Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Subproduto de Kafka

Texto publicado na edição #131

Subproduto de Kafka

            Quando foi que começou? Dessa forma, Marie Ndiaye dá início ao longo e repetitivo […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Marie Ndiaye, autora de Coração apertado

 

 

 

 

 

 

Quando foi que começou?

Dessa forma, Marie Ndiaye dá início ao longo e repetitivo Coração apertado, romance narrado em 38 capítulos.

Estranheza é a primeira impressão causada por essa frase. Estranheza que logo se transformará em cansaço e persistirá por toda a narrativa, mais uma a aumentar a lista de subprodutos de Kafka. Ao leitor caberá classificar Coração apertado como uma fábula moderna, que trata de dois seres que, vivendo em determinado universo, não fazem a menor questão de pertencerem a ele.

Um casal de professores, Ange e Nadia, vive em Bordeaux, onde ambos lecionam. De repente, sem motivo aparente, são rejeitados por vizinhos e colegas, seus alunos passam a sentir medo deles, e os outros professores lhes lançam olhares de desconfiança. São acusados até por familiares: seria deles a responsabilidade pelas frustrações de todos. Na rua, percebem olhares desviados, e a hostilidade chega a seu ápice quando Ange é ferido na barriga.

— Não vai conseguir curá-lo. É inútil. Não se pode fazer mais nada. Esse cheiro, entende? É o cheiro da morte.

— Quem é o senhor? — sussurro.

— Sou o ilustre Noget — ele diz, sarcástico. — Não foi assim que lhe falaram de mim? A senhora é a única, na sua pureza, a não me conhecer.

Ange e Nádia vivem num modesto apartamento. Sua dedicação ao magistério fez com que negligenciassem tudo o mais. Da vida social à familiar.

Nós dois amamos a escola com uma paixão que só pode ser compreendida por um pequeno número de nossos pares. (…) Penso, sem convicção, que talvez aí resida a causa da antipatia brutal que inspiramos, o Ange e eu, a nossos alunos, a seus pais, à diretora, a nossos vizinhos. Faltou-nos humildade. Querendo agir bem, acabamos nos cegando. Mas será que isso é um erro tão grande?

Restará ao casal a solidariedade de um vizinho, até então desprezado, invisível, Richar Victor Noget. Caberá a esse homem enigmático zelar pelo que resta de saúde a Ange. Noget toma para si a responsabilidade de alimentar o casal, e uma profusão de comida gordurosa torna Nadia cada vez mais gorda. O vizinho passa a ser o responsável pela sobrevivência principalmente de Ange, que, com sua ferida fétida, não sai mais da cama. Noget é um famoso professor, conhecido por todos, menos pelo casal. Eles não têm o hábito de assistir à tevê, e desconhecem aquilo que a maioria venera. São os diferentes.

Em Coração apertado, tudo, da rejeição dos colegas ao medo dos alunos, passando pela agressão sofrida por Ange, pode resultar de uma paranóia. Mesmo a ferida do professor, quem garante que não tenha sido obra dele mesmo? O mundo conspira contra o casal ou tudo não passa de delírio?

Marie NDiaye é cuidadosa, delicada ao escrever. Não apresenta grandes malabarismos estilísticos, embora isso, escrever de forma clara, não seja mais que a obrigação de todo escritor. O começo de Coração apertado é bastante realista, com sua “quase ação” transcorrendo num clima de angústia e desconcerto. Até aí tudo bem. Mas o ritmo da narrativa não tardará a lembrar um folhetim, e ainda sobrará espaço para a aparição do fantástico. Parece que a intenção da autora foi criar um thriller, mas a ideia não fluiu, apesar de sua matéria-prima, a violência sofrida pelo casal e sua incapacidade para compreender o que houve.

Coração apertado abre com uma frase estranha para um começo de livro, e fecha deixando o leitor com a certeza de que muitas frases, estranhas ou não, foram esquecidas por Marie Ndiaye.

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Marie Ndiaye
Trad.: Paulo Neves
Cosac Naify
272 págs.