Ensaios e Resenhas

outubro 2015 / Ensaios e Resenhas / Sonolento e previsível

Texto publicado na edição #185

Sonolento e previsível

Número zero, de Umberto Eco, é um romance repetitivo, cansativo e sem a mínima surpresa ao leitor

> Por LUIZ HORÁCIO

Umberto Eco, autor de Número zero.

Umberto Eco, autor de Número zero.

O cenário é a cidade de Milão durante os anos Berlusconi. Os atores: jornalistas. O roteiro: fraco. O diretor: Umberto Eco. O gênero: suposto policial. Sinopse: grupo de jornalistas sob as ordens e patrocínio de um magnata da mídia tem por objetivo o lançamento do jornal Amanhã que pretende reabilitar o conceito de imprensa independente.

Mas o jornal parece não ter futuro, aparentemente não passa de uma farsa criada por seu diretor que, escroque manipulador, busca infiltrar-se e influenciar o mundo das finanças.

— Claro. Que o jornal não vai sair o Comendador não disse nem a mim, eu simplesmente desconfio, ou melhor, tenho certeza. E os nossos colaboradores não vão poder saber disso; vamos vê-los amanhã: eles precisarão trabalhar achando que estão construindo seu futuro. Dessa história só eu e o senhor sabemos.

A mediocridade estapafúrdia de uma redação que trabalha para um jornal que jamais será publicado é representada pela pessoa de Bragadoccio, retratado como Kojak e sua teoria da conspiração onde o assassinato é sempre a mola propulsora da trama.

Reuniões de pauta beirando o absurdo, temas grotescos, manual de um jornalismo patético e perigoso, eis o cerne de Número zero, um romance alimentado com elementos do romance policial, mas acima de tudo um alerta acerca da fragilidade da mídia.

Amanhã não pretende informar, longe disso, sua finalidade é chantagear, difamar, servir de qualquer maneira ao seu editor. A figura do redator, um tipo nada confiável, tenta revisar cinco décadas de história a partir do cadáver de Mussolini. Ou quem sabe, de seu sósia.

Número zero é uma trama de bastidores e coadjuvantes, tem espaço para uma loja maçônica, o assassinato do papa João Paulo I, a CIA, terroristas, atentados, um duvidoso documentário apresentado pela BBC.

Conforme disse anteriormente, Número zero apresenta alguns elementos do romance policial, o clima de permanente suspeita é o mais confiável. A trama beira o primário.

Temos Colonna, o editor-chefe, definido como “assistente de direção”, de um jornal que não existe. Seu patrão é Simei, que também contrata uma equipe de jornalistas. E os problemas de Número zero começam a aparecer por essa fresta de inverossimilhança, a nada sútil ingenuidade da redação. Os jornalistas acreditam cegamente que estão a preparar o lançamento do jornal Amanhã, apesar das esquizofrênicas reuniões de pauta.

Ninguém percebe as verdadeiras intenções de Colonna — escrever um livro relatando a experiência do lançamento de um jornal.

— Um livro? — perguntei-lhe.

— Um livro. As memórias de um jornalista, o relato de um ano de trabalho para preparar um jornal que nunca sairá. Por outro lado o título do jornal deveria ser Amanhã, parece um lema para nossos governos: cuidamos disso amanhã. Portanto o livro deverá chamar-se Amanhã: ontem. Bonito, não?

Mau jornalismo
O leitor entrará em contato com prováveis características do mau jornalismo, entre elas aprenderá como criar uma notícia, métodos de manipulação da opinião pública, enfatizar a versão conveniente, desprezando as demais.

Além da história sobre a criação do jornal, o leitor perceberá o desdobramento de outras histórias. Todas, vale destacar, primárias. Pequeno parênteses para um mea-culpa: não tenho intimidade com o idioma italiano, tampouco tive em mãos o texto original, por isso deixo a dúvida: seria a enxurrada de clichês, entre eles, “no olho do furacão”, creditáveis a Eco ou a uma tradução etnocêntrica, domesticadora?

Tem mais: Eco traz à tona fatos históricos completamente alterados devido ao desequilíbrio de Bragadoccio, o editor paranoico. Onde resta uma sombra de dúvida, Bragadoccio cria teorias conspiratórias, mas o faz de forma tão fundamentada que leva o leitor, não digo a acreditar, mas a dar um google na intenção de aparar a dúvida. Número zero é um pretensioso romance policial, não muito afastado daquilo que Julia Kristeva chamou de “romance policial metafísico” para situar seus romances Le viel homme et les loups e Meurtre à Byzance .Mas o que significa romance policial metafísico? Grosso modo, digamos que se trata da narrativa em que o suspense envolve a história. No caso de Número zero, esse suspense invade a história política (Mussolini) e a religiosa (o papa João Paulo I).

Eco, com ironia, lança suspeitas, acusa, desse modo desconstrói certezas históricas e políticas.

Tratemos pois dos personagens. Superficiais, extremamente superficiais, você, assim como eu, inocente leitor, fará a pergunta: “mas foi esse mesmo autor que escreveu O nome da rosa, texto fundador do romance policial histórico moderno? Foi ele que criou o frade investigador Baskerville e seu escudeiro, o noviço Adso de Melk, entre outros personagens maravilhosos, mesmo os coadjuvantes?”. Difícil acreditar.

Em Número zero pululam personagens secundários e extremamente superficiais. A exceção é Maia, ela começa um relacionamento com Colonna por volta da metade da história. Tida como autista, relega a tarefas menores, horóscopo entre elas, mostra-se apreensiva com os rumos que aquele jornalismo para o qual foram contratados pode tomar. Algo extremamente nocivo. Colonna não transmite a menor emoção, deixa o leitor frente a atuação de um ator exageradamente canastrão.

Bragadoccio externa uma profusão de teorias e suspeitas torna-se sonolento e parece representar o papel de “criador de páginas”, o que torna o romance repetitivo, cansativo e sem a mínima surpresa ao leitor. O destaque de tal aspecto num romance policial é frustrante.

Um exemplo contrário, nos romances de Simenon os personagens são bastante complexos. Além do citado, falta no romance de Eco a investigação para ser chamado de romance de enigma. Este tipo de narrativa conta a história de um personagem que procura contar uma história e traz à tona a verdade numa forma narrativa conduzida a bom termo pelo personagem do investigador, do detetive. O tal do método dedutivo, de fácil identificação nos livros de Edgal Poe e Conan Doyle. Não procure em Número zero, você não encontrará. Mas volte a O nome da rosa e lá sim perceberá que o objeto do romance policial, além do crime, é a busca pela verdade. A mesma investigação que percebemos em O estrangeiro, de Camus. O que leva Mersault a matar? Em Crime e castigo, Dostoievski investiga a essência filosófica dos atos de um assassino, culpa, tendência a se entregar. E ainda tem Houellebecq com Extensão do domínio da luta. Nestes títulos você, inquieto leitor, encontrará de sobra aquilo que Eco procurou… procurou… e não encontrou.

De todo modo, Eco criou um romance policial. Burlesco, mas policial.

Conforme Pablo de Santis, conterrâneo e contemporâneo de Borges, “os romances policiais são tudo aquilo que nos resta de místico”.

LEIA RESPOSTA DA TRADUTORA IVONE BENEDETTI

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Umberto Eco

Nasceu em Alexandria, em 1932. Filósofo, medievalista, semiólogo e midiólogo. Estreou na ficção em 1980 com O nome da rosa, ainda hoje seu romance mais importante. Escreveu também O pêndulo de Foucault, História da beleza, História da feiura e O cemitério de Praga.

— Estou vendo que me entende. Se o Comendador usar os nossos números zero para assustar alguém ou limpar o traseiro, isso é lá com ele, não com a gente. Mas a questão é que o meu livro não deverá contar o que decidimos em nossas reuniões da redação, porque para isso eu não precisaria do senhor, um gravador seria suficiente.

Umberto_Eco_Numero_zero_185

Umberto Eco
Trad.: Ivone Benedetti
Record
208 págs.