto à escrita, não costumo tomar nota de nada antes de começar a compor um texto e nem comentar detalhes sobre o que estou escrevendo no momento.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Volto muito pra expressão modernista, que sempre me alimenta e me faz sentir renovada.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
O Em alguma parte alguma, do Ferreira Gullar.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
A possibilidade de um tempo ilimitado de isolamento me encanta, mas isso é bem perto de um grande sonho (ou muito distante da minha realidade).

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Não me incomoda estar num lugar barulhento para ler, mas não consigo ler ouvindo boa música, me desconcentro — ou bem leio ou bem escuto a música que está sendo tocada.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Não tenho essa disciplina de encarar a escrita com um planejamento específico, ou alguma meta a ser atingida diariamente. É produtivo quando consigo finalizar um texto que, na sua última palavra, me faz sorrir agradecida.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Quando a barulheira que os personagens fazem dentro da gente vai se ordenando no papel, tomando forma de discurso, de melodias, de ação e exposição, tudo junto.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Do escritor e de todo mundo que sinta e pense pra além da convenção do significado: a caretice que ainda difunde/exige certas formalidades vencidas, certa “funcionalidade” do discurso literário.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Nada, porque nunca fiz parte de nenhum meio literário.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Gertrude Stein.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível é o Avalovara, do Osman Lins. Um descartável, nem me lembro.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Didatismo, algo pretensioso e que amputa a condição estética de qualquer escrito.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não me censuro quanto a nenhum assunto, mas acredito que há certos temas que demandam amadurecimento até que consigamos nos aproximar deles. Levei muito tempo, por exemplo, pra conseguir escrever sobre algo que me intrigava, que é a condição (emocional/existencial) gerada pelo claro-escuro. Só resolvi isso depois de observar muito a obra do Caravaggio e escrever um texto em que ele é o protagonista.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
De pessoas que observei na minha infância, principalmente os tipos da rua onde eu morava.

• Quando a inspiração não vem…
Você começa a escrever a partir de uma ideia e, aos poucos, vai engrenando. Cada escritor desenvolve sua voz que, uma vez despertada, faz com que o texto flua. Isso tudo, acho eu, vem da experiência de cada escritor, da sua prática, da sua familiaridade com os elementos do fazer, da composição literária.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
O Gustave Flaubert e/ou a Marguerite Duras.

• O que é um bom leitor?
Aquele cúmplice, genuinamente interessado em embarcar no texto sem fazer exigências prévias (de linearidade, por exemplo); o bom leitor constrói o texto com o escritor, se responsabiliza pela feitura conjunta do texto.

• O que te dá medo?
Que a literatura se torne cada vez mais descritiva e pretensiosamente “realista” e moralizante ou seja, menos libertadora.

• O que te faz feliz?
O abraço apertado de um leitor desconhecido.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Nunca escrevi com nenhuma certeza — temeria isso porque me parece muito distante da razão de ser da arte. Minha escrita tem uma instância crítica a partir da subversão da estabilidade; apresento possibilidades apenas, que serão cumpridas livremente pelo leitor.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Manter o frescor do jogo, das combinações abertas e inusitadas para que se mantenham divertidas e, sem serem levianas, estimulem a alguma reflexão.

• A literatura tem alguma obrigação?
Não é obrigação, é um compromisso profundo com o que é verdadeiramente estético, com o que nos aproxima das essencialidades expressas por meio da arte.

• Qual o limite da ficção?
Não tem, porque qualquer registro sobre o papel evoca sempre a beleza, a integridade e a magnitude do reino ilimitado do ficcional.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Primeiro ensinaria ao ET o jogo da amarelinha. É preciso prática pra se chegar a qualquer tipo de Céu. Aí ele que se dirija ao líder do Céu que ele conquistar (respeitando a ordem das senhas, por favor).

• O que você espera da eternidade?
Não entendo o tempo pra além do presente. Não espero nada de um conceito tão vago como “eternidade”.

 

 

 

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A peça intocada
Luci Collin
Arte & Letra
112 págs.

 

 

 

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