Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Texto certo no país errado

Texto publicado na edição #109

Texto certo no país errado

A Record lançou mais um. Uma velha conhecida da editora. Com vários livros publicados pela casa. Autora de A casa […]

> Por CLÁUDIO PORTELLA

A Record lançou mais um. Uma velha conhecida da editora. Com vários livros publicados pela casa. Autora de A casa das sete mulheres, romance que vendeu cem mil exemplares e foi para as telas da TV. Os aparados é o novo romance da gaúcha Letícia Wierzchowski.

A Record lançou mais um livro da confraria de escritores do Rio Grande do Sul. Na resenha anterior aqui no Rascunho, sobre o novo romance (Desculpem, sou novo aqui) do gaúcho Carlos Moraes, falei do meu espanto da enxurrada de autores gaúchos. Citei alguns, e, para ampliar, cito mais: Cristiano Baldi, Moacyr Scliar, Tabajara Ruas (também teve recentemente livro publicado pela Record: O detetive sentimental) e o biônico Josué Guimarães.

Na casa de Marcus, personagem central do romance de Letícia, há uma prateleira especial com livros de gaúchos.

A história toda se passa no Rio Grande do Sul e todos os personagens são gaúchos. Cabem aqui perguntas que me faço com constância: Por que o ficcionista brasileiro está quase sempre ligado as suas raízes? Não seria bom uma ficção sem esses elos, sem o suposto regionalismo bairrista?

A temperatura do planeta chega a níveis elevados, chove sem parar e Porto Alegre é uma cidade caótica. E nesse clima de fim do mundo a história se desenvolve: um avô, assustado pelo fantasma da mulher e da filha, se refugia com a neta gestante numa casa, meticulosamente preparada para ser um abrigo anticatástrofe, no alto da montanha.

O romance parece um roteiro cinematográfico de um suspense americano. As deixas de suspense são previsíveis, como quando estão subindo a montanha rumo a casa e encontram na estrada um velho e uma criança e saem com o carro em disparada, ou quando a casa é invadida por ladrões, e acontece uma sucessão de clichês dos filmes do gênero.

A linguagem de e-mails parece tentar assumir status de gênero literário. Acabo de ler dois romances recentes que fazem uso desse artifício: o malogrado (apesar da orelha de Moacyr Scliar) romance de estréia da jornalista Luciana Pinsky, Sujeito oculto e demais graças do amor, que na verdade abusa dos e-mails, e Porque ela pode (também de estréia) da americana Bridie Clark.

Em Os aparados, vemos capítulos que são apenas mensagens de e-mails. Gosto disso. Deixo a idéia de teses acadêmicas sobre o assunto.

Ao longo da narração, Marcus Reismann é seguindo por um menininho que aparece e desaparece. O encontro dos dois é sempre descrito de forma muito poética, assim até o final do livro.

Letícia Wierzchowski escreveu uma história que em algumas ocasiões beira o esoterismo e em outras é embotada de poesia. Nada mais.

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Leticia W_livro

Letícia Wierzchowski
Record
236 págs