Ensaios e Resenhas

setembro 2013 / Ensaios e Resenhas / Sobriedade e sutileza

Texto publicado na edição #162

Sobriedade e sutileza

Amadeu Amaral permanece indispensável à cultura brasileira graças a O dialeto caipira — estudo pioneiro sobre as características da linguagem […]

> Por RODRIGO GURGEL

Amadeu Amaral por Fábio Abreu

Amadeu Amaral por Fábio Abreu

Amadeu Amaral permanece indispensável à cultura brasileira graças a O dialeto caipira — estudo pioneiro sobre as características da linguagem no interior do estado de São Paulo —, à permanente campanha em defesa do folclore, cujas pesquisas nos permitiriam alcançar o que ele chamava de “conhecimento exato da nossa gente”, e aos insights das análises literárias reunidas em O elogio da mediocridade, incluindo o ensaio que dá título ao livro, deliciosa peça de ironia sobre o papel do crítico e dos escritores. Poeta menor, deixou uma novela exemplar, A pulseira de ferro, presente no volume “Novela e conto” de suas Obras completas — publicadas por causa do empenho de Paulo Duarte, intelectual paulista injustamente esquecido.

Papéis invertidos
O escritor não teme iniciar A pulseira de ferro utilizando a fórmula “Era uma vez um vigário da vila de Candeias, chamado Guilherme de Meneses…” — assim o narrador finaliza o Prólogo, em que também avisa o leitor sobre suas opções lingüísticas, despojadas de preocupações literárias regionalistas.

De fato, padre Guilherme assume, num primeiro momento, o papel de protagonista. Na pacata vilazinha começa a história desse vigário bonachão, dedicado, em algum dia entre 1875 e 1880, ao seu almoço, “oloroso assado” que pretende saborear. Interrompido por Chico, o sacristão, que o chama para um batizado urgente, pois a criança estaria à morte, segue para a igreja. Lá, encontra o recém-nascido, mas abandonado pelos pais. Decide, então, acolhê-lo em sua casa, confiando que a cozinheira, Rosa, cuidará dele.

O que ressalta na personalidade do clérigo é o caráter pueril, presente já nos seus primeiros comentários, quando se mostra incomodado ao perceber a forma como Chico o julga, pois este acredita que, entre o almoço e o batismo, padre Guilherme prefere o primeiro. Para um homem de quarenta anos, acostumado a conviver com diferentes tipos de pessoas e a ouvir delas, no confessionário, o que têm de pior, a insistência para provar ao sacristão suas verdadeiras intenções fornece os primeiros sinais da imaturidade que a trama comprovará.

Ao decidir adotar a criança, o clérigo atesta, mais que compaixão, nítida carência afetiva, necessidade de conceder amor especial, particular, a uma única pessoa. O diálogo do Capítulo 3, em que troca idéias com a cozinheira sobre o nome que dará à criança e sua dúvida em relação aos padrinhos, confirma a personalidade de um homem despreparado para seu ofício, tolo a ponto de acreditar em superstições. O próprio narrador trata-o com ironia, no Capítulo 7, descrevendo-o “quase como uma senhora na doçura e na paz da maternidade recente”.

Em pouco tempo, o vigário torna-se alvo de mexericos: a adoção, apesar de informal, revelaria que ele é o verdadeiro pai da criança. O diálogo que mantém com o professor Camacho, único redator do jornal da vila, desencadeia sua indignação:

Camacho abanou a cabeça e esboçou um sorrisinho indeciso. Depois, levantando as sobrancelhas e apertando os beiços numa caramunha de contrariedade, arrulhou:

Eu julgava que vossa reverendíssima estava ao fato de tudo, e foi por isso que me atrevi a falar…

Desembuche.

Referia-me ao pequeno, ao enjeitadinho, que as línguas perversas deram agora para assoalhar que é filho do sr. vigário…

Padre Guilherme baixou as sobrancelhas híspidas sobre o olhar coruscante, enquanto ouvia o professor, e assim se conservou por um tempo.

Então dizem isso de mim?

Camacho fungou um suspiro.

Por toda a parte, sr. padre.

Mas dá-se crédito a semelhante infâmia? Que caráter tem isso? De notícia certa? De boato vago? De pilhéria? E quem é que o diz, sr. Camacho? A quem é que o senhor já ouviu dizer isso, sr. Camacho?…

O mestre-escola gaguejou umas evasivas. E o padre, pegando-lhe na manga e dando-lhe pequenos repelões:

Dessas “minudências” o senhor não sabe, hem! sr. Camacho… O senhor sabe que me caluniam, que me arrastam o nome por essas sarjetas, mas não sabe mais nada, não viu, não percebeu… não quis perceber mais nada!

À parte o diálogo perfeito, bem construído, as reações do clérigo, que se intensificarão a partir desse ponto, reafirmam sua total incapacidade para lidar com questões controversas. Mesmo tentando fingir que nada acontecera, ter consciência dos boatos é algo insuportável para o padre. E apesar do apoio que recebe do único amigo, o advogado Veloso, sucumbe às maledicências e decide partir da cidade. Seu rancor fica claro nas palavras que, num rompante, diz a Veloso, pouco antes de partir:

Por ter a consciência limpa é que me revolto, Veloso (bradava o padre). Não, não me posso conformar com esta idéia de que a “minha” pessoa não é afinal “minha”, não me pertence, não é aquilo que eu quero que ela seja, aquilo que eu tenho o direito de querer que ela seja, aquilo que eu vivo a trabalhar toda a minha vida para que ela seja!… E essa idéia estúpida, essa idéia trágica é a realidade, a realidade objetiva, a realidade tangível! A “minha” pessoa é uma coisa como qualquer outra, é um objeto, é um traste, é um punhado de matéria desprezível que o primeiro ladrão apanha, desconjunta, torce e deforma à sua vontade, por desfastio, por malvadez, por pilhéria, sei lá!…

De nada servem os argumentos de Veloso, que confirmam os papéis invertidos desses personagens, pois o advogado mostra-se mais próximo da firmeza de caráter que o senso comum espera do sacerdote:

Que culpa tem Deus de que você exagere a sua sensibilidade? Você é que devia ter a força de desprezar o que é desprezível; mas não desprezar de gesto e de palavra desprezar de toda a vontade, de toda a alma, num desprezo integral e sereno… Você não tem essa força, e padece… Mas reconheça ao menos que também esse padecimento é providencial. Nós nos orgulhamos facilmente das nossas boas partes; e aquele que se compraz em reconhecê-las em si mesmo, já desmereceu um pouco, só por isso. A má-língua chama-nos à realidade, força-nos a ser modestos, a juntar ainda uma qualidade, preciosa entre as mais, às qualidades que já possuímos…

Metáfora
Esses comentários, no Capítulo 10, representam apenas um dos inúmeros trechos que contribuem para transformar Veloso no personagem central da narrativa. Página a página, o narrador torce com habilidade a trama, passa a segundo plano o vigário, utiliza as calúnias sofridas pelo padre para provocar no advogado a recordação pungente do próprio passado — e Veloso, por sua personalidade diligente e solícita, seu poder de análise, assume o protagonismo da história.

O núcleo dessa mutação encontra-se no Capítulo 9, no qual o advogado relata ao padre, para que lhe sirva de exemplo, a história do ferreiro Manuel da Costa, morador de Candeias, durante longos cinco anos dedicado a moldar, nas horas de lazer, a delicada “pulseira de ferro”, presente que dará a Raquel, sua jovem filha, por quem Veloso, já homem maduro, se apaixona. A família, contudo, é destruída pelas intrigas da população — e Veloso partilha da violência das calúnias, responsáveis inclusive pelo suicídio de Raquel. Essa experiência anterior é o drama que permite ao advogado ironizar a indignação do padre, correta, sem dúvida, mas desproporcional.

Pouco antes, depois de salientar que o vigário vive apenas a “estréia de caluniado”, Veloso expusera, num diálogo central, no Capítulo 8, sua teoria sobre como a índole violenta do homem depurou-se até se transformar em difamação:

[…] O bruto ganhou em peçonha, em perversidade recolhida e fedorenta o que perdeu em brutalidade esbarrondante e sadia: já não assalta nem esquarteja o inimigo, amargura-lhe, comodamente, a existência; envenena-lhe os prazeres, se os têm; agrava-lhe as dores e as melancolias, que as têm pela certa; põe-lhe um sabor de lama na água que ele bebe, um cheiro excrementício nos perfumes que ele respira; entra-lhe pelo corpo com o pão que ele come, tornando-lho duro e dissaborido; precipita-se-lhe na torrente do sangue, e queima-o em febre; fustiga-lhe as fibras recônditas dos nervos, e chama-se insônia; põe-lhe nos olhos as lágrimas que ele deve estilar em silêncio, às escondidas, e é então a amargura que mata. E ninguém escapa! ninguém! […]

A pulseira de ferro não é, contudo, ficção de tese; não está presa aos esquematismos darwinistas do nosso Naturalismo e o advogado não busca nenhuma suposta verdade científica. Não. Mais que a história de um padre destituído de firmeza, a novela retrata os infortúnios de Veloso, homem sensível, íntegro, sagaz, obrigado a ser vítima indireta dos mexericos, devido aos quais perde, primeiro, o grande amor, e depois, o melhor amigo. A pulseira de ferro torna-se, assim, metáfora dos sentimentos que alimentamos, durante longo tempo, com empenho sincero, mas que são destruídos, aniquilados pela malevolência de outrem.

O narrador completa, dessa forma, a inversão — e o que prometia ser uma história óbvia ganha agradável, inesperada sutileza. Sua sensibilidade aguda completa o trabalho revelando, no final, não os caluniadores, mas os artífices do plano de abandonar a criança à porta da igreja. Tratados, no início da narrativa, como parvos, eram, na verdade, dissimulados, conhecedores da índole do vigário.

A essas qualidades somam-se outros personagens — o ferino boticário Felisberto; o barbeiro Nicola; Camacho, “polimórfico sábio” — e diálogos reveladores, que impulsionam a história e substituem possíveis cansativas descrições do narrador, como este, entre Veloso e Felisberto, quando se anuncia a difamação em curso:

Olá! Sirva-se de um cafezinho, descanse um pouco. Diga-me! como vai o filho do padre?

Veloso estacou intrigado. E Felisberto explicou, passando-lhe uma xícara:

Aquele mulatinho achado ali na igreja, outro dia, não sabe? que caiu do céu por obra do Espírito Santo…

Ouviu-se uma risada geral. Veloso riu-se com os mais, sem exagero e sem ruído, mas também sem constrangimento aparente, e informou:

O pequeno vai bem.

Saiu parecido com o pai?

Veloso, sem se desconsertar, tomando o seu café:

Mas quem é o pai?

Ora, ora, doutor Veloso…

Quem é?

Sou eu. Está ouvindo? Eu! Fui eu quem mandou largar o bodinho, de manhã muito cedo, ali na porta da igreja; por uns excomungados de uns pretos que ninguém viu, de quem ninguém dá notícia… Qual, “seu” dr. Veloso, nisso tudo há grosso… milagre! Quem não vê que aí anda dedo… de Deus!

Veloso sorriu, abanou a cabeça, olhou para o ar, tornou a sorrir, e saiu da botica aterrado.

O narrador cumpre, graças à sua habilidade, o que prometera no Prólogo: “[…] Uns amam nas histórias as próprias histórias, e não querem delas senão o que pedem à música — um pouco de esquecimento e de embriaguez”. É o que Amadeu Amaral nos oferece nessa novela sóbria na extensão, mas de enredo penetrante, pleno do que os leitores desejam — exatamente o que muitos escritores de hoje nos recusam.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Alcides Maia e Alma bárbara.

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Amadeu Amaral

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Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado nasceu em Capivari (SP), em 6 de novembro de 1875, e faleceu na capital paulista em 24 de outubro de 1929. Fez o curso primário em Capivari e aos onze anos partiu para São Paulo, a fim de trabalhar no comércio e estudar. Foi autodidata, sequer concluiu o curso secundário. Ingressou no jornalismo, trabalhando nos principais jornais da época: Correio Paulistano e O Estado de S. Paulo. Em 1922, transferiu-se para o Rio de Janeiro como secretário da Gazeta de Notícias. Voltando a São Paulo, exerceu cargos na administração pública. Dotado de grande erudição, dedicou-se aos estudos lingüísticos, ao folclore e à literatura (crônica, poesia e ficção). Suas Obras completas (onze volumes) foram publicadas em 1976, sob a direção de Paulo Duarte, pela Editora Hucitec em co-edição com a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

A mentira e a calúnia são o nosso pão espiritual de cada dia! São a nossa arma predileta na luta da vida! São nossos utensílios de trabalho! São o mais inocente dos nossos brincos, o mais doce dos nossos passatempos! Mente-se e calunia-se por ódio e por despeito: é a fúria destruidora do homicida transformada em energia errante — menos intensa, porém mais extensa, e mais durável. Mente-se e calunia-se sem ódio nem despeito [...]. Mente-se e calunia-se por interesse, por cálculo, por desfastio, por descuido, por graça. Mente-se e calunia-se por engano... E não só por palavras, mas também por pensamentos e obras! A mentira e a calúnia estão no ar que respiramos, estão na substância do nosso espírito. [...]