Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Tédio colorido

Texto publicado na edição #130

Tédio colorido

Não, inocente leitor, não tente entender as premiações literárias. Critério é palavra sem prestígio nesse território onde a política, o […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Herta Müller, autora de Depressões

Não, inocente leitor, não tente entender as premiações literárias. Critério é palavra sem prestígio nesse território onde a política, o compadrio e o jogo de interesses ditam regras. Eis que Herta Müller vence o Nobel de 2009 e nem assim sua obra merece atenção. Chico Buarque — cuidado, ele é candidatíssimo ao Nobel — tem assessoria de imprensa muito, mas muito mais eficiente.

Pois bem, Depressões é o primeiro livro de Herta Müller, agora lançado com o estardalhaço garantido pelo prêmio. Mas antes, bem antes, em 2004, a mesma editora publicou O compromisso, misto de viagem no tempo — em que a autora mostra algumas chagas do comunismo — e crônica do tédio, o mais fétido dejeto do regime. Resta ao povo, no entanto, uma alternativa: denunciar. Denunciar os parentes, os vizinhos, os colegas inimigos do comunismo. Um equívoco do resenhista, me perdoe, pois ainda resta outra alternativa: o álcool.

Em Depressões, ávido leitor, você encontrará mais, mas muito mais, do mesmo. Herta Müller, embora mais pragmática, lembra Saramago em suas repetições: comunismo, comunismo, o português — Ceaucescu, Ceaucescu, a romena.

A obra de Herta combate o que tanto Saramago defende em seus livros, e defendia em seus discursos: o comunismo.

O comunismo, seja o propagandeado por Saramago, seja o denunciado por Herta, tem como característica primeira o talento para humilhar o povo. Segue-se uma avalanche de adversidades que vão do atraso, em todos os sentidos, à fome e à perda de liberdade.

Em Depressões, alto lá psicólogos, o leitor não encontrará a depressão propriamente dita, tampouco sofrerá da mesma após a leitura, mas não garanto que evitará a decepção. Isso mesmo, decepção. Depressões beira a ingenuidade. A impressão que chega ao leitor é que a autora escreve com timidez ou, quem sabe, medo. Questiona, questiona, mas se posiciona? Transfere ao leitor a responsabilidade. Sei que já a compararam a Graciliano Ramos, basta um falar para aumentar a fila dos papagaios. O nefasto exagero de metáforas da romena serve para amenizar a gravidade da temática. Infelizmente, ela deixa o alagoano no chinelo nesse quesito. Concordo que ambos sejam secos, diretos, sem rodeios, quando ela deixa de lado as metáforas, bien sûr, mas comparar o cenário de Graciliano com o vazio e a falta de sentido criados por um regime totalitário é um exagero e tanto. Sem esquecer que Graciliano filiou-se ao Partido Comunista em 1945.

E para ser bem claro, a obra de Graciliano é muito superior. Mas não esqueça: quem ganhará o Nobel será Chico Buarque.

Depressões é um livro paradoxal, quase impossível decifrar as intenções da autora. Apesar de denunciar o regime de Ceaucescu, Herta Muller não economizou poesia, e faz lembrar contos de fadas, tamanha a maestria com que conseguiu açucarar a narrativa. O ambiente é rural, há personagens sem nomes, vilas e cidades sem nomes, não há datas, não há referências. Onírico em excesso, aqui sim o banal é banalizado.

Em Depressões, uma jovem faz o papel de narradora. Narra a vida da sua aldeia, o cotidiano de sua família, dentro dos limites do socialismo, cooperativas estatais e o cultivo de milho e a pecuária rudimentar. Desse modelo emana a óbvia ausência de liberdade e a conseqüente falta de amor, de perspectivas. Impera a brutalidade. As crianças têm no espancamento o mais moderno método pedagógico, os casais pouco se respeitam, o pai da narradora trai, bate e se embriaga. A mulher, sem ter a quem recorrer, busca conforto nas lágrimas, nas suas lágrimas. O amanhã virá, há de vir. E virá. Igual.

O que resta à comunidade? Tudo. Pensando melhor, tudo. O vazio a ser preenchido, tarefa para a qual faz falta a ferramenta mais importante: a liberdade. A rotina triste de uma comunidade, o leão enjaulado, dia sim, dia também, andando de lado para o outro atrás das grades. O que fazer, o que esperar? Comer, dormir, envelhecer, morrer. O socialismo que a todos consegue nivelar com extrema facilidade, basta tirar a liberdade. Pena Herta Müller ter deixado a história tão colorida. Vou reler Saint-Exupéry.

Depressões não chega a ser ruim. Esperando Godot é muito melhor.

Print Friendly
Herta Müller_Depressoes_130

Herta Müller
Trad.: Ingrid Ani Assmann
Globo
162 págs.