Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Sobre móveis e memórias

Texto publicado na edição #152

Sobre móveis e memórias

Magnitude e força das narrativas de "A memória de nossas memórias", de Nicole Krauss, surgem através da sutileza

> Por GISELE EBERSPÄCHER

O romance A memória de nossas memórias, de Nicole Krauss, mostra a vida de pessoas às quais pouco resta exceto a memória, narrada exaustivamente em primeira pessoa pelas personagens. Ao revisitar o passado, elas buscam apenas entender como chegaram à situação em que estão hoje e conviver com aquilo que restou de suas lembranças.

A autora apresenta várias personagens para o leitor em um percurso não linear. As memórias de diversos narradores são escritas de maneira intercalada, sem formar uma seqüência cronológica entre si. A obra poderia ser até um livro de contos, não fosse um sutil fio que conduz a narrativa — e achar este fio é parte da experiência do leitor da obra.

As personagens, amplamente construídas, seguram a narrativa de uma maneira forte. Cada uma delas traz uma trajetória diferente, mas todas estão ligadas de maneira intimista a suas memórias.

Heranças
Nadia é uma escritora norte-americana que relata suas memórias para alguém que a julga, explicando o fracasso do seu casamento e como acredita que sua carreira está prestes a desmoronar. Ela parece simplesmente não ser capaz de sustentar sua própria vida e seus desejos, perdendo de maneira apática coisas importantes. Já Aaron é um senhor judeu que busca compreender seu filho, Dovik, que, sensível demais, nunca conseguiu entender. Brigas e desentendimentos se estendem por anos, até que Dovik sai do país. Quando o filho volta para casa, anos depois, o pai narra uma série de memórias dos dois, buscando criar o caráter de Dovik a partir dessas lembranças.

Depois da morte da poeta Lotte, seu marido Arthur revisita a vida dos dois, e as memórias são reinterpretadas e ganham novos significados para ele com o tempo. As lembranças do passado passam a alterar o que sente no presente. Lotte sempre foi uma mulher de segredos — nunca contou em detalhes, por exemplo, a infância tenebrosa que viveu em meio à Segunda Guerra Mundial na Alemanha e pouco falou sobre como chegou em Londres. Se antes Arthur pensava que não saber essas informações era um sinal de respeito, a ausência delas passa a torturá-lo e o faz pensar que pode não conhecer a pessoa com quem passou toda a sua vida. Para ele, a parte mais enigmática de Lotte era a sua escrivaninha, um móvel grande e opulento que não combinava com a personalidade intimista da poeta, que a dá a um admirador de seu trabalho.

Anos depois, Weisz, um comerciante cuja especialidade é buscar móveis perdidos pelas famílias durante a guerra, visita Arthur para buscar informações sobre a escrivaninha. Depois de não encontrá-la, parte em busca de Daniel Varsky, um poeta chileno morto na ditadura de Pinochet e herdeiro da escrivaninha de Lotte.

Weisz criou seus dois filhos, Leah e Yoav, para não sentirem essa nostalgia com os móveis ou memórias fortes de lugares ou de pessoas que não sejam eles mesmos, e fez com que nada estático se tornasse uma figura importante na vida dos dois. Ao se relacionar com a estudante sem rumo Isabel, Yoav é sempre reticente ao falar sobre seu pai e lembranças de infância.

(Re)Construir
A presença dos móveis no romance é tomada como uma forte metáfora para a memória. Trazida principalmente por Weisz, que transforma isso em profissão, mas presente em quase todos os núcleos de personagens, os móveis assumem uma espécie de cenário dessas memórias, aparecendo freqüentemente nas descrições dos personagens, como se fossem uma espécie de extensão da própria pessoa. A metáfora fica ainda mais forte com a escrivaninha grande de muitas gavetas, que se relaciona com boa parte dos personagens. Uma maneira sutil escolhida por Nicole Krauss para juntar pessoas separadas pelo tempo e espaço.

A autora cria, então, uma imagem muito profunda: não só os móveis pertencem às pessoas que os compraram ou fizeram, mas também elas pertencem aos móveis, principalmente ao criar ao redor deles uma vida. Ao resgatar móveis — e memórias —, as pessoas seriam capazes de trazer também um conforto que já não sentem mais, mas que esteve presente em algum momento de suas vidas. E os personagens do livro, que vivem envoltos por uma melancolia ou quase desespero, parecem estar à procura desse momento que deixaram passar, em que as coisas poderiam ter sido diferentes.

Um padrão forte na obra é abordar a figura do escritor como uma alma atormentada, que sofre com as mínimas oscilações da vida. Os sentimentos intimistas, para eles, tomam proporções maiores que relacionamentos reais, e coisas aparentemente insignificantes tomam um papel muito maior para o que irá acontecer com eles, fazendo com que não se entendam com os outros nem consigo mesmos.

As narrativas em primeira pessoa fazem com que seja pouco provável que o leitor não sinta empatia ou atração por personagens tão complexos e profundos. As dores se misturam com as descobertas pessoais, e a trajetória se torna uma descoberta até para os próprios personagens. E como as memórias que relatam são frágeis e suscetíveis ao passar do tempo, os personagens passam a ter uma interpretação de suas vidas alterada pelo desespero, solidão e melancolia.

Nicole Krauss nem sempre deixa explícito todas as relações, fechamentos e soluções dos personagens. Algumas narrativas são, inclusive, apresentadas em ordem improvável. A conexão entre vários dos personagens é indireta e não explicitada na decorrer da história. Ao leitor, cabe perceber as camadas de histórias, as memórias das memórias desses personagens, cuja magnitude se torna um dos grandes atrativos do livro. Além disso, a sutileza das relações faz com que a profundidade da narrativa seja ainda maior. Com uma tentativa de reconstrução de vidas que não deram completamente certo, a autora mostra personagens que tentam mudar a memória de si mesmos.

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Nicole Krauss

Nicole Krauss. Foto: Joyce Ravid

Nasceu em Nova York, em 1974. A memória de nossas memórias é o terceiro romance da autora, que publicou contos em revistas como Granta, Harper’s Bazar, The New Yorker e Esquire. Nicole casou em 2004 com o também romancista Jonathan Safran Foer.

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Nicole Krauss
Trad.: José Rubens Siqueira
Companhia das Letras
344 págs.