Dom Casmurro

julho 2019 / Dom Casmurro / Supremacia branca

Texto publicado na edição #231

Supremacia branca

Conto inédito de Íris Querubim

> Por Íris Querubim

Ilustração: FP. Rodrigues

Ilustração: FP. Rodrigues

“Íris! Dá uma passada lá no Leme, 1049. É pra já!”

Seu Teixeira sempre aos gritos. Nunca pede nada. Só manda. Já devia estar acostumada, a essa altura, mas a verdade é que não me conformo. Dai-me paciência, Senhor! Longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade. Gálatas 5:22.

“O que foi que o senhor disse, seu Teixeira?”

“Cardeal Leme, sala 1049! Você está ficando surda, ou precisa que eu desenhe um mapa?”

“Não, senhor. É que limpei essa sala hoje de manhã.”

“E vai limpar de novo. Rolou um incidente.”

Sujeitinho desagradável. Pensa que é alguém só porque é chefe de uma equipe de faxina. Ainda por cima, terceirizada. Nem meio-dia e já fedendo a cachaça.

“Sim, senhor. Já estou indo.”

“Anda logo, então.”

Um incidente. O que será que aconteceu? Seu Teixeira não é de usar palavras como incidente. Costuma ser mais bruto, chegado a uma baixeza. “Alguém vomitou no banheiro. O chão tá todo cagado.” Mais o feitio dele. Um incidente… isso é o tipo de expressão que a irmã Cleide, do grupo das missionárias, usaria. “Houve um incidente com a esposa do pastor, irmã.” Como ela adora essa palavra! Toda hora, fala. Parece que tem uns dois ou três os a mais em sua boca: espooosa. Talvez seja só comigo, para reforçar que não tenho marido. Seria bem a cara sonsa dela. Livrai-me da maledicência, Pai, e também da ira, cólera, malícia, de todas as palavras torpes da minha boca. Colossenses 3:8. Em nome de Jesus.

Vou lá eu subir outra vez naquele Leme. Com aqueles elevadores que não chegam nunca. E quase no meu horário de almoço. Depois não adianta dizer que foi ele mesmo que mandou. Seu Teixeira não quer nem saber. Perdeu o horário, dane-se! Fica sem almoço. Mas, pelo menos, é uma desculpa para sair desse bendito contêiner. Que calor aqui dentro! Demoraram uma vida para botar ar-condicionado, e mesmo assim só na salinha do seu Teixeira. O resto de nós pode ficar suando. Acho que é sina de gente preta. Sacoleja na lata quente do ônibus, vem assar no forno quente do trabalho e, no fim do dia, volta para o caixote quente do barraco para dormir. Seu Nelson, quando eu trabalhava na casa dele, dizia que isso é resquício do escravagismo. Que, no Brasil, lugar de preto é na senzala. Saudade do seu Nelson. A casa dele era tão fresquinha. Batia uma brisa do mar que era uma beleza.

Que dia lindo está fazendo hoje! Nem está calor aqui fora. Seria um dia perfeito para passear naquele jardim de plantas bíblicas que o padre fez. Sei que o pastor Hélcio diz que padre nenhum presta, que é tudo lobo em pele de cordeiro, falsos apóstolos, traidores da palavra. Mas não dá para acreditar que alguém que faz um jardim de plantas bíblicas não é do Senhor. É o que eu mais gosto de trabalhar aqui: as plantas. Que lugar bonito! Até chamam de campos da PUC, e é mesmo. Lembra a roça, só que mais arrumado. Tem umas bromélias lindas, lá para o lado da capela, com as flores roxas em tubinho e uma pontinha amarela para fora, que nem tinha em Miracema quando eu era criança. Eu era encantada com elas. Meu pai dizia, “essa menina só quer saber de flor e planta!”. Coitado do meu pai. Deixa de ficar sonhando, Íris! Hoje, não tem tempo para jardim bíblico. Tem que ir direto lá no Leme e resolver o incidente do seu Teixeira.

O que não posso daqui é a falta de vergonha das meninas. Olha só essas daí, tudo com a barriga de fora e os peitos marcando a blusa. Pudera que os homens ficam tudo maluco. Muito assanhadas. Não gosto nem de reparar muito. Depois, não custa uma delas perguntar o que estou olhando. Desbocadas que só! O caminho da gente aqui é olhando pro chão. Foi a primeira coisa que a Sandra me ensinou, e ela estava certa. “Preta de uniforme da limpeza é que nem pum em elevador de rico. Incomoda, mas todo mundo finge que não tá vendo.” Até hoje, tenho que rir quando me lembro disso. Deus que me perdoe. Muito comédia, a Sandra. Olha a dona Gleidis ali, varrendo atrás do quiosque.

“Bom dia, dona Gleidis.”

“Bom dia, Íris. A paz do Senhor.”

“Amém. O que a senhora tá varrendo aí?”

“Alguém derramou uma coisa aqui, e tá toda grudada. Acho que foi refrigerante. Não tô conseguindo tirar com a vassoura.”

“Deixa que eu arrumo isso pra senhora. Tenho só que subir ali no décimo andar, que o seu Teixeira mandou. Depois do almoço, passo aqui e dou um jeito nisso.”

“Ai, Íris, você foi enviada por Deus mesmo!”

“Que isso, dona Gleidis! Sou uma serva do Senhor. Que nem a senhora, né! Irmã ajuda irmã.”

“Amém.”

Será que ela vai ficar aí sorrindo para mim e não vai falar nada? Não me diga que esqueceu, de novo!

Dona Gleidis, deixa eu perguntar pra senhora… a senhora lembrou por acaso de trazer aquele CD de louvor?”

Estou vendo pela cara dela que não trouxe. Vai inventar outra desculpa.

“Ih, Íris, você não sabe da maior! Pedi pra minha vizinha, que estava com ele emprestado, e ela não sabe se deixou na igreja. Vai ver se acha. Se ela achar, amanhã eu trago.”

“Ah, traz sim, dona Gleidis, por favor. A gente tá precisando para o coral das mulheres.”

“Pode deixar! Vou ver isso, sem falta.”

“Obrigada, dona Gleidis. E pode deixar que depois passo aqui para arrumar isso.”

“Você é uma bênção.”

“Sou uma serva.”

“Glória a Deus!”

Essa dona Gleidis é uma falsa. Promete e depois não cumpre. Já não é a primeira nem a segunda vez que ela fura comigo. A gente dá um desconto, porque é uma mulher de Deus, mas tudo tem limite. Não é porque é crente que a pessoa é boa. A verdade é essa. Infelizmente. Também se não trouxer amanhã, nunca mais limpo a sujeira dela. Ela que esfregue o chão melecado. Tudo tem limite. A palavra diz que não se pode entristecer o coração do justo com falsidade. Ezequiel 13:22.

O elevador parado aí no térreo, bem na hora que estou chegando. Deus seja louvado! Quem é esse moço? Pela roupa suja de tinta, deve trabalhar na obra. Ih, ele não me viu! A porta está fechando. Se subir até o décimo, vão ser quinze minutos até descer de novo.

“Ei! Segura esse elevador aí! Ei, moço!”

Ai, que bom, ele me ouviu! Glória a Deus! Vou dar aquela corridinha, mas de mentira para poupar meu joelho. Olha só que homem maravilhoso. Capricha no sorriso, Íris!

“Obrigado, irmão.”

“Qual andar da senhora?”

“Décimo.”

Poxa, ele me tratou de senhora. Sei que sou meio cascuda, mas ele deve ter a mesma idade que eu, ou até mais. Nem olhou para mim. Deve gostar de menina novinha. Que nem todos eles. Pena. Um diamante negro, desses. Olha o tamanho da mão dele. Gosto de uma mão de homem assim, calejada, forte. As veias bem saltadas no braço. Lembra meu pai. Mamãe dizia que ele trabalhou na estiva quando era novo, antes de ser aposentado por invalidez. Vou me ajeitar aqui, como posso, mas a carcaça não ajuda. Barriga para dentro, peito para fora. Ver se ele repara em mim. Será que falo alguma coisa? Podia perguntar se ele é da obra. Sei lá, dar uma brecha. Vai que ele é tímido. Droga, parou no terceiro. Ele já vai descer.

“Bom dia pra senhora. Fique na paz do Senhor.”

“Amém. Bom dia para o senhor também.”

Crente, ainda por cima! Que perfeição! Só falta ele ser casado e ter uma penca de filhos. Deve ser. Deus não dá nozes a quem não tem dentes.

  1. Pelo horário, deve estar tendo aula lá. Será que é aquele professor lourinho, com cara de bebê? Gosto dele. Ele sempre me chama de dona Íris. Acho que é um dos únicos que sabe o nome da gente. Deve ser porque ele é professor de educação. Eles são os mais educados. Gente, o que é isso? Esse povo todo amontoado do lado de fora da sala? É um incidente mesmo. Não é que seu Teixeira estava certo? Primeira vez para tudo. Nunca vi isso! Não dá nem para saber se estão querendo entrar ou sair da sala. E quanta gritaria! Vai ver o incidente está rolando ainda. O que será? Vou apertar o passo para ver. Não, melhor não. Sei lá se vai sobrar para mim. É, mas também não dá para voltar sem nem ver o que é, né, Íris? Seu Teixeira me esculacha. Que confusão é essa? Bando de gente fotografando com o celular. Será que mataram alguém dentro da sala de aula?

“Com licença, gente. Gente, com licença!”

“Deixa a senhora passar.”

“É a faxineira.”

“Alguém chamou a faxina.”

“Típico! Querem apagar as provas.”

“Com licença, gente! Deixa eu passar!”

Finalmente. Olha lá o professor lourinho. Ele mesmo. E está com aquela professora preta metidinha. Desculpe, negra. Estão berrando com aquela outra professora. Acho que é Célia o nome dela. Mas ela não é chefe deles? Não estou entendendo mais nada. É muita zoeira. Não dá nem para ouvir o que eles estão dizendo. Não vai apagar o quê? Aquilo, no quadro. O quê? “Esses pretos fedidos vão morrer. Fora negros e bolsistas. Agora é B17.” O barulho diminuiu, ou sou eu? Só estou ouvindo o sangue batendo estaca na minha cabeça. O professor lourinho parou de brigar e está olhando para mim com uma cara tão triste. Não sei por quê, mas está me dando até vontade de chorar. Meu coração disparou dentro do peito agora. Senhor Deus Pai, em nome de Jesus. Não posso chorar em frente desse povo.

“Quem mandou chamar a faxina? Ninguém vai apagar isso. Não antes da polícia chegar e documentar tudo direitinho.”

É a professora metidinha. Não, não era impressão minha. O bate-boca diminuiu mesmo, e está todo mundo olhando na minha direção. Que vergonha, gente! Logo para mim, que ninguém nunca olha. Olha para ela, pessoal! Ela também é preta. O que será que ela está cochichando com o professor lourinho?

“É isso aí, dona Íris, é isso mesmo que a senhora está vendo.”

Com certeza, estava perguntando meu nome para ele. Nunca que ela ia lembrar que me chamo Íris.

“Algum racista escreveu essa injúria aqui no quadro, e nós vamos esperar a polícia chegar para averiguar as provas. Isso é crime, e a gente vai dar queixa.”

“Pelamordedeus, Lucimar! Já está mais que documentado. Tem pra lá de cinquenta testemunhas aqui. Todo mundo fotografou com o celular.”

“Estamos filmando também!”

“É isso aí! Vamos filmar tudo.”

“Não apaga! Não apaga! Não apaga!”

Pronto! A gritaria começou de novo. Pelo menos, pararam de olhar para mim. Acho que vou aproveitar para dar o fora. E se falarem para o seu Teixeira que não fiz o serviço? Melhor ficar até alguém me dispensar. Xiii! O professor lourinho está vindo na minha direção. Com aquela cara triste. Não vou aguentar esses olhinhos de cachorro que tomou esporro. Vou acabar chorando também.

“Tudo bem, dona Íris? Quer dizer… não tem nada bem… desculpa. Não quis dizer…”

“Tudo bem, professor. A gente tá acostumado.”

Ih, ele está com jeito de que vai tentar me abraçar. Deus me livre! Vou sair de perto. Se eu ganhar abraço de cachorrinho, aí é que vou chorar até depois de amanhã. Cadê o balde e a vassoura na hora que a gente precisa deles?

“Professor, vou indo, então. Posso dizer que o senhor me dispensou?”

“Claro, dona Íris, claro! Não tinham nada que ter chamado a senhora. A gente vai resolver isso aqui. Vai lá, que deve estar quase no seu horário de almoço.”

Esse professor lourinho é demais! Até do horário de almoço, ele lembrou.

“Obrigada, professor. Ah, professor, posso perguntar uma coisa? Nunca soube seu nome.”

“Antônio.”

“Professor Antônio. Não vou esquecer.”

Agora, na saída, todo mundo abre alas. Daria até para me sentir importante se eu não estivesse com tanta vergonha. Pretos fedidos. É isso que eles pensam realmente de nós. Engraçado… já ouvi tanto xingamento pior. Nem me afeta mais. Mas, dessa vez, aquela dorzinha no fundo da barriga não está querendo passar. Perdi até a fome. Está aí um bom jeito de emagrecer. Vou escrever preta fedida num papel e olhar para ele toda vez que sentir fome. A palavra corta, gente. Que nem aquela minha faca que as meninas do coral chamam de palavra de Deus, porque ela é tão afiada que separa as juntas das medulas e o espírito da alma. Hebreus 4:12. Amém, Senhor. Às vezes, fico limpando carne com aquela faca. Vou só deslizando a pontinha mais afiada pela membrana que gruda no músculo e consigo tirar a pelanca inteirinha, sem nem rasgar. Sobe um cheiro gostoso de sangue que chega a dar água na boca. Meu pai sonhou que eu ia ser cirurgiã. Queria tanto que a gente estudasse. Por isso, me ensinou a ler e escrever quando eu tinha cinco anos. Ficávamos horas, só nós dois, no meio daquele monte de livros que ele tinha no quartinho dos fundos. Como ele gostava de ler! Pena que Mamãe deu tudo depois que ele morreu.

“Íris, venha cá, por favor!”

Caraca! A voz da professora Célia, com aquele tom de quem sabe mandar. Gelei. Bem na hora que estava quase fora do perigo.

“Senhora?”

“Mandei chamar você para fazer um serviço. Pega o material que precisa e faz favor de limpar o quadro.”

“O professor Antônio disse que eu estava dispensada.”

“O professor Antônio não apita aqui.”

O pessoal começa a vaiar. O professor lourinho ficou todo vermelho, mas calado, sem reação. A professora metidinha está gritando, de novo.

“Célia, você é uma escrota!”

Não adianta nada. Estou vendo que não tem ninguém ali com pulso para enfrentar ela. O jeito é voltar e terminar o serviço. Faço que sim com a cabeça e baixo os olhos. Faço sinal de que vou só encher um balde e catar um pano de chão. Ela consente. Na saída, ainda consigo ouvir as duas batendo boca.

“Professora Lucimar, você vai tomar uma advertência!”

“Tô cagando pra sua advertência! Você é sádica, como todo fascista!”

Vou me afastando mais rápido pelo corredor. Conheço bem essa palavra, fascista, mas faz anos que não ouvia ninguém falar em voz alta. Meu pai e os amigos dele usavam ela muito quando se reuniam à noite lá no quartinho. Não era para eu saber que eles se reuniam, mas eu sabia. Eu sabia tudo. Eles todos faziam parte de um movimento. Foi por isso que sumiram com meu pai. Ainda vi quando atiraram no tio Benício pelas costas porque ele estava tentando fugir. Depois que os soldados levaram todo mundo embora, tive que ajudar Mamãe a limpar o sangue do cimentado. Foi minha primeira faxina. A gente esfregava, esfregava, mas a mancha não saía. Mancha de sangue é foda. Deus que me perdoe, mas não consigo pensar em outra palavra melhor.

Íris Querubim
Mora no Rio de Janeiro (RJ). O conto Supremacia branca é seu primeiro texto de ficção publicado.

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