Simetrias dissonantes

dezembro 2015 / Simetrias dissonantes / Tempo e espaço na ficção

Texto publicado na edição #186

Tempo e espaço na ficção

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem. Narrador, personagem, enredo e linguagem são […]

> Por NELSON DE OLIVEIRA

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

Narrador, personagem, enredo e linguagem são as que recebem mais atenção dos ficcionistas.

Tempo e espaço, ao contrário, são as categorias que os ficcionistas menos reelaboram e subvertem. Há algo de aparentemente inflexível na noção cotidiana de tempo e espaço, algo que parece fixo e imutável.

Talvez por isso os escritores se esforcem tanto pra manter a corriqueira ilusão espaçotemporal, de índole naturalista.

Podem até inventar narradores excêntricos e personagens bizarros vivendo aventuras insólitas, mas, nos quesitos tempo e espaço, preferem não fugir da tradicional ordem cronológica e geométrica dos fatos. Escolhem reforçar a ilusão de causalidade, em vez de desmontá-la.

Na literatura e no cinema, porém, há exemplos excelentes de narrativas que tratam o tempo e o espaço de maneira pouco convencional.

Tempo
No romance Um dia, o narrador de David Nicholls acompanha os protagonistas durante duas décadas, mas cada capítulo focaliza apenas um dia do ano: 15 de julho.

No romance Orlando: uma biografia, Virginia Woolf nos apresenta um protagonista que simplesmente não envelhece. Fenômeno semelhante ocorre com o garoto de doze anos do conto Saudações e adeus, de Ray Bradbury.

No conto O curioso caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, o protagonista nasce velho, vai rejuvenescendo ao longo da narrativa, até se transformar num feto e morrer.

No conto Viagem à semente, Alejo Carpentier inverte a seta do tempo e a história transcorre como num filme projetado de trás pra frente: os personagens rejuvenescem, os ponteiros do relógio giram no sentido contrário, a fumaça entra na chaminé, a água sobe para a torneira etc. No curta-metragem Palíndromo, de Philippe Barcinski, a projeção-de-trás-pra-frente faz de uma narrativa banal algo muito interessante.

No romance O jogo da amarelinha, Julio Cortázar embaralha a ordem dos capítulos, propondo ao leitor que leia na sequência que preferir.

Numa passagem do romance Ubik, de Philip K. Dick, os personagens permanecem os mesmos, mas a tecnologia e os objetos retrocedem: um computador de última geração se transforma num computador de vinte anos atrás, depois numa máquina de escrever, o mesmo acontecendo com as roupas, os automóveis, os edifícios etc.

No filme O feitiço do tempo, de Harold Ramis, o protagonista fica preso numa fatia de tempo e é obrigado a reviver o mesmo dia inúmeras vezes. Essa divertida premissa já foi usada em muitas outras obras de ficção literária e audiovisual.

Em Amnésia, Christopher Nolan inverte o calendário, contando uma história de trás pra frente (o primeiro capítulo é na verdade o último da ordem cronológica). O mesmo ocorre no longa-metragem Irreversível, de Gaspar Noé, e no magnífico curta-metragem T.R.A.N.S.I.T., de Piet Kroon.

Em Corra, Lola, corra, de Tom Tykwer, o tempo cronológico apresenta bifurcações que a protagonista consegue reavaliar quando a escolha inicial dá errado. Esse filme realiza na tela a premissa de um conto de Jorge Luis Borges, o genial Exame da obra de Herbert Quain.

Outra forma de subverter a causalidade numa narrativa é fazer o herói viajar no tempo e alterar um fato histórico qualquer. Ou encontrar seus múltiplos eus do passado e do futuro.

A maioria dos escritores de ficção científica já escreveu sobre viagens no tempo. Bons exemplos na literatura e no cinema não faltam: A máquina do tempo, de H. G. Wells, O fim da eternidade, de Isaac Asimov, a trilogia De volta para o futuro, de Robert Zemeckis, etc. O número de exemplos é quase infinito.

No divertido conto All you Zombies, de Robert A. Heinlein, um viajante no tempo descobre que é, nada mais nada menos, pai e mãe de si mesmo. Esse conto ganhou uma boa adaptação para as telas, intitulada O predestinado, dirigida pelos irmãos Michael e Peter Spierig.

No conto O outro, de Borges, o velho Borges tem uma provocativa conversa com o jovem Borges.

No filme brasuca O homem do futuro, de Cláudio Torres, o protagonista encontra-se com outros dois eus de épocas diferentes.

Qualquer hora, se conseguir reunir a habilidade e o talento necessários, vou escrever a história de um sujeito que tem quarenta anos, no dia seguinte volta a ter oito (mas se lembra que já teve quarenta), no outro dia salta para os oitenta (sempre se lembrando de tudo) e assim por diante, coitado.

Se essa história já foi contada num livro ou filme, por favor, me avisem. Vou querer ler-assistir.

Espaço
Como subverter a categoria espacial numa obra de ficção?

Adolfo Bioy Casares faz isso em sua narrativa mais famosa, A invenção de Morel.

Numa ilha aparentemente deserta do Pacífico, um fugitivo da lei encontra um grupo de pessoas e passa a espioná-las. Mas essas pessoas, nosso pobre xereta logo descobre, não são de carne e osso. São representações tridimensionais (holografias perfeitas) de turistas que estiveram na ilha, mas já desapareceram.

O conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury, é protagonizado por uma casa deserta, automatizada, numa cidade devastada.

Por sua vez, Robert A. Heinlein concebe, no conto And he built a crooked house, uma casa em forma de hipercubo, com suas faces conectadas à quarta dimensão. Por fora, a casa é um cubo comum. Por dentro, todas as passagens levam a outros cubos, e as janelas abrem para lugares distantes no espaço e no tempo.

O romance de Stanislaw Lem, Congresso futurológico, fala do espaço criado apenas em nossa mente, por substâncias alucinógenas. Realidade virtual também é o tema do romance Simulacron-3, de Daniel F. Galouye. Há ótimas versões cinematográficas desses dois livros.

No romance Jumper, de Steven Gould, o herói tem a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do planeta. O livro foi levado às telas pelo diretor Doug Liman.

A redução e a ampliação do espaço acontecem em certos momentos de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E nos filmes Viagem fantástica e Querida, encolhi as crianças. E no seriado que eu AMAVA quando era criança: Terra de gigantes.

O espaço cotidiano também muda em O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. Nesse romance um pai de família de classe média observa que tudo ao seu redor — esposa, filhos, objetos — está ficando maior a cada dia. Ou então é ele quem está encolhendo sem parar.

Outro exemplo de uso inusitado do espaço pode ser conferido no curta-metragem Tango, de Zbigniew Rybczynski, em que ocorre uma hipnótica sobreposição de personagens e ações.

Essa também é a premissa do curta-metragem Le portefeuille, de Vincent Bierrewaerts, em que um rapaz pára perto de uma carteira perdida na sarjeta. A partir daí a história mostra quatro alternativas de desenvolvimento.

Na primeira, o rapaz não vê a carteira e segue em frente. Na segunda, ele pega a carteira e segue em frente. Essa trilha também se bifurca: num caminho, o rapaz embolsa a grana e joga no lixo a carteira vazia. Noutro caminho, ele decide devolver a carteira com o dinheiro. Essa trilha também se bifurca. Num caminho, ele se dá mal. Noutro caminho, nada de grave acontece.

O interessante é que as realidades paralelas acontecem simultaneamente, no mesmo espaço.

Certas gravuras ilusionistas de M. C. Escher também perturbam nossa trivial percepção do espaço tridimensional.

Print Friendly