Atrás da estante

janeiro 2013 / Atrás da estante / Tiro nas letras

Texto publicado na edição #100

Tiro nas letras

Quando Raul Pompéia suicidou-se com um tiro, aos trinta e dois anos, em uma triste noite de natal, deixando uma […]

> Por CLAUDIA LAGE

raul pompeia

Quando Raul Pompéia suicidou-se com um tiro, aos trinta e dois anos, em uma triste noite de natal, deixando uma controvertida obra composta de novelas, romances e crônicas, não podia prever que um século depois, um rapaz de dezessete anos tiraria um resumo do seu livro Ateneu da mochila, se sentaria na cadeira de uma escola com o jeans surrado de todos os dias, balançaria nervosamente os tênis durante toda a aula, enquanto respondia, valendo um ponto cada, questões desse tipo: a) O escritor naturalista Raul Pompéia morreu de tuberculose; b) O escritor romântico Raul Pompéia era homossexual; c) Raul Pompéia era natural do Rio de Janeiro; d) O escritor Raul Pompéia suicidou-se.

Do mesmo modo, Castro Alves quando escreveu Navio negreiro, aos vinte e um anos, tomado pela densidade poética e pela forte questão humana que envolvia a defesa da emancipação dos escravos, não poderia imaginar que cem anos depois trechos do seu poema seriam impressos na prova de uma matéria chamada Literatura Brasileira, e, muito menos, poderia supor, em seus maiores delírios, que as perguntas feitas a partir de sua obra seriam: 1) O autor deste poema pertence a qual fase do romantismo?; 2) Quais as características do movimento romântico expressas em Castro Alves?

Muito menos Augusto dos Anjos, que falava com a morte tão de perto em seus poemas a ponto de ela ter chegado cedo a sua vida na forma de uma pneumonia fatal, aos trinta anos, não poderia conceber que, dez décadas depois, uma professora em início de carreira, apaixonada desde sempre por seus versos de angústia e espanto, entrou em depressão profunda após uma aula de literatura, na qual por pressão do programa curricular, da carga horária apertada e da data da prova, teve que resumir a obra de seu poeta preferido em duas frases: “Os versos mórbidos de Augusto dos Anjos ofenderam a métrica parnasiana e os bons costumes da lírica”, ela ditou, trêmula, do livro didático para os alunos. “O pessimismo do poeta aliado à ciência acusava a degradação humana por meio de analogias com processos químicos e biológicos”, disse, lúgubre.“De-gra”, o quê, professora?, um aluno perguntou, enquanto copiava. “De-gra-da-ção hu-ma-na”, repetiu, perplexa, e, naquela noite, queimou em silêncio profundo as cinqüenta cópias do poema O Deus-verme, que havia escolhido e impresso para ler e discutir na aula.

Meia página
Enquanto Lima Barreto andava madrugadas sem fim pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, buscando em vão a paisagem antiga da cidade amada, enquanto denunciava em suas crônicas o caos e conchavos da Primeira República, ou enquanto dava voz e corpo em seus romances e contos à realidade brasileira, que pouco se olhava no espelho e quando se olhava via outra cara, a européia, ele não poderia ter concebido, nem em seus pesadelos etílicos, que em menos de um século, a sua vida e obra marginalizada receberiam meia página em um livro didático, e que um professor diria afobado aos alunos que não era preciso lê-la, porque aquele escritor não cairia na prova da próxima semana e o seu livro raramente era pedido no vestibular.

Também não passou pela cabeça de Machado de Assis que onze décadas depois de ter escrito o seu Dom Casmurro, em um mergulho inédito e assustador na psique humana, duas jovens de dezesseis anos seriam trancadas em seus quartos por dois dias e duas noites inteiras, sem direito a TV nem a MP3, com a ordem dos pais de que só poderiam sair após conhecerem enfim a alta literatura brasileira, lerem o famoso romance do consagrado escritor e fazerem o trabalho escolar a ser entregue na segunda-feira, no qual deveriam responder, no mínimo, em uma lauda, no máximo, duas, se Bentinho tinha motivos para ser tão ciumento e se Capitu afinal era ou não era flor-que-se-cheire.

Tampouco passou pela cabeça de um escritor contemporâneo, ao lançar enfim o seu livro, que, em 2080, ele poderá ser tema de uma questão múltipla-escolha de um vestibular futurista, ou então será usado como ilustração do “estilo de época” do início do século 21, ou ainda ser resumido em um texto informativo, com cheiro de escritório e formol. Entretanto, passou, sim, pela cabeça de outro escritor contemporâneo de renome e fama, que uma posteridade cruel e assustadora talvez o aguardasse, quando viu o filho, para quem lia histórias desde o berço, entrar na escola amigo dos livros e sair de lá para a faculdade exausto de características, estilos de época, nomes de autores e livros clássicos lidos mal e apressadamente para um trabalho ou prova. Também passou, sim, pela cabeça de uma escritora contemporânea em início de caminhada que havia algo de podre no reino das palavras, quando a sua irmã adolescente, que se autodenominava amante da literatura, um dia, em uma livraria, comprou entusiasmada um livro de sucesso do momento, e quando se deparou, em uma prateleira, com um dos livros que tinha lido na escola, fez uma imensa careta. Diante da perplexidade da escritora contemporânea, a irmã caçula explicou a diferença: “isto não é literatura, é matéria”.

Dizem que na escuridão de noites sem lua, corredores de escolas são invadidos por espectros indignados. Vozes sem corpo ressoam entre carteiras e mesas vazias, exclamando trechos de livros e declamando poemas. Sôfregas vozes que se transportam no tempo e no espaço, assombram e iluminam os sonhos de professores e alunos, murmuram e rosnam nos ouvidos de diretores e programadores curriculares, entram entre gritos e grunhidos nos pesadelos ministeriais e presidenciais até a manhã apontar o fim da escuridão e o início de outras angústias.

Há aquelas que ainda conseguem recobrar um pouco o fôlego ao se deparar, em suas errâncias, com um livro aberto sobre um peito que dorme, outro com marcador no fundo de uma bolsa, uma pilha de papel fresca e branca prestes a ser impressa, dedos nervosos sobre teclas insistentes, folhas escritas sobre a mesa. Pequenos fragmentos de esperança, porém. Quando o sol nasce e a cidade acorda, quando as livrarias abrem as portas e as escolas tocam o hino nacional, os espectros retornam exaustos às bibliotecas e às estantes, e as vozes se refugiam ainda sôfregas entre poeiras e livros.

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