Ensaios e Resenhas

setembro 2018 / Ensaios e Resenhas / Testamento literário

Texto publicado na edição #221

Testamento literário

Nostálgico e reflexivo, "Aqui de dentro" é o último suspiro de um dos maiores poetas de uma América prestes a desaparecer

> Por Ricardo Silva

Sam Shepard, autor de Aqui de dentro.

Sam Shepard, autor de Aqui de dentro.

O nome nos chega e a familiaridade é imediata. Samuel Shepard. Sam. O que carregava em si a difusão das múltiplas personalidades que o ocuparam a vida inteira neste ofício da atuação. Samuel Shepard Rogers III, o pomposo nome daquele foi soberano dentro e fora dos palcos.

Sam Shepard, o confessor de si, o que não tinha medo da autorrevelação — suas peças dizem muito claramente isso —, fez do seu último suspiro literário o palco de tantas outras confissões. E, para isso, escreveu o primeiro romance da sua carreira.

Lançado um pouco antes da sua morte no ano passado, Aqui de dentro é o único romance do percurso de escrita do dramaturgo e roteirista — responsável, entre outros, pelo roteiro do primoroso Paris Texas, de Wim Wenders.

Vindo de uma obra primorosa, este seu romance se configura como uma pedra rara habilidosamente burilada por um artesão muito consciencioso da tarefa que executou.

Aqui de dentro, com habilidosa tradução de Denise Bottmann, não se finca num cenário facilmente identificável. Compilando trechos de diversos formatos, costurados por um austero e telúrico estilo, o narrador do romance de Shepard não tem um nome. É uma figura que regurgita seus sentimentos e memórias tentando compreender essa amálgama que se formou dentro de si.

Também ator e escritor, o narrador de Shepard parece ser essa miscelânea que transita entre o ficcional e autobiográfico numa linha muito tênue, quase imperceptível. Ou nos termos de Patti Smith, que foi um dos casos amorosos na juventude de Shepard, o narrador do romance “é bem ele, mais ou menos ele, nada a ver com ele”.

O laço entre o presente e o passado
A saga do narrador de Shepard é a daquele que busca compreender as linhas invisíveis que conectam o passado e o presente, onde e como esse eco distante e próximo vibra e ressoa. No decorrer da narrativa algumas figuras servem a esse propósito, que nem sempre se mostra bem sucedido.

A cena inicial do romance é a de tiros e uivos de coiotes na madrugada, que acordam o narrador e o fazem entrar nesse estado que transita entre o sonho e a realidade — seja lá o que o “real” signifique de fato — e o faz tentar perceber “a paisagem sempre mutante do corpo”, caindo nessa espécie de metamorfose — não transformando-se no inseto kafkiano mas no humano que trava uma batalha para investigar as próprias mudanças internas.

O tempo é a moldura que apresenta os quadros e cenários da vida do narrador. O seu escrito, para mais uma vez usar uma expressão de Patti Smith no seu tocante prefácio, é a sua “bússola preta” que não indica muito bem quais são as coordenadas da sua vida. Os polos da sua existência mostram-se múltiplos e desmagnetizados, por vezes iguais e noutras completamente díspares entre si.

Na busca da compreensão desses laços que costuram o presente e o passado, o narrador entabula uma luta intensa e poderosa. Fala de si sempre naquele tom nostálgico e de despedida, o que reflete muito o próprio tom final de Sam Shepard, que morreu em decorrência de uma doença degenerativa.

A lembrança é o elemento que vai impulsionar o narrador na sua saga de autodescoberta. Lembranças do pai — a figura poderosa e também apequenada que exerceu uma indelével influência na sua vida —, das mulheres que atravessaram sua existência, as paixões compartilhadas entre o seu pai e ele, além do gosto por carros e cavalos.

O pai é a imagem mais presente no decorrer da obra. A luta edipiana a procura de libertação da pesada figura paterna que o assombra, que o engendra em rodopios reflexivos lançando-o num mar de dúvidas. Na tentativa de escapar do passado e os erros que nele viu, o narrador do romance parece estar enredado num ciclo de repetição e os comete da mesma maneira.

Os jogos afetivos
As figuras femininas que atravessam a vida do narrador, parecem ocupar a sua fuga da solidão ao mesmo tempo que o empurram para ela. São diversas as paixões e os jogos afetivos que o cansam, e que trazem à tona a pútrida estrutura dos amores humanos e o quanto eles podem ser perigosos, mesmo que extremamente necessários.

Nesse embaralho de amores, existe o destaque para três mulheres que marcam profundamente a vida do narrador: a primeira delas é Felicity, adolescente trágica e figura dúbia que mantém relações sexuais com o pai do narrador e que também o inicia na vida sexual e na incógnita dos sentimentos; a outra é a sua esposa, com quem esteve casado por trinta anos e que o abandona sem muitas explicações; por último tem a Garota Chantagem, ambiciosa jovem que grava as suas conversas e ameaça publicá-las.

Felicity invoca a descoberta, a exploração de um novo terreno, do sexo, da sublimada inveja da figura do pai e dos seus impulsos dominadores. A menina de ainda treze anos é a personagem de destino catastrófico, que revela ao narrador o seu atordoamento. Enquanto isso a esposa parece representar as certezas que podem se desvanecer a qualquer momento sem retorno, sem volta, apenas ressoando as consequências do que poderia ter sido feito e não foi. Nessa costura, tem a Garota Chantagem, que é apresentada sempre em diálogos velozes e teatrais, como se ela mesma fosse um espelho do narrador e, por consequência de Shepard, que também vai “testando e avaliando as reações” — mais uma vez apelando para Patti Smith.

Testamento literário
A convergência entre o sonho, o real, o irreal, alucinações e a memória das mulheres, da vida, das viagens, das explorações pelo mundo, dos tempos de atuação, dos esforços da escrita. Esse entremeado de elementos é o que constitui Aqui de dentro.

O estilo diverso, que brinca com o diálogo, o monólogo e a descrição crua dos ambientes e personagens, torna complexa a tentativa de enquadrar o derradeiro trabalho de Shepard num gênero tão cheio de regras como é o romance.

Temas caros a obra de Shepard — identidade, memórias, vida familiar e os seus conflitos — são amalgamados aqui numa profusão de acontecimentos que nos desorientam.

A linguagem é rica, elaborada com um cuidado para não perder a cadência do que diz, da(s) história(s) que conta. O tom solitário, nostálgico, triste, diz que a hora da fragmentação da existência — do narrador e de Shepard — está próxima. Nas linhas do ator e dramaturgo americano existe o retrato fiel e belo de uma América fadada a sumir do mapa do sujeito contemporâneo hipertecnologizado — aquela América das longas estradas empoeiradas e histórias que hoje soam deslocadas no tempo.

O testamento literário de Shepard é escrito com a tinta da poesia. Seu romance é inteiro atravessado pelo poema melancólico do fim da vida. Discreto e dado ao silêncio, Sam Shepard fez de Aqui de dentro a afirmação de que o que importa mesmo é deixar tudo alinhado e saber da hora em que tudo termina.

Borrando as fronteiras entre o que se entende por realidade e o que talvez-não-seja-real, Shepard se despede do mundo com uma obra repleta de esmero, comprovando seu papel de poeta dessa América perdida e de uma geração que soube fazer da existência um grande palco desse espetáculo que é viver.

 

 

Sam Shepard_Aqui_dentro_221

Aqui de dentro
Sam Shepard
Trad.: Denise Bottmann
Estação Liberdade
203 págs.

 

 

O AUTOR
Sam Shepard
Nasceu em 1943 e morreu em 2017. Foi ator, roteirista, cineasta e romancista norte-americano. Ganhador do prêmio Pulitzer pela peça Criança enterrada, foi um dos maiores dramaturgos da sua geração e responsável por roteiros como o do longa Paris Texas.

 

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