Ensaios e Resenhas

dezembro 2015 / Ensaios e Resenhas / Todos os sentidos

Texto publicado na edição #186

Todos os sentidos

Poema pássaro, de Juliana Meira, discute o fazer poético e a palavra

> Por VILMA COSTA

Juliana Meira, autora de Poema pássaro

Juliana Meira, autora de Poema pássaro

Poema Pássaro, de Juliana Meira, é um conjunto de poemas que se arrisca no voo de desenhar o movimento de um fazer poético, em suas dificuldades e realizações mais simples, no qual sonhos e rigor formal encontram expressão e síntese. É fundamentalmente uma dicção reflexiva da arte de lidar ou brincar com as palavras na busca de sentidos, que como pássaros, “espécie migratória”, se vão, mas “não tarda/ tornam”.

O tema central desses poemas-pássaros é, em sua maioria, de cunho metalinguístico. Ou seja, o poema discute o fazer poético e a palavra enquanto matéria-prima que vai tomando forma nas mãos do poeta. “Por ser palavra/ pugna a página// por ser palavra/ perpassa o achaque// assume o sumo/ invade”. Nessa luta, que parece caminhar sozinha, entre a palavra e a página, entre o sentido e a forma de expressá-lo, onde fica o poeta? “Sobre o papel/ descansa a mão do poeta// um a um como notas/ da orquestra/ os versos lhe saltam à ideia”. Terá um papel de Lutador, como no poema de Carlos Drummond de Andrade, na sua luta mais vã de lutar com palavras? Ou ele será o Maestro, tentando coordenar o canto dissonante desses poemas-pássaros?

Talvez os dois dividam a tarefa, o Lutador entra na disputa, recebe os achaques da poderosa matéria-prima, que por ser palavra, não se entrega a qualquer fascínio, assume o sumo, invade a página, a pele, e a vontade de controle do sujeito lírico. Apesar de parecer que é o Maestro que domina a cena, não é tão simples: da ideia ao papel, os versos exigem um trabalho de artesão, que faz lembrar o esforço e a persistência do Lutador. “O velho maestro então lhes põe forma// rabisca contorna/ verso a verso se arrisca/ recita//… da mão trêmula à escrita/ rege um poema.”

O prazer da sinfonia executada na regência de um poema, não livra o Maestro dos perigos de errar a mão, exagerar nos acordes, comprometer a harmonia. Como nos fala o sujeito lírico da página 72: “apalpo palavras/ tão ásperas// princípio bruto/ do ofício// antes da polpa/ a casca”.

O sabor da polpa da fruta madura só será acessível se se puder levar em conta a casca em sua aspereza, como princípio bruto do ofício. E é entre esse prazer de criação e os sufocos que perpassam esse caminho que Juliana Meira movimenta sua mão de maestro, de poeta.

A busca de sentidos, que escapam por entre esses dedos, depara-se com a concretude de um corpo. Ou, melhor, a imaterialidade dos significados perseguidos vai se confrontar, de certa forma, com a materialidade de um corpo de palavras, de um livro, e de corpo de carne e osso, de um eu lírico que se esforça para expressar a sua subjetividade. “folheando um livro antigo/ página por página/ meus dedos colheram/ a poeira das palavras.”

Na ponta dos dedos, o sentido do tato acaricia, se não palavras, pelo menos a poeira do que sobra delas com o tempo que passa. O tempo, mais que tema, é problematizado, no seu caráter inexorável. “quanto passa/ enquanto penso/ tudo é tempo.” Está presente no cotidiano mais próximo, da florista, da rua, da chuva miúda, do olho do gato, no contato com a Lua, até na memória mais longínqua, da avó Néia e da avó Iza. É o tempo que na poeira das palavras instiga a criar um campo de desejo: “inda espero/ um poema como o tempo/ i n d e l é v e l”.

O olhar também assume papel decisivo na leitura, muitos dos poemas ganham forma através do olhar, ora descritivo, figurativo, ora metafórico ou alegórico: “cintilam aos montes/ a nuca dói de tanto olhar/ parece que nunca/ nunca mesmo/ vão se apagar as estrelas”. Se essa intensa mirada não é suficiente, de novo o tato vem em auxílio: “com a ponta dos dedos sondo uma/ mais uma…”. O olhar percorre a paisagem no esforço de, mais que descrevê-la, construir imagens que se relacionem com as percepções e talvez sentimentos do sujeito. “fenece a tarde cinza/ como o sopro da chaminé/ em frente a casa/ o cedro envelhece.”

Pele em flor
Enquanto escreve versos e o tempo passa, carregando consigo o dia e a juventude: “em minhas mãos dançam rugas/ que ao contorno da escrita obedecem/ aduncas// contemplo um balé/ que tantas tardes/ se encarregam de compor/ à pele em flor”. A composição dessa pele em flor se dá à flor da pele, como é na superfície da linguagem que a construção de sentidos, mesmo que transitórios, parciais e precários, realiza-se (Deleuze).

Paisagens, palavras e corpo em permanentes mutações, através dos seus sentidos elementares, dialogam e criam uma cumplicidade, entre si, que ultrapassa a moldura da folha, escapam do livro e atingem a interioridade de um sujeito que sofre, pois intensamente vive. “todas as palavras/ com suas mutações/ contagiam meu corpo// por isso sofro/ desde a sombra/ até o osso.”

Sombra e osso, o externo e o mais profundo, materializados no corpo de cada poema se alinham nas páginas do livro. Todos se apresentam sem títulos, sem letra inicial maiúscula, sem sinais de pontuação, pontos ou vírgulas. Sobre a musicalidade de seu canto, na forma mínima ou sintética é que os poemas se estruturam. O corte de cada verso, linha sobre linha, trabalha seu ritmo e dispensam os sinais gráficos, intercalando silêncios e pausas. “O canto/ da sala/ (…) desabitado ouve/ a passarada o jornaleiro/ o cachorro a piazada/ exposto à poeira/ da vida que é lá fora/ na calçada.”

O canto da sala, cá dentro, e a vida, lá fora na calçada, comunicam-se através dos ruídos e silêncios que os atravessam. Um vento que sopra, um canto que cala. Como se o sujeito em sua impotência se ausentasse da cena. Como se o poeta, numa súbita sabedoria, abrisse mão da aura. “um poeta qualquer/ quebra a calma// não qualquer poeta/ mas o que se aparta/ da cômoda aura.”

O ato de o poeta se apartar da aura é uma escolha que exige do leitor maior perspicácia e, ao mesmo tempo, que abra mão da leitura automática ou facilitada. Não representam nenhuma novidade essas escolhas estéticas que priorizam tanto a síntese sistemática, quanto a atenção formal do poema. Há mais de um século os modernistas introduziam nos seus manifestos a importância desses aspectos. O poema-minuto legitimou-se como Literatura Brasileira. E o poema não pode ser considerado de origem oriental apenas por ser curto ou lembrar um haikai.

Contudo, continuam quebrando a calma da leitura e, muitas vezes, o prazer do texto é rompido pela necessidade da criação de um espaço de fruição para o leitor, que, segundo Roland Barthes, “é a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo”. É esse jogo, no qual nem todos os dados estarão lançados, que pode envolver o leitor que se aventura a ler o poeta apartado da aura. Como, por outro lado, pode afastar aquele que espera do texto o prazer fácil sem maiores imprevistos no seu desfrute. “escrever poesia não é fácil/ algo entre estar e o espaço.” Ler essa poesia também não é fácil, e diria mais: é quase impossível, sem esse movimento entre estar e o espaço de fruição criado pelo desejo de diálogo.

O gosto da polpa da fruta de casca áspera, o toque das pontas dos dedos, o olhar penetrante, os ouvidos atentos aos cantos do seu tempo e a vida lá fora são sentidos necessários para o poeta sem aura movimentar-se em seu ofício árduo: “profissão de fôlego/ forjo versos/ entre marteladas e fogo”. E, consequentemente, fisgar o leitor para o espaço de fruição do texto, nada tranquilo, mas uma possibilidade concreta de interlocução, na busca do prazer do texto que passa pelo imprevisto, pela reflexão e pela participação no jogo de construção de sentidos.

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Juliana Meira

É poeta e advogada. Nasceu em Carazinho (RS). Publicou pela primeira vez em caixas de fósforo, na coleção Fogo do verbo, o primeiro livro foi poema dilema, em 2009; o segundo, sem título, integra o projeto Instante estante, em 2012.

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Juliana Meira
Patuá
100 págs.