Ensaios e Resenhas

agosto 2013 / Ensaios e Resenhas / Sopro da alma

Texto publicado na edição #160

Sopro da alma

  George Bernard Shaw já disse que os espelhos podem refletir o rosto, mas é a arte que reflete a […]

> Por PAULA CAJATY

Desenho de Max Blecher (Arquivo do Institutul pentru Cercetarea Avangardei Romaneti i Europene/ Editora Vinea)

Desenho de Max Blecher (Arquivo do Institutul pentru Cercetarea Avangardei Romaneti i Europene/ Editora Vinea)

 

George Bernard Shaw já disse que os espelhos podem refletir o rosto, mas é a arte que reflete a alma. Pitágoras, muito antes dele, confirmava que as palavras são os suspiros da alma. No entanto, Max Blecher acusa as palavras cotidianas de não terem “valor em determinadas profundezas da alma”, espaço em que ocorreria uma espécie de impossibilidade de expressão. E continua sua tese:

Tento definir com exatidão as minhas crises, mas só encontro imagens. A palavra mágica que vier a exprimi-las deverá tomar algo emprestado das essências de outras sensibilidades da vida, destilando-se delas como uma nova fragrância criada a partir de uma sábia composição de perfumes.

Para existir, ela deverá incluir algo da estupefação que me toma quando observo uma pessoa na realidade e depois acompanho com atenção seus gestos no espelho; algo do desequilíbrio das quedas num sonho, com seu sibilo de pavor que percorre a espinha dorsal num momento inesquecível; ou algo da névoa e da transparência habitadas por bizarros elementos decorativos em bolas de cristal.

Com esse trecho inicial, compreende-se que os Acontecimentos na irrealidade imediata de Max Blecher são exatamente os suspiros de uma arte que espelha sua alma, sem subterfúgios, sem truques de magia. Sua formação essencialmente poética, sua constituição física frágil e sua personalidade sensível se revelam neste livro autobiográfico intenso na inquietude e estranheza de seu cotidiano, na atmosfera ao mesmo tempo vazia de sentidos e repleta de significados.

Deslocamentos
Há certa lembrança com a figura, a história e a estética literária escolhida por Álvares de Azevedo, autor da Lira dos vinte anos, muito embora a temática deste fosse mais voltada para a ode à musa. Sentimental e romântico, o poeta brasileiro morreu aos vinte anos de tuberculose pulmonar, em 1852. Por sua vez, Max Blecher nasceu em 1909, tendo descoberto uma doença rara — o mal de Pott, tuberculose que afeta a coluna vertebral — que o levou à morte precocemente, aos trinta anos, pouco depois de ter concluído a novela Acontecimentos na irrealidade imediata.

Poeta, escritor e desenhista, Blecher ficou internado em diversos sanatórios na França, Suíça, Transilvânia e Romênia, onde também se encontravam internados outros escritores e poetas, responsáveis por iniciá-lo na leitura das obras do Romantismo e Surrealismo de grandes escritores do final do século 19 e início do século 20.

Aliás, exatamente a força e o lirismo de Acontecimentos foram responsáveis pelo reconhecimento da crítica e pela perpetuação de seu trabalho literário em diversos países, bem como pela criação de site que oferece gratuitamente a tradução para o inglês de seu romance.

No livro, o narrador inicia seus relatos com aproximadamente doze anos. Ele não tem nome e não identifica sua cidade, mas fala em primeira pessoa revelando as crises ou ataques de sua infância — algo semelhante a epilepsia —, assim como sua sofrida transição para o mundo adulto, entre doenças e experiências viscerais com o sexo e a morte.

As tais “crises de irrealidade” ocorrem quando o narrador, ainda bem jovem, experimenta rupturas entre o mundo exterior, repleto de imagens e objetos, e seu interior sombrio e inquisidor, em uma evidente demonstração dos primeiros sinais de puberdade. Com o passar dos anos, as crises diminuem, mas ele continua sentindo uma espécie de deslocamento do mundo, um profundo isolamento social e põe-se em situações de risco que lhe propiciam graves períodos de doença com delírios febris.

O personagem de Blecher observa tudo com riqueza de detalhes, atravessa os anos de modo melancólico e amargo, como se sua própria vida não fosse sua. Uma espécie de onipresença assombrosa, assustadora e terrivelmente bela. Talvez a precisão de detalhes e o sentimento de não-pertencimento ao mundo, bem como sua dissociação com a realidade, fossem alguns dos efeitos próprios da doença, cujos períodos de febre eram capazes de gerar sentimentos conflitantes e revoltosos, assim como um tipo de realidade aumentada, uma claridade incomum sobre o mundo material que o cercava. Talvez a irreversibilidade da doença e a descrença em um mundo inocente, puro e bom estivessem na raiz das tendências de autoflagelo e de natureza suicida que rondavam sua obra.

Obsessão
Para além do ambiente fascinante e ao mesmo tempo aterrador que cerca o personagem central, sobressaem as belas descrições da paisagem romena e do ambiente da cidade de Bucareste, especialmente os espaços internos que o narrador freqüenta: a loja de máquinas de costura de Eugênio e Clara, a adega abandonada que visitara com Walter, a sala de cinema B., o panopticum (uma carroça ambulante de diversões, típica da Europa oriental, que trazia ilusionistas, criaturas raras, levantadores de peso e figuras de cera), a quermesse de agosto com seus cosmoramas e barracas de fotógrafos lambe-lambes, a casa de seu avô e os Weber, uma família de comerciantes que trabalhava e morava no mesmo local.

Tudo se torna ainda mais sombrio após a chegada da luminosa Edda, esposa de Paul Weber, um reconhecido namorador. E é por ela que o narrador se apaixona, com requintes de obsessão:

Eu compunha os detalhes de cenas imaginárias com a mais detalhada exatidão. Via-me em quartos de hotel, com Edda deitada ao meu lado, enquanto a luz do ocaso entrava pela janela, filtrada por espessas cortinas cuja sombra fina se desenhava porosa sobre o rosto adormecido de Edda. (…) Tudo isso produzia em mim um gosto bastante amargo…

Com tal paixão, o narrador passa a ter atitudes tresloucadas e teatrais, como seguir mulheres, ajoelhar-se por horas em frente a janelas e refugiar-se no subsolo, por baixo do palco do teatro — “longe do mundo, longe das ruas quentes e exasperantes, numa cela fresca e secreta, no fundo da terra” —, chegando ao ápice de remexer o fundo das gavetas de casa em busca de veneno para pôr fim à sua existência. Blecher escreve sua irrealidade por desejar ardentemente que sua realidade fosse outra.

Horror e beleza
Na narrativa, não é apenas seu corpo que pede a morte: através das lentes macro pelas quais Max mira o início incipiente do século 20, na década que prenuncia o início da 2ª Guerra Mundial, o personagem exibe a morte das certezas, da esperança, a morte do seu mundo conhecido, a desolação de ver-se único e limitado por uma materialidade cruel e a vontade rebelde e insana de que sua vida pudesse ser outra, de que estivesse apenas adormecido, atormentado e preso em um sonho aterrador:

Debato-me agora na realidade, grito, imploro para que me acordem, para que me acordem numa outra vida, na minha vida verdadeira. Com certeza estou em pleno dia, sei onde me encontro e que estou vivo, mas algo falta nisso tudo, assim como no meu espantoso pesadelo.

Com a falta de esperança na própria vida, apesar de tanta beleza; com a falta de esperança em um mundo que reconhece ser “mesquinhamente árido”, apesar de tanto amor por tudo aquilo que não poderia nunca experimentar, Max Blecher ergue seus espelhos, tece sua arte, suspira seus últimos sopros — e magicamente transmuda as profundezas de sua alma em palavras.

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Max Blecher

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Nasceu em 1909, na Romênia. Aos dezenove anos, publicou seu primeiro texto em prosa na revista de Tudor Arghezi, um dos líderes do modernismo romeno. Em 1934, publicou em Bucareste o volume de poemas Corp transparent. Até 1938, Blecher concluiria Acontecimentos na irrealidade imediata, lançado em 1936, e escreveria mais dois romances, Inimi cicatrizate e Vizuina luminat. Max Blecher morreu aos trinta anos, em maio de 1938.

Blecher escreve sua irrealidade por desejar ardentemente que sua realidade fosse outra.

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Max Blecher
Trad.: Fernando Klabin
Cosac Naify
192 págs.