Dom Casmurro

agosto 2020 / Dom Casmurro / Taciana Oliveira

Texto publicado na edição #244

Taciana Oliveira

Três poemas de Taciana Oliveira

> Por Taciana Oliveira

O fusca azul do meu pai
cortava a poeira da rua
e eu corria
até perder o fôlego.

Os pés descalços,
a casa sem cor,
minha mãe no circo.

Todos riam do silêncio
e era o início do concreto,
era a noite sem vaga-lumes.

Objetivos específicos

Arrancar os pregos.
Pintar o limo das paredes.
Afogar o desespero no ralo.
Suspender as misérias diárias.
Sufocar o descaso das grandes promessas.
Sobreviver ao cinismo “intelectual”.
Exercitar a paciência em noites sem sexo.
Definir o infinito nos grãos.
Elucidar os princípios básicos da incompetência.
Denunciar o óbvio e o infeliz.
Negociar o incalculável.
Revelar as máscaras de um sorriso débil.
Renunciar as baladas tristes.
Responder sem demora ao pássaro doido
que canta desafinado na janela.
Respirar a largura do vento.
Ironizar bandidos travestidos de poetas.
Mergulhar no pântano solitário da rebeldia.
Amar para não se render ao fácil.
Viver sem morrer todos os dias.

Rima tola

Cada
amor
a seu tempo.

Cada
dor
em seu lugar.

Sem
os remos
o barco é do mar.

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