Inquérito

abril 2012 / Inquérito / Tocando as intenções

Texto publicado na edição #144

Tocando as intenções

"Cada livro é como um jogo, cujas regras você precisa decidir antes, para saber mais ou menos por onde ir."

> Por RASCUNHO

 

Carol Bensimon, autora de Sinuca embaixo d'água

Com música, referências visuais e uma caminhada, a gaúcha Carol Bensimon trata de burlar uma possível falta de inspiração. Já através do trabalho diário, do sacrifício e da visão das páginas preenchidas, a autora do romance Sinuca embaixo d’água e do livro de contos Pó de parede procura chegar o mais perto possível de suas intenções, de preferência vestindo roupas confortáveis. Abaixo, Carol detalha seu processo de escrita, critica a cortesia excessiva entre autores no meio literário e expõe os cuidados que toma em sua criação.

Quando se deu conta de que queria ser escritora?
No colégio. Tenho registros disso (cartinha da professora de artes, 1997, dizendo: “desejo que possa manter teus ideais em relação a ser escritora […]”). Mas depois essa idéia ficou adormecida por pelo menos dez anos.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Trabalhar com um vocabulário reduzido. Evitar ênclises. Variar a extensão das frases. Se um personagem precisar falar alguma coisa, que seja uma fala curta. Memórias de infância. Lugares decrépitos. Gente que pensa demais.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Alguma ficção, sempre.

Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Temperatura amena, chimarrão ao lado, casa vazia.

Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
A menos ideal é à noite, um pouco antes de dormir. Percebo sempre no dia seguinte que não consegui absorver quase nada das últimas duas ou três páginas, então é preciso voltar a elas. De resto, qualquer hora, qualquer lugar.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Uma página (que quase não exigirá mudanças) em seis horas de trabalho.

O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Quando pego um trecho escrito há dias, semanas, meses, e ele ainda parece bom.

Qual o maior inimigo de um escritor?
A sensação de ter desaprendido a escrever, que, ao que parece, acomete o escritor sempre que ele começa um novo trabalho, ou quando passa alguns dias sem tocar em um texto já em andamento.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Cortesia excessiva entre os autores.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
John dos Passos. Em 1936, Sartre chamou-o de “o melhor escritor de nosso tempo”, mas aqui no Brasil ele não costuma passar de um nome engraçado. Ao longo da carreira, Dos Passos mudou radicalmente de posição política, e digamos que os experimentalismos dos primeiros trabalhos foram deixados de lado, junto com a utopia comunista. De todo o modo, a trilogia U.S.A., que sempre está nas listas das melhores obras do século vinte, é incrível.

Um livro imprescindível e um descartável.
O imprescindível: Uma fração do todo, de Steve Toltz. O descartável: Um dia, de David Nicholls.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Quando fica claro demais que o autor quer provar um determinado ponto de vista, e portanto não há qualquer ambigüidade ou hesitação, apenas bons e maus, certo e errado.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
A violência extrema.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Às vezes procuro na internet referências visuais que me ajudem no processo da escrita. Enfim, fotos de estranhos. Jovens jogando hockey na rua, pessoas com máscaras, hotéis caindo aos pedaços, quartos de adolescentes, piscinas vazias, etc.

Quando a inspiração não vem…
Coloco os fones de ouvido e ouço alguma música que pareça se adequar à cena que pretendo escrever. Então, em uma folha em branco, vou anotando alguns detalhes relativos a essa futura cena: uma ação, uma fala, elementos do cenário, pensamentos do narrador, etc. Costuma funcionar, mas é claro que nem sempre. Nesses casos, o melhor é sair pra dar uma caminhada, ou tomar um banho.

O que é um bom leitor?
Antes do livro publicado: um leitor chatíssimo, que questione pormenores. Depois do livro publicado: um leitor que se envolva e se sinta tocado pela história.

O que lhe dá medo?
Que o resultado fique muito distante das intenções.

O que lhe faz feliz?
A troca com os leitores. E trabalhar com roupas confortáveis.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
O que me guia é aquela imagem vaga da coisa pronta, e daí a certeza de que, para chegar minimamente perto dela, vai ser preciso uma dose de sacrifício.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Dosar o cuidado formal (de onde eu tiro parte da diversão quando escrevo) com um enredo que possa interessar as pessoas.

A literatura tem alguma obrigação?
A obrigação de não se levar tão a sério. Mas isso é só o meu ponto de vista.

Qual o limite da ficção?
Os que você impõe. Para mim, cada livro é como um jogo, cujas regras você precisa decidir antes, para saber mais ou menos por onde ir.

O que lhe dá força para escrever?
Ver a sucessão de linhas escritas, depois passar as páginas, os capítulos, saber que, um belo dia, vai terminar.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu diria para ele abordar uma pessoa com mais certezas.

• O que você espera da eternidade?
Qual eternidade? Adoraria acreditar nela.

Print Friendly

Deixe uma resposta