Ensaios e Resenhas

fevereiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Títulos são muito esquisitos

Texto publicado na edição #238

Títulos são muito esquisitos

Conversas entre Tzvetan Todorov e Catherine Portevin formam uma espécie de guia para a obra do pensador búlgaro

> Por ANDRÉ ARGOLO

 Tzvetan Todorov, autor de Deveres e deleites — Entrevistas com Catherine Portevin

Tzvetan Todorov, autor de Deveres e deleites — Entrevistas com Catherine Portevin

Entrevista ainda é das melhores coisas dos meios de comunicação considerados ou autoproclamados jornalísticos, o formato que for. Um dos meios de descobrir o quanto um autor ou autora interessa a gente. Os depoimentos/respostas servem de porta de entrada a pensamentos, olhares, conceitos e preconceitos. Claro que a coisa é traiçoeira: pode nos afastar de uma boa obra (se o papo não flui, seja pelo entrevistador ou um dia ruim do entrevistado), mas o mais frequente é que nos seduza. Também há materiais não tão interessantes — e, nesse caso, fica-se ao menos com a boa entrevista.

Tem Deleuze mais acessível do que naquela série de entrevistas com temas em ordem alfabética, O abecedário de Gilles Deleuze? Convidativa conversa aos livros do filósofo. Porta aberta a uma obra que costuma ser bem mais desafiadora à maioria de seus leitores. Já o mau humor de Hemingway na entrevista à Paris Review pode te fazer se afastar de O velho e o mar, o que seria uma grande perda.

Este texto é sobre uma porta aberta. Deveres e deleites é uma grande entrevista com Tzvetan Todorov, esse nome com diversas titulações: filósofo, antropólogo, linguista, crítico literário, sociólogo, historiador, pegue um — serve e não serve, pois certamente será insuficiente. Títulos são muito esquisitos. Aliás, na quarta capa, é disso justamente que trata o pedaço reproduzido do longo e ótimo material: “Que profissão eu deveria colocar em meu cartão de visitas? Prefiro não escolher”, diz ele na página 231. “Para compreender um gesto humano, é preciso recorrer simultaneamente à antropologia, à política, à moral, ao direito. Então, por que isolá-los?”, argumentou na página 433.

A jornalista Catherine Portevin foi quem conduziu a entrevista, na verdade uma série de entrevistas, realizadas entre março e outubro de 2001. Lembra-se dessa já longínqua data? O ano em que aviões de passageiros foram lançados contra as duas gigantescas torres do World Trade Center, em Nova York, e na sede do Pentágono — 11 de setembro, 2.996 pessoas mortas, combustível para o fogo dos Estados Unidos por guerras e inimigos. Quem me dá os detalhes é a Wikipedia, esta parte importante da minha memória, que, segundo ela mesma revela, nasceu em 15 de janeiro desse mesmo ano (como as pessoas se lembravam de coisas antes disso?).

Todorov tinha então 62 anos e vivido mais tempo na França do que na Bulgária, onde nasceu. As primeiras partes do livro são dedicadas muito mais às lembranças de sua formação na Bulgária, seus pais, o regime totalitário sob o domínio da União Soviética. Mas, mesmo nos capítulos seguintes, esses anos de juventude de Todorov são frequentemente resgatados. Eram parte de sua constituição, de suas escolhas na vida, inescapavelmente.

Pelos depoimentos percebe-se que suas investigações, em todos os campos, tinham a ver com a opressão que vivenciou na Bulgária. Ele se definia como humanista. Buscava fundamentar o conceito nos pensadores franceses que estudou profundamente, como Tocqueville, Dumont, Constant, principalmente Rousseau, de quem tanto tratou também em outro livro já resenhado aqui no Rascunho, A vida em comum (1996). Agiu como um cientista caçando a cura de uma doença que o fez sofrer na infância:

O totalitarismo favorece o pensamento binário, tudo se reduz às escolhas entre dois termos, dos quais um deve ser venerado e o outro, execrado, até que chegue o reino último da unidade. Nele não há lugar para o que se chama de ‘alteridade’, isto é, a diferença sem julgamento de valor.

Não, isso não foi dito ontem! Lembre-se, a entrevista é de 2001…

Todorov escreveu e publicou muitos livros. Essa entrevista serve muito bem de guia para sua obra. Ele conversa basicamente sobre o que escreveu. Então pode-se entender suas motivações para cada livro e escolher o que mais tem a ver com cada leitor. A conquista da América (1982), por exemplo, se torna ainda mais interessante quando se percebe que há uma conversa com Hannah Arendt e a problematização de seu conceito muitas vezes simplificado demais (não por culpa dela) sobre “banalidade do mal”.

O passado
Uma das delícias do pensamento é olhar alguns termos naturalizados na lupa e poder estranhá-los. Todorov fez isso com a famosa frase, tão repetida papagaiadamente: “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”, creditada a George Santayana, no livro The life of reason. “Recuso o sentido que se dá a essa frase […] mas sem ignorar a parte de verdade que ela contém”, respondeu Todorov. “A fórmula é insuficiente”, continuou. “[…] podemos conhecer o passado e justamente desejar repeti-lo: porque, de algum ponto de vista, é um exemplo positivo, mesmo que outros tenham sofrido por causa dele. […] Encontramos de tudo no passado! Por isso, fazer um elogio incondicional da memória, isto é, da preservação e da restituição do passado, me parece desprovido de sentido. A memória é um instrumento em si mesmo neutro, que pode servir a fins nobres ou ignóbeis.” Reflexões em que ata conexões entre tudo o que estudou e escreveu fazem parte dos depoimentos desse livro, tornando-o mais do que guia para a obra de Tzvetan Todorov, mas parte dela.

Jornalismo
Portevin, além de instigar respostas de seu entrevistado, deixa vazar suas leituras de mundo também. É um outro livro se tentarmos pinçar nas perguntas esse outro pensamento, que não o de Todorov. Há um momento que se ressalta, pela importância contemporânea, a respeito do jornalismo. Estamos na página 434 e a entrevistadora pergunta se ele se reconhece no papel de passeur. Em nota, a tradutora Nícia Bonatti explica o termo, logo na página 2, porque é parte do subtítulo: “Diz respeito a um campo semântico que engloba ‘aquele que ultrapassa fronteiras’; ‘barqueiro’, até ‘atravessador’, ‘coiote’”. Ele diz que sim e que ela também está “condenada a esse papel”, de passeur. Portevin concorda. Mas a condição para ela não deveria significar redução, banalização. E espeta a espinha dorsal de seu (o nosso) meio:

Esse problema da clareza que, como sei, é para você (Todorov) uma preocupação real é muito delicado e… eminentemente subjetivo. E não se deveria ir de um extremo ao outro, pois os intelectuais quase sempre têm razão de resistir à demanda de simplificação das mídias. Demanda-se o simples porque se deseja concisão, deseja-se concisão porque se capta melhor o ouvinte-consumidor (o que é, principalmente, o interesse dos anunciantes) e, no fundo, nós (os jornalistas) recusamos toda complexidade do mundo e do pensamento, o que leva a uma atrofia da curiosidade intelectual que, na minha opinião, é o fundamento de nossa profissão.

Placa da lojinha
Se “uma vida de passeur”, o subtítulo do livro, tem esse significado interessante, o título mesmo é mais esquisito, bem mais. Só eu achei que Deveres e deleites parece nome de bombonière? Ou de… deixa pra lá. Já veio assim do francês. Mas não é uma rejeição, exatamente. Esquisito também é bom. Ou então é complacência que parte de minha imensa dificuldade em criar bons títulos (se o deste texto estiver decente, parabenize o editor; caso contrário deve ter sido mesmo meu). “[…] A existência humana, como vimos, é um jardim imperfeito”, disse o autor de A beleza salvará o mundo (2011). Pois é, por que títulos precisam ser sempre muito bons? Não é o conteúdo que interessa?

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Deveres e deleites — Entrevistas com Catherine Portevin
Tzvetan Todorov
Trad.: Nícia Adan Bonatti
Unesp/Imprensa Oficial
480 págs.

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Tzvetan Todorov
Trad.: Valéria Pereira da Silva
Unesp
359 págs.

O AUTOR
Tzvetan Todorov
Nasceu na Bulgária, em 1939, e foi cidadão francês. Morreu em 2017, em Paris. É um dos mais influentes pensadores neste início de século 21, pensador de muitos tentáculos, que alcançaram a literatura, a filosofia, a história, a antropologia. Autor, entre outros livros, de A conquista da América (1982), A vida em comum (1996) e A beleza salvará o mundo (2011).

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