Rabisco

novembro 2012 / Rabisco / Sonhos encantadores

Texto publicado na edição #151

Sonhos encantadores

Com atmosfera lúdica, poética e fantástica, "Contos de lugares distantes" aguça a imaginação de jovens e adultos

> Por ANDREA RIBEIRO

Ilustração: Shaun Tan

Os lugares distantes às vezes ficam perto. Bem perto. Logo ali, dobrando a esquina, depois do terreno baldio “guardado” por um grande búfalo que nos aponta uma direção.  Ora, não há distância grande o bastante para quem tem imaginação fértil. E isso o australiano Shaun Tan tem. Afinal, não é qualquer um que cria um personagem como esse búfalo gigante que mora num terreno baldio e sempre aponta a direção correta — para o que quer que seja. O búfalo do rio é a história que abre Contos de lugares distantes. E, a partir dela, sabe-se que há muita coisa fantástica por vir.

É um encantamento após o outro. Uma viagem atrás da outra. São 15 histórias/contos/textos que costuram belíssimas ilustrações. Quinze passeios por temas que variam do lúdico à guerra, do estranhamento ao reconhecimento, do casamento à poesia. O clima é fantástico, como nos sonhos. E é por isso que as histórias não precisam ter, necessariamente, um final bem marcado, com moral e tudo o mais. Não, não. As histórias acontecem e vão até o ponto em que acordamos. E isso basta.

Tan é um escritor interessante e competente. Mas, acima de tudo, é um grande ilustrador. Um belo artista plástico, muito criativo. O que casa perfeitamente bem numa empreitada que precisa aliar o visual e o textual, como no caso da produção para o público infanto-juvenil. É interessante perceber, por exemplo, que as ilustrações de Contos de lugares distantes vieram antes dos textos. A escrita, aqui, é complemento para as imagens — e não o contrário. No conto Velório, a imagem é a de vários cães sentados sobre objetos (cama, tevê, mesa, maquina de lavar) olhando para o nada — mas todos na mesma direção. Com o texto, sabemos que a cachorrada estava olhando para uma casa em chamas. A casa de um homem que havia matado, alguns dias antes, seu cão a pauladas.

O visual — de forma um pouco diferente — é um atrativo também em Chuva ao longe. Aqui, o texto aparece todo picadinho, em pedaços de papel nos quais se veem desenhos, partituras musicais, bilhetes ou palavras soltas. Todos esses retalhos dão conta, ou melhor, nos instigam a imaginar: onde, afinal, vão parar os poemas não lidos? Uma viagem lúdica e muito poética. Leve, alegre, romântica (por que não?).

O livro é muito envolvente. Divertido, poético, saboroso. E não é porque está repleto de ilustrações que somente as crianças (maiorzinhas, é verdade) e adolescentes vão gostar. Os adultos vão, também, viajar nas histórias fantásticas e delicadas deste livro. E no final, com certeza, vão se divertir tentando encontrar, nas ilustrações dos versos da capa e contracapa, algumas referências dos textos que acabaram de ler. O búfalo está lá.

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Shaun Tan

Shaun Tan. Foto: Divulgação

Nasceu em 1974, em Perth, no este australiano. É formado em artes plásticas e literatura inglesa pela Universidade da Austrália Ocidental. Iniciou sua carreira como ilustrador em revistas de ficção científica. Em 1997, ilustrou seu primeiro livro, The viewer (O observador), de Gary Crew. Quatorze anos depois, foi premiado com o Astrid Lingren Memorial Award, em reconhecimento à sua contribuição para a literatura infantil. Tem 11 títulos publicados. Além da literatura, também trabalha com animações, como os encantadores Wall-E (ele foi o responsável pela concepção de arte) e The lost thing (A coisa perdida), vencedor do Oscar de melhor curta de animação em 2011, baseado em livro homônimo.

Shaun_Tan_Contos de lugares distantes_151

Shaun Tan
Trad.: Érico Assis
Cosac Naify
104 págs.