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março 2019 / Rodapé / Textos que não se entregam

Texto publicado na edição #227

Textos que não se entregam

Com "O lugar dos dissidentes", João Matias se perfila ao lado dos melhores autores de microrrelatos do país

> Por RINALDO DE FERNANDES

Walter Benjamin, no ensaio O narrador, adverte que a narrativa artística evita explicações e nunca “se entrega”. É capaz de “se desenvolver” tempos depois, de comportar novos sentidos. Muitos dos microrrelatos de O lugar dos dissidentes, do cearense João Matias, doutorando em Sociologia na UFPE (escreve tese sobre João Ubaldo), vão fazer o leitor revisitá-los e/ou degustá-los mais de uma vez. São microrrelatos que, efetivamente, nunca se entregam. E o deleite está nisso — nas inúmeras sugestões que guardam. João Matias é um escritor com pleno domínio do microrrelato. Conduz-se com maestria nesse gênero difícil, desafiador. São microrrelatos incisivos, certeiros. E, à maneira de Dalton Trevisan, João Matias é perverso, desapiedado. Alarma o leitor, por exemplo, a crueldade de Novos ventos: “Lá distante, de onde os ventos trazem o barulho dos gritos, o velho verte sozinho seu pescoço enrugado. As artérias evidentes, o gogó manso. Da cadeira de rodas, ele põe uma bengala em riste, igual fuzil, e aguarda na saúde fraca os novos ventos”. Que erotismo bizarro! Que sarcasmo com o declínio que nos atingirá a todos! Fiel ao título, os microrrelatos do livro tratam, de modo mais ou menos ajustado, de desavenças, discórdias, cisões. A guerra conjugal, com Manhas, abre o volume. Desafeição é do que Estio se ocupa. Traição e vingança é o tema de Tentativa. A cultura da violência explode em Tiros na rua assombrada, no primoroso Fim de semana e ainda em Roleta russa. O desnorteio existencial recobre Tsunami e Calendário. O despojamento, o descerimonioso, o viver simples comparecem em O andarilho. Beira a trama policial o cinematográfico Conto-semáforo. O coveiro deflagra um intertexto divertido com Augusto dos Anjos. O efeito de uma ditadura em sensibilidades mais puras é abordado em Religião. O poético e o trágico porfiam em Cheiro de rosas. O cotidiano traumático, de carências irresolvíveis, inquietam o Alfred. E o mistério habita o Precipício. A linguagem, por outro lado, é um dos pontos altos do livro. Há uma sobriedade no estilo de João Matias. Os microrrelatos, do primeiro ao último, preservam a consistência estilística. Um elemento por assim dizer estrutural em microrrelatos é o desvio na linguagem, o invento, o achado poético. Há no livro alguns achados poéticos dignos de nota. Exemplo: “o Titanic soberbo, no qual pesavam calorosas festas” (Desastre). João Matias, com O lugar dos dissidentes, se perfila ao lado dos melhores autores de microrrelatos do país.

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