Ensaios e Resenhas

dezembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Tragédias pessoais

Texto publicado na edição #176

Tragédias pessoais

Dois romances de William Trevor mostram qualidade da narrativa e empatia na criação dos personagens

> Por GISELE EBERSPÄCHER

William Trevor é irlandês, tem 86 anos e pode ser considerado um autor um tanto recluso. Avesso a entrevistas e participações em eventos, são poucas falas suas que estão disponíveis na mídia. Uma delas, porém, explica muito. Trevor disse para o The Guardian em 2009: “No fim acaba te matando, fazer qualquer coisa que não é simplesmente escrever. Não estou brincando”. O amor pela escrita é tanto que desde 1958 publicou 40 livros.

Inédito no Brasil, a Biblioteca Azul traduziu duas de suas obras em 2014: A história de Lucy Gault e A jornada de Felicia. A editora prepara para 2015 o lançamento de um volume com seus contos completos.

Trevor traz em suas obras uma grande carga emocional, explorando principalmente a tristeza das tragédias individuais. Ele traz também um pano de fundo de uma Irlanda conturbada por guerras e conflitos, que acabam por influenciar a vida de vários personagens.

Os dois lançamentos desse ano apresentam em comum protagonistas femininas, como os próprios títulos já mostram. As duas passam por grandes tragédias pessoais e a narrativa de Trevor se preocupa tanto com o que antecede esses momentos como o que acontece com elas depois disso.

A história de Lucy Gault, publicado em 2002, foi um dos indicados para Man Booker Prize. A narrativa começa quando a casa da família Gault está prestes a ser atacada por alguns jovens da cidade, e o ex-capitão Gault toma uma medida um tanto desesperada para segurar sua família.

Quando o leitor conhece Lucy, então com oito anos, já sabe que aquele é um momento conturbado. Ainda assim, a menina vive calmamente com seus pais em uma cidade pequena do litoral. Quando a permanência e segurança da sua família ali são ameaçadas por outros moradores da região, a decisão de partir se torna inevitável para os pais. Lucy se arma de uma rebeldia infantil e não aceita a mudança.

Até então, a história pode até soar um tanto infantil, mas a relutância de Lucy gera uma tragédia que muda a história de toda sua família e cria o clima para o resto da narrativa, que se torna muito mais profunda e melancólica. Se no começo a tristeza apresentada era a revolta da criança, as outras partes do livro trazem uma tristeza mais profunda, derivada do remorso e da espera. Trevor finaliza o livro sem dó: mesmo quando o que era esperado acontece, as coisas não podem ser resolvidas e a tristeza permanece.

Trevor cria ainda uma imagem interessante. Depois de sua tragédia, quando Lucy espera o fim de sua história, ela busca consolo na história de outros pela da literatura. Os livros se tornam para ela uma maneira de viver e aprender sobre a vida enquanto ela mesma não pode viver.

Lucy Gault é uma personagem forte. Ela transforma a culpa que sente pela tragédia que aconteceu com sua família (e com ela mesma) em uma longa espera, mesmo que o risco seja deixar sua vida passar em branco enquanto isso.

Mais velha
A jornada de Felicia apresenta uma personagem um pouco mais velha, no começo de sua vida adulta, de uma família mais simples. Desempregada, acaba presa à rotina de sua família, com a qual não se identifica. Na casa, se torna uma espécie de empregada, preparando as refeições de seus irmãos e pai, que não lhe dão muita atenção, e cuidando de sua quase centenária bisavó, que há muito perdeu a consciência.

Parte por carência e parte por falta de informação, Felicia se envolve com Johnny, um jovem que saiu dessa cidade pequena da Irlanda para buscar melhores condições de vida na Inglaterra. Ao se deparar com uma gravidez inesperada, Felicia rouba uma soma de dinheiro de seu pai e sai da Irlanda pela primeira vez.

Sua inocência não a prepara para o que vai encontrar no mundo real. Quando viaja com a informação de que Johnny trabalha em uma fábrica de cortadores de grama, espera chegar à rodoviária, pedir ajuda para chegar até a fábrica e encontrar o namorado. Mas as coisas não acontecem assim — não existe uma fábrica com esse perfil na cidade e sua busca não será simples.

Logo em seu primeiro dia de procura, conhece mr. Hilditch, um senhor de idade que se mostra prestativo. Porém, a narrativa de Trevor nos mostra esse personagem de duas maneiras: sabemos como ele é, onde trabalha e qual é o estilo de sua vida enquanto o narrador o acompanha em determinados trechos do livro; por outro lado, vemos como ele é com Felicia, como se mostra de maneira diferente e como tenta se aproximar cada vez mais dela.

Apesar de não deixar claro as intenções dele, o autor vai montando a narrativa ao redor de algum suspense, já que fica cada vez mais nítido que algo irá acontecer. Apesar desse tom, o que predomina é a tristeza da esperança que não se concretiza, da solidão e do arrependimento.

A história de Lucy Gault narra uma história mais inusitada, tanto em sua tragédia como no desenvolvimento dos personagens. A jornada de Felicia cria uma história de abuso que poderá soar mais familiar a muitos leitores.

A narrativa dos dois livros se desenvolve principalmente a partir dos efeitos trágicos das escolhas das protagonistas, ainda que essas consequências não sejam inteiramente responsabilidade delas nem passíveis de serem controladas por elas inteiramente.

Uma das características da construção narrativa de Trevor nesses dois livros é a maneira calma com que apresenta seus personagens e os encaminha para uma tragédia. Assim, é possível que o leitor se apegue aos personagens e sinta as mudanças que ocorrem neles. Além disso, só se descobre aos poucos qual será o argumento sobre o qual a história irá se desenvolver. O autor nos apresenta os personagens em uma cena, um enquadramento de sua vida cotidiana, e aos poucos expõe suas motivações, vontades e desventuras. O formato de suas narrativas mostra que Trevor tem um grande interesse em outras pessoas, mesmo que fictícias.

Apesar de curtas, as obras trabalham em profundidade os sentimentos de culpa, arrependimento e eventualmente de resignação e calma das personagens e a maneira com que tentam viver suas vidas apesar de tudo.

Como resultado, a narrativa é envolvente, não se fazendo notar a quantidade de páginas lidas, muito menos o tempo transcorrido de vida das personagens. Aliás, o amadurecimento das personagens faz com que o leitor tenha a sensação de que as conhece intimamente, como se fossem pessoas muito próximas.

Por isso, uma parte principal de sua obra pode ser sua empatia, que o faz parecer um narrador nato. Ao criar tantos personagens diferentes entre si, em ser capaz de entender bem os sentimentos de uma pessoa e ao tentar prever as ações de todos eles em situações inesperadas da vida, Trevor mostra uma paixão muito singular pela vida humana.

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William Trevor

William_Trevor_176

Nasceu em 24 de maio de 1928 em Mitchelstown, na Irlanda. Formou-se em história pelo Trinity College, de Dublin. É tradutor, contista e romancista. Desde 1958, publicou 40 livros, com os quais ganhou 27 prêmios.

Teria que arrumar uma caixa para as conchas dispostas na mesa junto à janela do seu quarto, para suas pinhas e seu graveto em forma de adaga, para suas pederneiras. Nada poderia ser deixado para trás. Ficou imaginando para onde iriam e achou insuportável a ideia de algum lugar impossível de se imaginar. Chorou sozinha entre as samambaias que cresciam em touceiras a alguns metros do riacho. (A história de Lucy Gault)

lucygault_CAPA_lombada_15mm.pdf

William Trevor
Trad.: Elisa Nazarian
Biblioteza Azul
288 págs.

A jornada de Felicia
William Trevor
Trad.: Elisa Nazarian
Biblioteca Azul
280 págs.