Ensaios e Resenhas

janeiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Tupinilândia é aqui

Texto publicado na edição #237

Tupinilândia é aqui

Em novo romance, Samir Machado de Machado apresenta um parque de diversões entre o passado e o presente do Brasil

> Por Daniel Falkemback

Samir Machado de Machado, autor de Tupinilândia

Samir Machado de Machado, autor de Tupinilândia

Para se pensar num livro chamado Tupinilândia, no caso, o romance do escritor Samir Machado de Machado, é fundamental começar por seu título. A palavra em si, “Tupinilândia”, nos remete tanto à ideia de uma “terra” quanto à de “tupiniquim”, ou seja, ao grupo indígena com o qual Pedro Álvares Cabral se deparou quando aportou no sul da Bahia em 1500. O tupiniquim também se tornou, de maneira curiosa, um epítome comum do povo brasileiro, mas num sentido pejorativo. Não deixa, portanto, de ser no mínimo irônico o uso da palavra na composição do nome do parque de diversões pelo escritor, de um parque que é autoritariamente construído no meio da floresta amazônica, ainda no fim da ditadura militar, com o objetivo de reconstruir o passado nacional (e o futuro) de forma lúdica.

É com base na história desse parque que o penúltimo romance do autor gaúcho se volta. No início dos anos 1980, com o Brasil rumando para a abertura política, um empresário milionário de família estadunidense, João Amadeus Flynguer, constrói um parque de diversões em segredo, sob proteção do então governo militar de João Figueiredo. Batizado de Tupinilândia, funcionaria como uma celebração da identidade nacional e da nova democracia que se aproximava. Tanto no prólogo quanto na primeira parte do livro temos mais conhecimento dos antecedentes do projeto no mínimo megalomaníaco de Flynguer: sua fascinação pelas ideias e fantasias de Walt Disney e também grande interesse em iniciativas como Fordlândia, a cidade fracassada de Henry Ford no meio da Amazônia brasileira, criada para diminuir seus custos pela produção própria de borracha. Por uma estranha combinação desses dois elementos, surge o último grande projeto do industrialista: construir um parque de diversões no meio do Pará, que seria também uma espécie de mundo paralelo. Suas instalações não teriam apenas brinquedos voltados para a história e a identidade brasileiras, sob patrocínio apenas de marcas nacionais, mas também toda uma nova concepção de país que serviria de modelo para as futuras gerações e também, de certa maneira, para seus contemporâneos.

Num momento em que o Brasil saía de uma longa ditadura militar, Flynguer parece nos direcionar, através de seu parque, para novos caminhos possíveis segundo seu pensamento. No entanto, ele não é exatamente o herói da narrativa de Samir Machado de Machado. Desde o prólogo do romance, que se passa entre os anos 1930 e 40, o futuro empresário adota uma postura entre alianças com forças autoritárias, como o governo Vargas, e seu desejo de combater o fascismo, inclusive como soldado na Segunda Guerra Mundial. De modo bem brasileiro, Flynguer enriquece por vezes com apoio daqueles que poderia ter atacado antes. No fim da ditadura militar, com a esperança da redemocratização, ele resolve, então, levar adiante sua fantasia à Walt Disney ao tornar concreto o projeto de Tupinilândia. Contudo, ao longo da narrativa, até a sua segunda parte, que se passa em tempos recentes, vemos como esse sonho tão individual não pode se tornar real sem consequências muito mais coletivas do que se poderia imaginar.

Matéria-prima do pop
Ainda, na primeira parte, outras personagens, como o jornalista Tiago, os filhos de Flynguer, Beto e Helena, e as crianças que são os filhos desta, chegam a conhecer Tupinilândia em um evento-teste, junto com uma série de convidados. Nessa pré-abertura, tudo dá errado. Num primeiro momento, os problemas que parecem ser apenas falhas no caríssimo sistema de controle informatizado do parque revelam ser indícios de um plano de sabotagem de um dos funcionários em conjunto com integralistas aliados à linha mais dura da ditadura, contrária à abertura política promovida no período. Assim, o parque tão bem descrito em detalhes (por vezes até didáticos demais) pelo narrador, ao gosto de qualquer nostálgico dos anos 1980, cai nas mãos de fascistas como aqueles contra os quais seu proprietário combateu décadas antes. Apesar dessa derrota, as personagens principais conseguem escapar, com a exceção do Flynguer pai. Na segunda parte, então, descobrimos o que acontece com o lugar abandonado nas mãos dos integralistas: o arqueólogo Artur Alan Flinguer, parente distante dos Flynguer milionários, retorna ao local com fins de pesquisa e descobre uma pequena sociedade parada no tempo, criada pelos fascistas a partir de suas famílias. São consequências que nos fazem recordar distopias, como as de George Orwell e Aldous Huxley, mas também da nossa própria realidade social e política.

Entre ficção científica, histórica e também fantasia, como outros romances de seu autor, Tupinilândia é uma narrativa que “transforma em literatura a matéria-prima do pop”, além de virar “de ponta-cabeça os clichês dos romances de aventura”, de acordo com a orelha do livro. Contudo, alguns dos ditos clichês estão ainda presentes no texto e são às vezes repensados de maneira interessante; outras vezes, não. Essa permanência faz com que o maniqueísmo das relações desmantelado nos primeiros capítulos reapareça em alguns momentos do enredo, porém em menor grau.

Em compensação, é importante ressaltar também as várias reflexões sutis acerca da literatura com que o livro dialoga. Por exemplo, na primeira parte, um dos funcionários do parque, Johan, diz aos outros que pensavam em soluções para fugir dos invasores: “já vi filme americano o bastante pra saber que, nessas situações, o negrão é sempre o primeiro que se fode”. Aí há uma referência dentre tantas outras a Jurassic Park, de Michael Crichton, do qual se retira uma das epígrafes do romance de Samir Machado de Machado. Tal qual o John Arnold de Crichton, Johan é o engenheiro responsável pelo controle central das instalações que propõe o desligamento da energia como solução. No filme, a personagem é representada por um ator negro, Samuel L. Jackson, e é morta ao tentar resolver um problema criado por ela mesma; daí a referência da personagem em Tupinilândia. A diferença aqui é que Johan não morre, como já indica a resposta que João Amadeus Flynguer lhe dá: “Não diga isso. Eu vou ficar aqui com você. […] É a mim que Kruel quer, mais do que qualquer outro”, ao se referir ao general integralista Newton Kruel. Portanto, ao contrário de John Hammond, dono do Jurassic Park, ele decide não usar outra pessoa como meio de se manter vivo.

Mais um paralelo possível se dá a partir do vilão de Michael Crichton, Dennis Nedry, o primeiro a perder a vida. Em comparação, no romance brasileiro, o vilão permanece vivo, sendo a origem de todo o conflito até a segunda parte. Além disso, ele não é um adversário não humano, como os dinossauros soltos em Jurassic Park como consequência dos atos de Nedry. Assim, fica mais claro que, em Tupinilândia, a questão relevante é muito mais social e histórica, não sendo uma mera disputa entre o bem e o mal.

Por fim, é relevante destacar que, apesar de ter sido recentemente o vencedor do 2º Prêmio Minuano de Literatura, atribuído pelo governo estadual gaúcho, o romance de Samir Machado de Machado ainda não parece ter sido apreciado pela crítica e pelos leitores em geral como merece. Embora problemas possam ser apontados por um ou outro leitor, trata-se de uma narrativa bem concebida que demonstra a competência e a criatividade de seu autor. Com certeza, o potencial da integração de gêneros tão distintos atrelada a uma abordagem interessante da nossa história em suas contradições pode ser a fonte de livros fundamentais para nós, como bem nos mostra Tupinilândia.

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Tupinilândia
Samir Machado de Machado
Todavia
454 págs.

O AUTOR
Samir Machado de Machado
Nascido em Porto Alegre (RS), em 1981, é escritor, roteirista e designer. Foi um dos fundadores da Não Editora, pela qual lançou a novela O professor de botânica, em 2008. Além de Tupinilândia, romance pelo qual recebeu o Prêmio Minuano de Literatura, também publicou Piratas à vista (2019), Homens elegantes (2016), vencedor do Prêmio Açorianos, e Quatro soldados (2013).

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