Sob a pele das palavras

julho 2019 / Sob a pele das palavras / Surdina, de Cacaso

Texto publicado na edição #231

Surdina, de Cacaso

A obra poético-musical e ensaística de Cacaso tem sido objeto de crescente e merecido interesse

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora a Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina…
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina…

O poema Surdina, de Cacaso, foi publicado na seção de inéditos do livro Lero-lero, de 2002. Os versos do poeta mineiro-carioca, falecido em 1987, fazem referência a mortes de cinco artistas da sua admiração: o pianista Tenório Jr., desaparecido e morto na Argentina no ano de 1976; a cantora Elis Regina, em 1982, às voltas com depressão e drogas; o “poetinha” Vinicius de Moraes, em 1980, de edema pulmonar; a cantora Clara Nunes, em abril de 1983, de insuficiência cardíaca (após choque anafilático em cirurgia); e a escritora Ana Cristina Cesar, que se suicidou em outubro de 1983. O poema alude ainda a Clementina de Jesus: nascida em 1901, veio a falecer em julho de 1987, aos 86 anos de idade. Poucos meses depois, em dezembro, aos 43 anos, de enfarte, seria a vez de Cacaso, o autor do poema.

Todas essas datas e causas não têm intuito mórbido algum. Elas são necessárias à medida que permitem visualizar certo entorno afetivo do poeta e, mais, entender um pouco do painel político e cultural de uma década de Brasil (1976-87). Ademais, tais números também indiciam possibilidades de leitura: o primeiro verso noticia a perda mais distante (de Tenório Jr., em 1976); o último verso se encerra com a perda mais recente (de Ana Cristina, em outubro de 1983). Entre uma e outra, três perdas de peso em nossa MPB: Vinicius em 1980, Elis em 82 e Clara em 83. Homenageando a longevidade de Clementina, então com 84 anos, com mais idade do que todos os artistas idos (Ana C. com 31 anos; Tenório Jr., 34; Elis, 36; Clara, 40; e o “velho Vina”, com 67 anos), Cacaso invoca o hábito do “Deus te proteja” para aquela a quem muitos chamavam de Mãe.

Surdina se constitui de 25 versos, em redondilha maior e com 13 rimas em “ina”. São rimas alternadas, à exceção dos versos 16 e 17; o verso 17 também é o único com cinco sílabas. Exatamente quando diz “É demais! Que sina!”, externando a forte angústia, é que o verso se revela mais estranho: é o único com cinco sílabas, único com rima emparelhada, único com duas frases exclamativas. O excesso de perdas artísticas expressivas em tão pouco tempo repercute no verso diferente, que quebra expectativas de previsibilidade. Se as muitas rimas (consoantes) em “ina”, repetidas por 13 vezes nos setissílabos, reforçadas por 9 rimas (toantes) em /a/, ecoam a insistente repetição de tantas mortes, o verso 17 — menor, mas contundente — funciona como um desabafo diante de tanta tristeza: “É demais! Que sina!”. Os versos seguintes (“A melhor prata da casa/ o ouro melhor da mina”) explicam algo do título do poema, nas palavras de Luciana di Leone: “A morte possibilita a canonização e cobre de ouro essas figuras, com a condição de lhes colocar em surdina: filtra o timbre e abafa o som, igualando as vozes”. De fato, surdina é uma peça que abafa o som; por extensão, um murmúrio. Trata-se, então, de um poema que fala em tom menor de músicos, artistas, amigos que, de várias formas, se foram num período curto. Considerando que a “morte espreita calada”, o título pode também se referir à ação sorrateira (em surdina), mas inexorável, que nos conduz todos ao fim.

O “primeiro” foi Tenório Jr.: acompanhando ao piano Toquinho e Vinicius em Buenos Aires, sai do hotel para um lanche, e jamais retorna. Após anos de incertezas e desinformações, aos poucos a verdade veio à tona: Tenorinho foi torturado e morto pela polícia da Argentina, já em clima altamente repressivo em vésperas do golpe do general Rafael Videla. Cacaso testemunhou, como professor de teoria literária na PUC do Rio, de 1965 a 1975, os “negros verdes anos” da ditadura militar brasileira, que censurou, reprimiu, exilou, torturou e matou milhares de cidadãos, que resistiram e/ou se opuseram ao regime. O excelente Grupo escolar, de 1974, em especial a seção Dever de caça, desenha o triste e terrível painel de então (ver estudos de Débora Racy Soares e Nelson Martinelli).

Foi pela manhã (“quando perigava/ onze e meia da matina”) que a notícia da morte de Elis Regina se tornou pública. A despeito de polêmicas, que muitas vezes envolvem os óbitos de pessoas famosas, a excepcional cantora foi mesmo vítima de uma overdose de cocaína, informação que Cacaso não se vexa de registrar: “um frio de cocaína!”. Assim, Elis se juntava à galeria de astros que tiveram destino semelhante: Hendrix, Janis, Morrison… Os versos 9 a 12 dedicam considerações à onipresença da morte, que “espreita calada”; mais à frente (v. 22 e 23), o poder de tânatos se confirma: “Lá vai a morte afinando/ o coro que desafina…”, ou seja, a morte reúne e harmoniza (afina) mesmo aqueles cujos ofícios — ofícios de arte — têm em mira desafinar o coro dos contentes, o coro do senso comum, do comportamento insosso. Contra isso, contra “quem já passou por essa vida e não viveu”, o “velho Vina” se fez com intensidade “religioso e ateu, conservador e socialista, erudito e popular, cerimonioso e irreverente, diplomata e boêmio”, para usar adjetivos de Alcides Villaça em Da fidelidade aos sonetos.

A voracidade da indesejada das gentes avança e arrebata, surpreendentemente, no auge da carreira a sambista Clara Nunes, aos 40 anos, “que morre ainda menina”. Depois de Tenorinho, Elis e Vina, essa quarta morte atordoa o poeta, e seu verso recebe a dor do impacto, e o que era redondilha maior vira menor: “É demais! Que sina!”. Daí, decide apelar à força divina (“Que Deus proteja de perto”) para que enfrente a onívora morte e tenha clemência da mãe Clementina — naquele momento do poema, a única sobrevivente. No entanto, o poeta entende que a morte não espreita à toa nem se rende a apelo algum: é de seu jaez, de que forma for, levar a todos. Os dois versos finais insinuam essa consciência agônica: “Se desse tempo eu falava/ do salto da Ana Cristina…” — como sabia Brás Cubas, o tempo é ministro da morte, não há quem lhe escape. As reticências que encerram o poema confirmam que, mesmo encerrado o poema, tempo e morte continuarão agindo, para além deste e de qualquer poema, em seu trabalho incessante de impor a cada um de nós a finitude. Possivelmente, o gesto suicida de Ana Cristina Cesar carregue algo desse desafio, dessa coragem que é encenar o livre-arbítrio.

A obra poético-musical e ensaística de Cacaso tem sido objeto de crescente e merecido interesse, para além dos banalizados estilemas marginais. Em Mar de mineiro, de 1982, o letrista de Lero-lero publicou Já já: “Se a morte é mesmo certa/ que seja também pra já/ mas antes quero ouvir na laranjeira, à tarde/ cantar o sabiá/// Se vier na flor dos anos/ pois então que venha já/ mas antes quero as três mil mulheres maravilhas/ do sabonete araxá/// A flor da idade floresce? que venha a morte já já/ mas que tenha, tomara, o mesmo perfume/ da flor do maracujá/// Bem-vinda bem vinda a morte/ que a morte venha já já”. Neste poema, como em tantos outros, o poeta e professor Cacaso cita a mancheias. Importa, contudo, perceber que o tom tranquilo de Surdina tem em Já já uma espécie de antepassado. Pouco depois de Mar de mineiro, comporia Surdina, em que faz um tributo a artistas como ele. Como eles, Cacaso se foi, em 1987, aos 43 anos de idade, na flor da idade.

Para a morte, quem sabe Cacaso tenha dito, em setissílabo: “tico-tico de rapina”. Para o poeta, no entanto,/ a gente bem que imagina/ alguma coisa bacana/ que faça jus a Surdina./ Mas o melhor que pudemos/ foi este ensaio que ensina/ a não temermos a morte/ — danada que nunca fina.

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