Dom Casmurro

fevereiro 2012 / Dom Casmurro / Sobre a água

Texto publicado na edição #107

Sobre a água

Conto de Guy de Maupassant

> Por GUY DE MAUPASSANT

Tradução: Amilcar Bettega

Ilustração: Tereza Yamashita

No verão passado eu tinha alugado uma pequena chácara às margens do Sena, a várias léguas de Paris, e ia dormir lá todas as noites. Ao cabo de alguns dias, conheci um dos meus vizinhos, um homem de trinta a quarenta anos, no mínimo o tipo mais curioso que jamais vira. Era um velho barqueiro, mas um barqueiro fanático, sempre perto da água, sempre sobre a água, sempre na água. Devia ter nascido num bote, e certamente vai morrer manobrando um bote em sua viagem final.

Num fim de tarde em que passeávamos às margens do Sena, pedi que me contasse algumas aventuras de sua vida de navegante. Eis que imediatamente meu homenzinho ganha vida, se transfigura, torna-se eloqüente, quase poeta. Ele trazia no coração uma grande paixão, uma paixão devastadora, irresistível: o rio.

Ah! — ele disse — quantas recordações tenho desse rio que você vê correr aí, tão perto de nós! Vocês, habitantes das cidades, vocês não sabem o que é o rio. Mas ouçam um pescador pronunciar essa palavra. Para ele, é a coisa misteriosa, profunda, desconhecida, o território das miragens e dos fantasmas, onde vemos, de noite, coisas que não existem, ouvimos ruídos que não conhecemos, tememos sem saber por quê, como ao atravessar um cemitério: e na verdade é o mais sinistro dos cemitérios, aquele onde não existe túmulo.

Para o pescador, a terra é delimitada; e no escuro, quando não há lua, o rio é infinito. Um marinheiro não sente a mesma coisa com relação ao mar. O mar é quase sempre duro e perigoso, é verdade, mas ele grita, esbraveja, ele é leal, o grande mar; ao passo que o rio é silencioso e traiçoeiro. Não ruge, corre sempre sem ruído, e para mim esse eterno movimento da água correndo é mais assustador do que os vagalhões do oceano.

Alguns fantasistas afirmam que o mar esconde em suas entranhas imensos territórios azulados, onde os afogados erram por entre peixes enormes, em meio a misteriosas florestas e grutas de cristal. O rio tem somente profundezas escuras onde se apodrece na vasa. Porém, ele é lindo quando brilha sob o sol nascente, marulhando suavemente entre as margens cobertas de juncos que murmuram.

O poeta, falando do oceano, disse:

Ó vagas, que conheceis lúgubres histórias!
Vagas profundas, temidas pelas mães ajoelhadas, vós,
que vos conteis tais histórias quando as marés são elevadas
E é isso que vos dá dessas vozes desesperadas
Que tendes, à noite, quando vindes até nós.

Pois bem, penso que as histórias sussurradas pelos juncos delgados com suas vozes baixinhas e tão suaves podem ser ainda mais sinistras que os dramas lúgubres contados pelas vociferações das ondas.

Mas já que você pergunta sobre algumas das minhas recordações, vou lhe contar uma aventura esquisita que me aconteceu aqui mesmo, faz uns dez anos.

Eu morava, como ainda hoje, na casa da senhora Lafon, e um de meus melhores companheiros, Louis Bernet — que agora renunciou aos barcos, a seus adereços e a sua displicência para ingressar no Conselho de Estado —, estava instalado no vilarejo de C…, duas léguas abaixo. Jantávamos juntos todas as noites, ora na casa dele, ora na minha.

Uma noite eu voltava sozinho e bastante cansado, trazendo a duras penas meu pesado barco rio acima, um océan de doze pés que utilizava sempre à noite, e parei alguns segundos para tomar fôlego perto da ponta dos juncos, lá, mais ou menos duzentos metros antes da ponte da estrada de ferro. Era uma noite magnífica; a lua resplandecia, o rio cintilava, a brisa era calma e agradável. Aquela tranqüilidade me tentou; disse a mim mesmo que me faria bem fumar meu cachimbo naquele lugar. À ação seguiu o pensamento; peguei a âncora e a joguei no rio.

O bote, que descia outra vez com a correnteza, arriou sua cadeia até o fim e parou; eu me sentei na popa, no meu agasalho de pele, tão comodamente quanto me foi possível. Não se ouvia nada, mas nada mesmo: só de vez em quando eu pensava ouvir um marulhozinho quase imperceptível da água junto à margem, e distinguia os ramos de juncos mais altos, que assumiam formas surpreendentes e, por momentos, pareciam se agitar.

O rio estava perfeitamente tranqüilo, mas me senti agitado pelo silêncio extraordinário que me rodeava. Todos os bichos, rãs e sapos, estes cantores noturnos dos charcos, estavam calados. De repente, perto de mim, à minha direita, uma rã coaxou. Estremeci: ela se calou; não ouvi mais nada e decidi fumar um pouco para me distrair. Mas, embora fosse um fumador inveterado, não consegui; na segunda tragada o coração se alterou, e parei. Pus-me a cantarolar: o som da minha voz era insuportável; então me estendi no fundo do bote e olhei para o céu. Durante algum tempo permaneci tranqüilo, mas em seguida os pequenos movimentos do barco me inquietaram. Pareceu-me que ele fazia bordejos enormes em ziguezague, tocando alternadamente as duas margens do rio; depois pensei que algum ser ou força invisível puxava-o lentamente para o fundo da água e o reerguia em seguida para deixá-lo cair de novo. Eu era jogado de um lado a outro, como se no meio de uma tempestade; ouvi ruídos à minha volta; pus-me em pé de um salto: a água cintilava, tudo estava calmo.

Compreendi que eu estava com os nervos um pouco debilitados e decidi ir embora. Puxei a corrente; o barco se pôs em movimento, mas logo senti uma resistência, puxei mais forte, a âncora não veio; ficara presa em alguma coisa no fundo da água e eu não conseguia erguê-la; recomecei a puxar, mas inutilmente. Então apanhei os remos e fiz o barco dar a volta, levando-o a montante para mudar a posição da âncora. Foi em vão, ela continuava presa; fui tomado pela cólera e sacudi a corrente com raiva. Nada se moveu. Desanimado, sentei e comecei a refletir sobre a situação. Eu não podia pensar nem em rebentar a corrente nem em soltá-la da embarcação, porque ela era enorme e estava engastada, na proa, numa tora de madeira mais grossa do que meu braço; mas como o tempo continuava muito bom, imaginei que, sem dúvida, não tardaria a encontrar algum pescador para me socorrer. Meu infortúnio tinha me acalmado; sentei-me e pude, enfim, fumar meu cachimbo. Trazia comigo uma garrafa de rum, bebi dois ou três goles, e até ri da minha situação. Fazia bastante calor, de modo que, em último caso, poderia passar a noite ao relento sem grandes problemas.

De repente, um ligeiro golpe ressoou contra o casco do barco. Levei um susto, e um suor frio me gelou dos pés à cabeça. Aquele barulho vinha sem dúvida de algum toco de madeira trazido pela correnteza, mas fora o suficiente para que eu me sentisse de novo invadido por uma estranha agitação nervosa. Agarrei a corrente e me estiquei todo num esforço desesperado. A âncora não cedeu. Sentei-me outra vez, esgotado.

Nesse meio-tempo, o rio se havia coberto aos poucos com um nevoeiro branco e muito espesso que se arrastava rente à água, de maneira que, pondo-me de pé, eu não via mais o rio, nem meus pés, nem o barco, mas distinguia apenas a ponta dos juncos, e depois, mais ao longe, a planície inteiramente empalidecida pela luz da lua, com grandes manchas escuras subindo ao céu, formadas pelos grupos de álamos. Eu estava como sepultado até a cintura numa espécie de toalha de algodão de uma brancura singular, e vinham-me à mente pensamentos fantásticos. Imaginava que tentavam subir no barco, que eu não conseguia mais enxergar, e que o rio, encoberto por aquele nevoeiro opaco, devia estar cheio de seres estanhos que nadavam à minha volta. Senti um mal-estar horrível, tinha as têmporas comprimidas, meu coração batia a ponto de me sufocar e, perdendo o juízo, pensei em escapar a nado; mas logo essa idéia me provocou um calafrio de pavor. E me vi, perdido, nadando a esmo naquela bruma espessa, me debatendo no meio da vegetação, dos juncos, os quais não poderia evitar, arquejando de medo, não enxergando a margem, não encontrando mais o barco, e eu tinha a impressão de que me sentiria puxado pelos pés, direto ao fundo daquela água escura.

De fato, como eu seria obrigado a subir a correnteza ao menos por uns quinhentos metros, antes de encontrar um lugar livre de vegetação e de juncos onde pudesse dar pé, haveria para mim nove chances em dez de eu não conseguir me orientar no nevoeiro e de me afogar, por melhor nadador que fosse.

Tentei manter a razão. Sentia a vontade bem determinada de não ter medo, mas havia em mim outra coisa além da vontade, e essa outra coisa sentia medo. Me perguntei sobre o que poderia temer; meu eu corajoso debochou do meu eu covarde, e jamais percebi tão clara quanto naquela noite a oposição dos dois seres que existem em nós, um querendo, o outro resistindo, e os dois triunfando alternadamente.

Aquele medo estúpido e inexplicável continuava crescendo e transformava-se em terror. Eu permanecia imóvel, os olhos abertos, o ouvido espichado e à espera. De quê? Eu não sabia, mas devia ser algo terrível. Acho que se um peixe tivesse resolvido saltar fora d’água, como freqüentemente acontece, nada mais teria sido preciso para me fazer cair duro, inconsciente.

Entretanto, com um esforço muito grande, terminei por mais ou menos recobrar a razão que me escapava. Apanhei outra vez a garrafa de rum e bebi uma golada. Então tive uma idéia, e me pus a berrar com todas as forças, voltando-me sucessivamente para os quatro pontos do horizonte. Quando a garganta não agüentou mais, escutei — um cão uivava, muito longe.

Bebi de novo e me estendi ao comprido no fundo do barco. Fiquei assim talvez uma hora, talvez duas, sem dormir, os olhos abertos, com pesadelos me rondando. Não tinha coragem de me levantar e no entanto desejava intensamente fazê-lo; adiava de minuto em minuto. Dizia a mim mesmo: “Vamos, de pé!” e tinha medo de fazer um só movimento. Finalmente me reergui cheio de precauções, como se minha vida dependesse do mínimo ruído que eu fizesse, e olhei por cima da borda.

Fui deslumbrado pelo mais maravilhoso, pelo mais surpreendente espetáculo que se possa ver. Era uma dessas aparições do terreno das fadas, uma dessas visões contadas por viajantes que retornam de muito longe e que escutamos sem acreditar.

O nevoeiro, que duas horas antes flutuava sobre a água, tinha pouco a pouco se retirado e se acumulado junto às margens. Deixando o rio inteiramente livre, ele havia formado sobre cada ribanceira um cerro ininterrupto de seis ou sete metros, que brilhava sob a lua com um esplêndido clarão de neve. De sorte que se via apenas o rio laminado de fogo entre aquelas duas montanhas brancas; e lá em cima, sobre minha cabeça, abria-se, cheia e ampla, uma grande lua brilhante, no meio de um céu azulado e leitoso.

Todos os bichos aquáticos tinham despertado; as rãs coaxavam furiosamente, enquanto, a intervalos regulares, ora à direita, ora à esquerda, eu ouvia essa nota curta, monótona e triste, que a voz metálica dos sapos lança às estrelas. Coisa estranha, eu não sentia mais medo; estava no meio de uma paisagem tão extraordinária que mesmo as maiores excentricidades não teriam conseguido me surpreender.

Quanto tempo aquilo durou, não sei, pois terminara por adormecer. Quando voltei a abrir os olhos, a lua estava encoberta, o céu cheio de nuvens. A água marulhava de forma sinistra, o vento soprava, fazia frio, a escuridão era profunda.

Bebi o que me restava do rum. Em seguida escutei, tiritando, os juncos sendo deslocados e o ruído funesto do rio. Tentei enxergar, mas não pude distinguir nem meu barco nem minhas próprias mãos, que eu trazia para perto dos olhos.

Porém, aos poucos a espessura daquele negror diminuiu. De repente julguei que uma sombra deslizava muito perto de mim; soltei um grito, e uma voz respondeu; era um pescador. Chamei-o, ele se aproximou e eu lhe contei meu problema. Ele então pôs seu barco borda a borda com o meu, e juntos puxamos a corrente. A âncora não se moveu. O dia começava a raiar, sombrio, cinza, chuvoso, gelado, um daqueles dias que nos trazem tristezas e desgostos. Avistei outro barco, nós o chamamos, gritando com as mãos em concha. O homem que o navegava juntou seu esforço aos nossos; então, pouco a pouco, a âncora foi cedendo. Ela subia, mas devagar, muito devagar, e carregada de um peso considerável. Finalmente distinguimos uma massa escura, e a puxamos para dentro do meu barco: Era o cadáver de uma velha, com uma enorme pedra amarrada ao pescoço.

(1876)

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