Ensaios e Resenhas

agosto 2015 / Ensaios e Resenhas / Tentemos não fugir de nós mesmos

Texto publicado na edição #184

Tentemos não fugir de nós mesmos

Tzvetan Todorov convida a enxergar a sociedade não como um desastre, mas como uma inescapável condição humana

> Por ANDRÉ ARGOLO

Tzvetan Todorov

Tzvetan Todorov

Outro dia circulou pelas redes sociais a notícia de que um lugar na Patagônia chilena busca novos habitantes. Os governantes querem explorar o potencial turístico daquele cantinho do fim do mundo chamado Pampa Guanaco. E que o número de interessados, de vários países, surpreendeu o prefeito. Os humanos se aproximam rapidamente dos oito bilhões na Terra — estamos nos sentindo apertados. Há um disseminado desejo de fuga das multidões, de escape das grandes cidades, como se o grande mal da sociedade fossem justamente as pessoas. A frase já traz o estranhamento necessário ao momento. A má notícia para quem sonha com o sossego é que mesmo Pampa Guanaco também deverá ter seus problemas de trânsito e lixo. Cada vez menos haverá pontos isolados aos insatisfeitos. E então chegamos ao livro A vida em comum, onde Tzvetan Todorov convida a enxergar a sociedade não como um desastre, um castigo, mas como uma inescapável condição humana, até com chance de felicidade. Mas sobretudo a obra é um gigantesco espelho.

Todorov faz uma costura de várias formas de pensamento, com uma linha que chama de Antropologia Geral. Logo no prefácio ele explica como sendo “o meio do caminho entre as ciências humanas e a Filosofia; uma ponte que permite uni-las ou um espaço intermediário que facilita sua articulação”. Tem filosofia, psicologia, sociologia e literatura na receita. Se o leitor tiver alguma alergia aos componentes, pode tentar a cura persistindo um pouco. Uma das características de Todorov é o texto claro e bem ritmado.

O livro é dividido em cinco partes. Na primeira, o autor pesca entre pensadores ocidentais de tempos diversos quem tratou mais profundamente da necessidade de o Homem viver em sociedade e também do contrário disso. Cita Montaigne, Hobbes, Maquiavel, La Rochefocauld, Pascal, Adam Smith, Kant, Sade, Nietzsche, entre outros, ora usando trechos de obras deles para fundamentar ou contextualizar, ora para discordar abertamente dos argumentos. Concordar mesmo, Todorov concorda com Rousseau. Justo o pensador marcado pela experiência do isolamento. Mas é nas reflexões do iluminista que Todorov encontra boa parte das conclusões sobre a necessidade de o Homem viver em sociedade: “A solidão absoluta é um estado triste e contrário à natureza”, reproduz dos Diálogos.

Essa primeira parte de A vida em comum o tempo todo convida o leitor a pensar na vida contemporânea, que desenvolveu a um ponto muito evidente o individualismo. A ideia de que o ser humano tem tendências naturais pela violência, pelo domínio, pelo poder, ainda é muito disseminada. Todorov se opõe a isso:

estamos sempre prontos a receber, como uma revelação audaciosa, como uma verdade subversiva, a afirmação de uma natureza humana má, ou seja, egoísta, solitária. Aqueles que resistem a tal redução são ainda acusados de moralismo, de fraqueza, de pusilanimidade: eles não ousam encarar a verdade.

Não é menos significativa a segunda parte Ser, viver, existir. Freud entra no meio de campo nesse momento, dá o pontapé inicial com as pulsões sexuais e de autoconservação. Todorov considera mas não se atrela ao que insinua ser um reducionismo da condição humana. Para isso, pede ajuda a Victor Hugo, que escreveu: “Os animais vivem, o homem existe”.

Reconhecimento
Nesse capítulo é que Todorov começa a tratar da necessidade humana de reconhecimento pelo outro. E que nisso reside nossa noção de existência. Para discorrer mais sobre o assunto, recorre aos primeiros meses de nossas vidas, com a necessidade da criança, além de leite, de proteção, de atenção, muito comumente revelada pela busca do olhar da mãe.

Por que um livro como este não é um best-seller se revela tanto sobre a vida? Não é difícil pensar que justamente por que não dá respostas fáceis, não dá fórmulas prontas, levanta mais questões do que oferece respostas. Faz pensar. Hannah Arendt já dizia na década de 50 que a ausência de pensamento era um dos grandes males da Humanidade, já naqueles tempos.

A terceira parte do livro aprofunda a questão do reconhecimento. Está na página 129: “O reconhecimento de nosso ser e a confirmação de nosso valor são o oxigênio da existência”. Aqui, o autor discorre sobre diversas formas de reconhecimento, algumas polêmicas porque até mesmo os maus-tratos em alguns casos resultam em forma de reconhecimento social, em detrimento à invisibilidade — esta, cruelíssima, avassaladora, desumana.

É inevitável o quanto os valores da sociedade incidem sobre essa necessidade humana e criam distorções perigosas. Se definimos que é importante o que se veste, o tênis da moda não é mais apenas algo que proteja os pés, mas é tão importante quanto comida. E se tendemos a perdoar o ladrão de galinhas, porque o faz por fome, temos de admitir que o ladrão de tênis é movido por algo muito parecido e intenso quanto a fome. Na página 116:

aquele que não mais pode exercer controle sobre suas roupas (em decorrência da pobreza, por exemplo) sente-se paralisado em relação aos outros, privado de dignidade.

Publicado pela Unesp em 2014, o livro foi escrito em 1995. Era o começo da internet. Estávamos longe do Orkut e do Facebook (o que virá depois?). Mas não é difícil também entender que a necessidade de reconhecimento tem a ver com a força das redes sociais. Ter um comentário “curtido” é o mesmo que ser visto? O escritor Marcio Vassallo costuma usar um termo que aprofunda a noção de contato social: reparar. O reparo é uma atenção rara por conta da pressa que domina os dias das pessoas, entre a necessidade de ganhar dinheiro e cuidar da casa, ou mesmo a pressa em se divertir (ou sentir que está se divertindo).

A contribuição mais evidente deste livro de Todorov é o convite à dúvida sobre a natureza do Homem, minar a ideia de que somos malvados, que somos mais bichos e que só vivemos em sociedade por fraqueza. Na necessidade de reconhecimento da existência pelo olhar dos outros estão nossa felicidade e ao mesmo tempo sofrimento. Mas Todorov indica que não haja outro caminho possível para a evolução da sociedade senão esse reparo. E indica que os valores calcados no consumo distanciam as pessoas desse ideal.

Um, dois, muitos
Todorov não facilita o entendimento da essência humana. Nenhuma linha de pensamento tem toda a razão. Nenhuma pessoa é só de uma jeito. A multiplicidade e a contradição são qualidades extremamente humanas. A criança, por exemplo, segundo o autor, “quer ao mesmo tempo sentir-se segura e desperta para o mundo, encontrar, portanto, o conhecido e descobrir o desconhecido”. Em tempos de intolerância ainda em voga, apesar das vivências terríveis dos séculos 19 e 20 com a escravidão e o holocausto, tempos de violência urbana, crianças recrutadas para o tráfico de drogas, para o terrorismo ou para guerras, intenções de redução da maioridade penal no Brasil, há no pensamento de Todorov uma luz de emergência acesa: precisamos nos olhar mais e melhor, de lupa e de binóculo, no espelho e em redor.

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Tzvetan Todorov

É búlgaro, radicado na França. Nasceu em 1939. É um dos mais influentes pensadores em atividade neste início de século, intelectual de muitos tentáculos, que alcançam a literatura, a filosofia, a história, a antropologia. Autor, entre outros livros, de A conquista da América e A beleza salvará o mundo.

Uma melhor compreensão da existência humana é útil não somente em si mesma, mas também porque ela influencia os objetivos que a sociedade determina para seu desenvolvimento. É em decorrência de algumas concepções antropológicas subjacentes que dizemos que o objetivo da existência é, de um lado, o desenvolvimento do indivíduo, a realização de si; ou, de outro, o progresso da sociedade, ainda que este implique o sacrifício de certas vantagens do indivíduo.

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Tzvetan Todorov
Trad.: Maria Angélica Deângeli e Norma Wimmer
Editora Unesp
224 págs.