A literatura na poltrona

fevereiro 2020 / A literatura na poltrona / Trabalho e paixão

Texto publicado na edição #238

Trabalho e paixão

Aquele foi um momento chave em minha formação, não só como repórter, mas como homem

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Beatriz Cajé

Ilustração: Beatriz Cajé

Será o envolvimento emocional uma espécie de praga que não só aniquilaria, como impediria toda a possibilidade de lucidez? Será ele, para um jornalista, uma deformação e uma doença? Jovens jornalistas, volta e meia, me trazem essa pergunta. Achei que vale a pena respondê-la, para um público mais amplo, aqui. Vivi, na juventude, uma experiência que, embora distante do jornalismo cultural que pratico, ajuda a pensar esse impasse. Uma experiência no jornalismo policial — setor da imprensa áspero e violento, no qual, diz-se, a emoção deve permanecer sempre de fora. No início da década de 1980, ainda nos anos finais da ditadura militar, entre as atrocidades atribuídas à onipotência das forças policiais, uma se destacou: a morte, por suposto enforcamento e no interior de uma sela de delegacia, do operário Aésio — cujo sobrenome, quarenta anos depois, me escapa. Acusado de ter estuprado uma filha, ele foi preso — e lá ficou, como era comum naqueles tempos, abandonado atrás das grades. (Mas só naqueles tempos?) Um dia amanheceu enforcado em sua cela. A versão policial era a de suicídio. Mesmo assim, a imprensa passou a suspeitar das circunstâncias da morte e a se perguntar se ele não tinha sido, na verdade, assassinado, e se o enforcamento não passava de uma encenação que pretendia encobrir o crime.

As informações eram poucas e a atmosfera, adversa. Repórter de polícia um tanto contra minha vontade, lá fui eu, desarmado, ou armado só de meus medos e dúvidas, investigar a história. Primeiro, na delegacia, ouvi a versão do delegado, de outros presos, dos acusadores enfim. Segundo eles, Aésio era um “monstro”, que não suportara o peso de seu ato hediondo e as ameaças (até sexuais) de outros presos. Vendo-se sem saída, teria preferido morrer, e se enforcou. A versão não deixava de fazer sentido. Os argumentos dos policiais eram fortes. Saí da delegacia com uma história armada em minha mente: pobre, operário, um homem “ignorante e bruto”, como definiu o delegado, Aésio, sem suportar o peso da violência contra a própria filha, preferiu morrer. Não podia, porém, me deixar levar por sentimentalismos, comecei a concluir antes do tempo. Aésio era, me asseguravam, um ser odioso — mas eu sabia que precisava lhe dar uma chance. Acontece que, em seguida, visitei a casa de sua família. E lá o que encontrei? Em vez de ódio, uma família que chorava, em desespero, a morte violenta do pai. Que não aceitava o que tinha acontecido, que negava sua violência contra a filha e que, revoltada, acusava a polícia de um teatro macabro. A força dos sentimentos da viúva me convencia de que eu estava errado: Aésio não passava de uma vítima da insanidade policial.

Um choque de narrativas me asfixiou. Agora tinha comigo duas versões, duas histórias e, também, dois Aésios. Acontece que o jornalismo, com sua santificação da clareza, despreza a contradição. Não suporta o paradoxo. Meus chefes esperavam uma história completa e coerente, que pudesse ser narrada sem buracos. Com o coração aflito, decidi então acompanhar o enterro do operário. Um cemitério distante e pobre, uma tarde escura e cheia de vento, o fim do mundo — e também de minha lucidez. Aésio, o corpo branco depois de logo tempo em uma geladeira de necrotério, era também, dizia a polícia, um homem gelado, uma pedra — e, no entanto, sobre ele, se debruçavam parentes sinceros em desespero. Eu ainda era um repórter iniciante. Sem saber o que pensar, sem saber o que escreveria (pois meu chefe queria uma história pronta, com início, meio e fim, um relato limpo e coerente) me afastei, um tanto trêmulo, para pensar. Fiquei de longe, recostado em uma tumba, assistindo à cerimônia. Então, ali, de repente, eu mesmo tive uma longa crise de choro.

Aquele foi um momento chave em minha formação, não só como repórter, mas como homem. A descoberta de que toda história tem sempre, pelo menos, dois lados. De que mesmo um monstro tem sua dignidade e desperta afetos; e, ao contrário, mesmo um santo move-se, muitas vezes, movido pela fúria e pelo rancor. O mundo não é simples, eu descobria. Ainda mais nos tempos escuros da ditadura, quando as máscaras se sobrepunham à verdade. Se o mundo não é simples, como o jornalismo pode ser simples? E mais: será que um repórter deve descartar a paixão e os sentimentos durante a prática de seu trabalho? Sim, não posso negar que eles dificultam tudo. Mas, concluí depois, nos aproximam também um pouco mais do real.

Infelizmente o jornalismo policial, ainda hoje, quase sempre se rege pelas mesmas fórmulas. Bandidos e mocinhos, carrascos e heróis, o Mal e o Bem. Não será por isso que vivemos hoje, em pleno século 21, um país rachado ao meio? Ali, naquele cemitério de subúrbio, descobri1 que queria ser um jornalista cultural. Se era para enfrentar o paradoxo, eu devia ir direto a seu coração. E nada melhor se aproxima mais desse coração despedaçado do que arte. A coisa se formou para mim desse modo: só no campo da cultura seria possível eu dar conta das contradições e dos paradoxos que movem o real. (Ilusão minha, mais uma ilusão de jovem, já que o jornalismo cultural, ele também, e muitas vezes, é regido pela padronização, pelos preconceitos e pelos dogmas).

De uma “deficiência” pessoal — essa força que me tirava a frieza e me impedia de me distanciar das coisas — construí uma vocação. Se o mundo é confuso e complexo, quero tratar justamente dessa confusão e complexidade — e nada melhor para chegar a ela que a arte. Se as coisas são inconstantes, se as versões se chocam e parecem nunca se resolver, é desses conflitos e dessas impossibilidades que um repórter, se merece esse nome, deve partir. A rigor, hoje entendo melhor, não só o jornalismo cultural, mas todo o jornalismo deveria incluir esse paradoxo. Deveria não fugir de uma realidade que é frágil, é contraditória e, algumas vezes até, incompreensível. Ao contrário: deveria ter a coragem de sempre partir dela.

Creio que não respondi a pergunta que tantos jovens jornalistas me fazem. Mas talvez tenha me aproximado, mais um pouco, de seu núcleo. Não é só o jornalismo que não é fácil, a vida não é fácil. Como querer respostas prontas e verdades absolutas em um mundo que é pura luta e puro tremor?

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