Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / Sua imagem no espelho te reflete?

Texto publicado na edição #157

Sua imagem no espelho te reflete?

“Perto do aeroporto da cidade vive um homem que apesar de ser um homem imóvel — em outras palavras um […]

> Por RAFAEL DYXKLAY

“Perto do aeroporto da cidade vive um homem que apesar de ser um homem imóvel — em outras palavras um homem impedido de se mover…”

Como pode um “romance” de 22 laudas começar assim? Repetindo a palavra “homem” três vezes antes do fim da primeira frase e cometendo a redundância de dizer que um homem imóvel é impedido de se mover. E como pode uma edição estender essas mesmas 22 laudas a um livro de 128 páginas? Como pode um exemplar dessa dimensão conter 62 páginas em branco?

Não há capa no livro. Os oito finos cadernos que o compõe ficam à mostra, a cola quente e as costuras à mercê de dedos inquietos. Só as páginas à esquerda possuem texto. Um parágrafo exato. Nem mais nem menos do que isso. Em uma caixa de texto branca de invariavelmente 12 x 11 centímetros. O tamanho das fontes nunca se repete. A cor é roxa, como as páginas vazias. Só as pares tem numeração. O romance se inicia na página dois. No verso daquela que seria sua capa. Não há dedicatórias ou epígrafes.

Mas Mario Bellatin é autor que, dentre outras coisas que o definiriam menos ainda, certa vez, realizou um evento em que dezenas de dublês estudaram com afinco as opiniões, trejeitos e excentricidades dos mais conhecidos autores mexicanos para simulá-los em entrevistas, noites de autógrafo e festas exclusivas.

Econômico e redundante
No livro, um dos melhores treinadores de pastores belgas malinois do mundo não move sequer o pescoço e fala de maneira quase incompreensível. Sua mãe e sua irmã, na mesma casa, trabalham catalogando sacolas de plástico vazias cujo destino desconhecem. Um enfermeiro-treinador que dorme junto ao homem imóvel é mantido sob a ameaça de que os cães sejam mortos, se partir. Periodicamente, alguns deles são vendidos.

No quarto em que o homem se isola, há imagens de naves espaciais e cabeças de cachorros recortadas (por vezes coladas umas às outras), aves de diferentes espécies, um livro com fotos de alguns dos melhores pastores belgas malinois do mundo e um mapa da América Latina repleto de marcações dos melhores lugares para se criar os cães da raça. “Para certos visitantes”, acrescenta mais adiante, “a presença desse mapa os leva a pensar no futuro do continente”.

O estilo econômico e ao mesmo tempo redundante, entre um manual e um livro sagrado, quase sem conectivos ou encadeamentos lógicos de grande extensão, permite que a fragmentação seja levada a extremos de modo imperceptível. Você vira a página após ler, por vezes, um parágrafo de menos de sete linhas, e em seguida não sabe como foi conduzido a um momento distinto do romance.

A impressão que se tem é que, de fato, há um romance inteiro ali, recortado e embaralhado até as últimas conseqüências, mas ainda presente nos espaços vazios, ainda duradouro nos segundos em que se vira uma página. É impossível ignorar que se perca contato visual com texto de minuto em minuto. E não é exagero dizer que toda essa perda se acumula e toma forma.

Teoria da conspiração
Por mais conciso que seja, no entanto, o pequeno livro não se estende a ponto de desenvolver um enredo, mas somente narrar breves acontecimentos e apresentar o cotidiano da casa.

O autor afirma que o livro é um relato fidedigno de algo que realmente presenciou.

No fim, os moradores entram em colapso e mãe e irmã terminam por colocar sacolas plásticas na cabeça para depois saírem vagando a esmo.

Mas o enredo principal só se insinua a partir de uma teoria da conspiração que o próprio leitor é levado a criar, sem que a estrutura narrativa jamais se comprometa a confirmá-la.

Na página 110, o homem imóvel, na “instituição”, conhece um menino de seis anos que escreveu um livro chamado “Cães heróis” (o próprio Bellatin) e pede uma máquina de escrever. Na página 16, o homem explica que vende os cães para que o sangue novo possibilite o “avanço da espécie necessário”. Página 40: o homem pede que o aprendiz recorte cabeças de cachorro e as cole em naves espaciais igualmente recortadas. Página 32: liga para uma central de informação perguntando quantos cães cabem em uma nave espacial. Não tem resposta. Página 64: vê o mapa com os melhores lugares da América latina para a criação de seus cães. Página 44: quem olha para o mapa tem a sensação de estar diante do futuro do continente…

Muitos elementos nos levam a desconfiar de que este homem possa estar tramando uma absurda dominação de larga escala com os cães. Algo cuja única coisa que falta para se tornar uma interpretação é uma motivação lógica e uma correspondência com parâmetros reais. Ausências nem um pouco ignoráveis, como também não é ignorável que um livro seja desprovido de capa. As primeiras palavras do livro são, afinal, “Perto do aeroporto”.

De todo modo, algo ainda não ficou esclarecido: relato fidedigno de algo real? Tive de perguntar ao autor, só para começar, se, então, a mãe e a irmã do tal homem realmente tinham colocado sacolas na cabeça. Ao que ele muito gentilmente me explicou: “Nunca afirmei isso. Vejo que neste caso funcionou a cumplicidade do leitor de ir além do que está escrito”. Vá lá¹!

Nota
[1] “Entretanto, e em virtude dos acontecimentos, no andar de baixo a mãe e a irmã cobriam suas cabeças com um par de sacolas.“ (BELLATIN, Mario – Cães heróis – Cosac Naify, São Paulo, 2011, página 122.)

LEIA ENTREVISTA COM MARIO BELLATIN.

 

Print Friendly

Mario Bellatin

Mario Bellatin_por Gabriela Leon_157

Nasceu no México, em 1960, mas viveu grande parte da vida em Lima, Peru. Entre seus principais livros estão Canon perpetuo (1993), Salón de belleza (1994, lançado no Brasil pela editora Leitura XXI em 2007) e El jardin de la señora Murakami (2000). No México, o autor dirige uma escola de escritores, a Escuela Dinamica de Escritores, onde a principal lição é não escrever. Mario Bellatin tem 18 livros publicados e já foi traduzido em países como França, Itália, Alemanha e Portugal.

Mario_Bellatin_caes_herois_157

Mario Bellatin
Trad.: Joca Wolff
Cosac Naify
128 págs.