Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Tique-taque cotidiano

Texto publicado na edição #120

Tique-taque cotidiano

Metade do sábado já passou, ainda não almocei, estou sem fome, comi pão com queijo, bebi café sem açúcar às […]

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Cadão Volpato, autor de Relógio sem sol

Metade do sábado já passou, ainda não almocei, estou sem fome, comi pão com queijo, bebi café sem açúcar às 10h36 e lembro que preciso escrever uma resenha. Não sei se já contei, mas só consigo pensar enquanto caminho.

Parado, não penso, não consigo ligar, como dizem, lé com cré.

Já estou na rua, com alguns (poucos) dinheiros no bolso porque pretendo parar no próximo café e pedir e beber um espresso, antes de pensar na resenha.

Ventou há pouco e, sabe-se lá o motivo, lembro agora da década de 1980. Naquele tempo, eu comprava discos pelo correio. Queria saber se realmente o que indicavam na revista Bizz era, seria ou poderia ser tão bom como aqueles textos, resenhas e comentários afirmavam. Em 1986 — ou seria 1987? —, um júri da Bizz dizia que o álbum 3 lugares diferentes, da banda Fellini, seria tão bom ou melhor que um da Legião Urbana.

Seria isso mesmo?

Um dia o disco chegou e, até hoje, escuto os sons da rapaziada da banda Fellini.

Ano passado, o Fellini, que já tinha encerrado havia muito as suas atividades, se reorganizou e fez um showzaço aqui em Curitiba.

Em um primeiro momento, eu nem queria saber. Até para não estragar aquele mito do passado. Mas, durante a semana que antecedeu o show, todo dia, de tarde, de noite, e até de manhã, pelas esquinas, meio por acaso, ou não, surgia um conhecido da década de 1980 e perguntava, meio que me desafiando: “Você não vai perder o Fellini, vai?”.

Hesitei até as 21 horas daquele sábado, mas não resisti.

Do show?

O melhor, o maior espetáculo da Terra. (Se você der uma googlada encontrará facilmente comentários sobre as apresentações — a de Curitiba e as que aconteceram também em São Paulo).

Sei que depois do show, dias ou meses, nem lembro, o Luiz Moura, da Fnac aqui de Curitiba, me convidou para mediar uma conversa com o Cadão Volpato.

Naquela noite, a do bate-papo, uma van parou na porta do prédio onde moro. Fui conversando com o Cadão, durante uns dez quilômetros com engarrafamento, o melhor e mais desejado engarrafamento em que estive envolvido.

Foi curioso. Não tinha ninguém para ver. Os livros do Cadão não chegaram. Ele hesitou, mas sugeri: “Vamos continuar essa conversa, só que com microfone? Que tal?”. Ainda nos serviram vinho, e nós dois falando, foram chegando um, dois, três, quatro pessoas no máximo.

Afinal, para que grandes platéias?

Fiz perguntas, mas não lembro a respeito de tudo o falamos. Lembro sim que, publicamente, o Cadão me perguntou o que eu tinha achado de Relógio sem sol, o livro que motivou a viagem dele de São Paulo até Curitiba. Tergiversei. Não falei nada naquela noite, e talvez ele tenha esperado pelo pronunciamento, não sei, talvez não.

Mas, caro Cadão, este texto é a minha resposta, atrasada, sobre o que o seu livro causou em mim. (Você está lendo, Cadão? Este texto é especialmente para você).

Pequenos momentos
Já estou em um café, no centro de Curitiba.

Cansei.

Ainda não elaborei nada a respeito de seu livro, Cadão. Queria ter uma tese, mas não dessas que são aprovadas em universidades, Deus me livre de notas de rodapé, citações, viagens entre aspas e outros vícios que, de maneira geral, apenas afastam o leitor do texto.

Preciso de um fio-condutor para falar de seu belo, lírico e não-óbvio Relógio sem sol.

Peço uma água com gás e um espresso grande.

Preciso de um tempo para lembrar do livro.

Faz sol e tudo que terei nessa tarde será esse tempo livre, esses goles de água e café, muitos passos pelo centro de Curitiba: pessoas que passam e de quem não vou lembrar o rosto, as roupas, nada, nem do que falavam. Ouço uma canção num carro, e sei que vou chegar em casa, daqui a pouco, comer algo, depois ler umas páginas de outros livros, conferir o jornal, dormir, talvez eu sonhe.

O que resta para quem vive?

O livro do Cadão fala disso: de momentos, talvez pequenos, mas do que há para pessoas. Cadão, em Relógio sem sol, não mostra “grandes” seres, nem “grandes” momentos, tampouco “grandes” jornadas. Há, por exemplo, um personagem que trabalha em um escritório, tem a sua rotina, a sua vivência com a família e sonha com a temporada de férias. A narrativa de Cadão, justamente, consegue traduzir esse clima-nuance de aparentes “pequenas criaturas” em meio a uma cidade grande.

Bebo um gole de espresso e lembro, olhando para o chão, que os personagens de Relógios sem sol são anônimos, apresentados apenas pelos primeiros nomes, sem sobrenomes. São anônimos na multidão. São urbanos do século 20 seguindo ao século 21 com seus problemas no trabalho, no casamento, no trânsito. Então, para eles, ou mesmo para um deles, sentar em um banco de um bar pode ser um breve idílio. Não para beber cerveja, mas para abrir um feriado em meio uma rotina aparentemente sem fim.

Sabe, Cadão, todo mundo parece agitado aqui em Curitiba. Ouço, aqui, no café, na mesa ao lado, alguém que fala que tem muitos projetos, tantos sonhos, e parece, em meio a esse burburinho, que preciso de silêncio e, principalmente, de nenhum projeto.

Já estou na rua e vejo uma cortina a voar por uma janela, e parece que há não-movimento dentro daquele apartamento, no sétimo andar, em um prédio antigo. É essa imagem que me devolve a Relógio sem sol. Talvez algum dos personagens desse seu livro pudesse morar ali, aqui, neste prédio.

“Se eu não trabalhava/ Alguém dava duro e não faltava grande coisa lá em casa/ El Caimán Barbudo sentava na própria cauda/ À meia-noite, enquanto você sonhava/ Depois do batente Vênus descansava/ Marte sempre cortês jogava cartas/ Preto era o céu/ Bom de se olhar/ Onde Três Virgos queriam se arrumar// Se você passava uma semana na praia/ E depois voltava/ Mesmo assim a gente dava uma pequena pausa/ E em ambos mundos se ajeitava.” Esse texto, com marcas sugerindo pausas, é letra de “Ambos mundos”, uma das canções do Fellini, isso você sabe mais que todo mundo, Cadão, mas pode haver leitor do Rascunho que talvez não tenha conhecido a sua banda. Dá vontade de dizer, para quem nunca escutou o Fellini, a seguinte frase de uma de suas canções: “Você não imagina o que você não conheceu”. Mas, onde era mesmo que eu estava, Cadão? Ah, sim: o texto da letra de “Ambos mundos” entrou na resenha porque ele, o texto da letra, poderia estar em Relógio sem sol.

Um dos personagens do livro, em determinado momento, se prepara ou sonha que está em um intervalo, sem trabalho, fora da cidade, em uma praia, e aquela cena, a descrição que o narrador faz no livro, já estava lá na letra de “Ambos mundos”: “Se você passava uma semana na praia/ E depois voltava/ Mesmo assim a gente dava uma pequena pausa/ E em ambos mundos se ajeitava”.

Tudo cinza
Viu, Cadão?

O que me chamou a atenção nessa sua prosa é que ela, a sua prosa, mostra uma recriação do cotidiano de quem não tem outra saída a não ser pagar contas, transporte, impostos e a mensalidade da escola dos filhos, e isso não é apresentado como ruim nem bom, apenas é.

Agora, o céu ficou cinza, parece que vai chover, e cinza lembra a cor do seu livro, cinza parece ser o tom do seu livro e, lá, antes do fim, tem uma fala, em meio a uma morte, ocasião em que o título da sua obra aparece na fala de uma personagem. Vou repetir o trecho, caro Cadão: “A vida é só um relógio sem sol? Isso é poesia, poesia não entra mais aqui. Talvez amanhã o sol apareça. Hoje mesmo eu disse uma coisa qualquer que me fez rir, e ele estava lá, espiando. E assim nós vamos indo”. E, ora direis, ouvir Fellini, eu poderia completar, e completo: “Uma vida despojada de sentido”.

Cadão, o seu livro é bom. E é bom, entre outras coisas, porque é diferente. Não me lembro de nada, na literatura brasileira contemporânea, parecido com a sua prosa.

Já é noite, estou em casa, e escrevo este texto, estou quase acabando, e lembro do poema Lagoa, do primeiro livro do Drummond: “Eu não vi o mar./ Não sei se o mar é bonito,/ não sei se ele é bravo./ O mar não me importa.// Eu vi a lagoa./ A lagoa, sim. (…) Eu vi a lagoa.”. Este poema tem tudo a ver com o teu livro. Você, ao fazer Relógio sem sol, não mirou em grandes heróis (o mar), mas sim em gente que, aparentemente, não entra para a história (a lagoa).

Sabe, Cadão: se me tornei jornalista foi por causa dos textos da Bizz e da banda Fellini. E, ao fazer esta resenha, quis, antes de tudo, acima de qualquer coisa, escrever um texto do jeito que eram feitas aquelas prosas da Bizz na década de 1980, na época em que uma banda paulistana fazia um som completamente original e tinha letras que já apontavam para as jornadas, não de gigantes (do mar), mas de seres como eu (da lagoa).

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CADÃO VOLPATO

Nasceu no dia 28 de dezembro de 1956. Formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Foi revisor, checador de notícias e repórter da Veja, da TV Cultura de São Paulo e da TV Senac. Vocalista e fundador do grupo Fellini, também escreveu e publicou livros, entre os quais Ronda noturna e Dezembro de um verão maravilhoso, ambos de contos, entre outros.

Foi assim que começou, dois anos antes. Naquela ocasião, segundos depois ela trouxe de volta os pés e ele não sabe de onde tirou todo aquele ímpeto, de tornar a abraçá-la com os pés debaixo da mesa, e ela então deixou que eles permanecessem ali do jeito que estavam, sem olhar para os olhos dele. A eletricidade irradiada pelos pés subia até os cabelos. Eles continuaram assim por um bom tempo, sem se importar com a multidão de outros pés ao redor, que seguiam mansos os seus desígnios pedestres, retorcendo os dedos de preguiça, enroscando-se nos pés das cadeiras, escondendo-se na penumbra. Achavam que só os pés deles é que namoravam, gerando torres de eletricidade até por volta da meia-noite.

Cadao Volpato_relogio sem sol

Cadão Volpato
Iluminuras
118 págs.