Dom Casmurro

novembro 2019 / Dom Casmurro / Três contos

Texto publicado na edição #235

Três contos

Três contos de Viviane de Santana Paulo

> Por VIVIANE DE SANTANA PAULO

1.
Os índios isolados foram descobertos por uma expedição de antropólogos. Desde então são observados. Um grupo de proteção ao índio também os observa. As suas terras foram demarcadas pelo governo e, enquanto nenhuma empresa de agronegócios se interessar pela região, eles estarão protegidos. Uma antropóloga descobriu que as índias enterram o recém-nascido vivo quando parem gêmeos. Não conseguem carregar dois bebês nas costas. E quando a antropóloga chegou à oca, naquele dia, uma índia jogava terra sobre o recém-nascido nu. Engasgado com a terra na garganta, não mais chorava. A antropóloga ficou estática, não deveria interferir nos hábitos e pensamentos dos índios, não deveria influenciá-los, não deveria estar ali com câmara e bloco de anotações na mão. Ela regressou para o acampamento, distante, bastante distante. Chegou cansada, bastante cansada. Pensou em sua mãe religiosa que diria: é pecado. Depois pensou nos inúmeros índios mortos em nome da religião e do pecado. Depois pensou na natureza nascida sem o homem e que seguirá sem o homem. Depois pensou nos deuses criados pelo homem. E à noite sonhou que estava dentro de um rio redondo, profundo, e a água era apertada, sufocava-a com a sua liberdade silenciosa e turva.

2.
O veículo com os palhaços chegou pela manhã à aldeia indígena. Os palhaços desceram, fizeram palhaçadas, distribuíram balões coloridos e escovas de dentes. As crianças indígenas deveriam aprender a escovar os dentes. Depois os palhaços foram embora e nunca mais voltaram, os balões há muito estouraram e as escovas de dentes ficaram velhas e sem graça foram abandonadas em algum lugar, sem pasta, na terra, por exemplo. E com o vento, a chuva e as folhas caídas a escova de dente foi enterrada até que daqui a milhões de anos um arqueólogo a encontrará e deduzirá que os índios escovavam os dentes.

3.
Ela fumava, e tinha a fumaça como névoa misteriosa dissolvendo-se ante seu rosto longínquo de idade avançada. Gostava de ver o ar movendo-se como véu ou serpente clara, lenta e turva. Queria provar que os pensamentos também podiam flutuar e se desvanecer em algum lugar à nossa volta para se refazerem tão corpóreos como os espíritos. Tragava como se sugasse a realidade pela boca, até o médico dizer câncer e ela retrucar touro e balança. Depois calou-se, depois pronunciou pássaro porque não há nenhum signo que voa. “Eu digo águia ou falcão.” E o médico receitou trezentas e mais trezentas e cinquenta gotas de chuva pelas manhãs e tardes. E a névoa se desvaneceu.

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