Palavra por palavra

março 2020 / Palavra por palavra / Surge o neorregionalismo

Texto publicado na edição #239

Surge o neorregionalismo

A interpretação neorregionalista não se restringe apenas aos debates sobre questões de gênero, mas também aos enredos

> Por RAIMUNDO CARRERO

Em longo estudo desenvolvido na Universidade Estadual do Piauí, agora publicado em livro, o professor e crítico literário Herasmo Braga de Oliveira está lançando as bases acadêmicas do Movimento Neorregionalista Brasileiro, “considerando aspectos críticos do Regionalismo de 30, acrescidos da autonomia feminina, deslocamento do espaço, como fator de resistência e memória dos aspectos regionais frente ao processo de globalização em curso”, conforme destaca no prefácio Humberto Hermenegildo de Araújo.

Para tanto são analisadas obras dos escritores Assis Brasil (Tetralogia piauiense), Raimundo Carrero (Sombra severa e Somos pedras que se consomem), Francisco J. C. Dantas (Coivara da memória e Os desvalidos), Milton Hatoum (Relato de um certo Oriente, Cinzas do Norte e Dois irmãos) e Ronaldo Correia de Brito (Galileia), autores que publicaram entre os anos de 1960 e os dias atuais.

A interpretação neorregionalista fundamenta-se em pontos mais abrangentes, mediante a tradição literária brasileira contemporânea, não se restringindo aos debates sobre questões de gênero, mas também aos enredos. A autonomia feminina realiza-se não só no sentido de ser apenas protagonistas, mas, sobretudo, no exercício da posse de si tanto nas questões subjetivas como os sentimentos, desejos, vontades, como na defesa de suas ideias na valorização pela igualdade de ser mulher e a escritura memorialística como resistência.

Na justificativa do estudo, Herasmo Braga lista para refletir sobre o Neorregionaliso os três momentos do Regionalismo, segundo definição de Antonio Candido. O primeiro aconteceu durante o Romantismo — acrescenta — e caracteriza-se pela valorização dos aspectos locais, em que os autores buscavam, por meio desse tipo de descrição, contribuir para a formação da cultura brasileira em um país recém-independente. No segundo momento, o Regionalismo ficou também conhecido como Sertanismo, cuja ideia refere-se ao fato de um país que existe além do litoral e acontece na virada do século 19 para o século 20. Nesse instante, a paisagem e o homem, ante exaltados como virtuosos, passam a ser elementos exóticos de um país não civilizado. No dizer de Antonio Candido, “é uma verdadeira alienação do homem dentro da literatura, uma reificação da sua substância espiritual… para deleite estético do homem da cidade…”. Não é à toa que, neste sentido, a literatura sertaneja deu lugar à pior subliteratura de que há notícia em nossa história. No terceiro momento, o Regionalismo, ou Regionalismo de 30, assume a crítica social, denunciando injustiças e colocando-se ao lado do homem brasileiro. “O terceiro momento caracteriza-se pela tomada de consciência do subdesenvolvimento”, prossegue o estudioso, “passadas as duas primeiras fases do regionalismo e sob a égide do Modernismo, em que os autores gozavam de maturidade literária e de certo prestígio social, o Regionalismo se apresentou como tendência na Literatura Brasileira”.

“Assim, durante os anos de 1930 — considerados a Era do Romance Brasileiro — ele surgiu com mais expressividade. As obras traziam o Nordeste com seus dilemas e seus cenários no cerne dos enredos. Os primeiros a recepcionarem essas obras as consideravam como produções neorrealistas ou mesmo neonaturalistas de prosa regional. Nesse realismo bruto, como menciona Alfredo Bosi, destacaram-se os nomes de Jorge Amado, José Lins do Rego, Erico Verissimo, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz.”

Herasmo Braga prossegue: “É nessa tensão entre o escritor e a sociedade, com seus problemas, que as produções literárias desse período irão se inserir. A união entre o estético e a politização do texto literário será a via norteadora na constituição dos enredos”.

E ainda: “Destacamos, sobre este aspecto, como adverte Antonio Candido, que mesmo bordando as questões sociais em seus enredo, as obras ficcionais não devem ser encaradas como documentos, que refletem diretamente as questões ideológicas ou insatisfações acometidas às injustiças diante dos mais favorecidos. Caso fosse assim, o trabalho estético dessas produções estaria comprometido, já que a linguagem literária deve muito mais sugerir do que afirmar, muito mas divagar do que referenciar”.

Esclarecendo o rumo do Neorregionalismo: “Em relação às características da Literatura Regionalista, em especial a produzida no Nordeste brasileiro, podemos observar que papel geralmente reservado às personagens femininas e a de coadjuvante-subalternas, subservientes à sombra dos personagens masculinos. Restringem-se à condição de esposas, mães, filha ou companheira.

“Diante desses aspectos iniciais, temos como linha condutora para este trabalho analisar a configuração dessa tendência literária que denominamos de Neorregionalismo Brasileiro. Tomaremos como base, para esta configuração, os elementos expostos, como: autonomia feminina, o espaço urbano como cenário predominante e como partícipe da composição das identidades; a escrita memorialística como instrumento de resistência frente à homogeinização da cultura pela globalização.”

O Neorregionalismo destaca a importância dos seus autores para a retomada de uma literatura crítica, em que se destacam o combate às injustiças e a autonomia feminina, como nas minhas novelas A história de Bernarda Soledade e agora de Colégio de freiras, com o deslocamento do espaço, por exemplo.

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