Simetrias dissonantes

agosto 2018 / Simetrias dissonantes / Simpatia: Empatia: Utopia

Texto publicado na edição #220

Simpatia: Empatia: Utopia

As considerações de Nanete Neves, Marco Aqueiva e Ramiro Giroldo

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Encerrando a rodada de aproximações e afastamentos promovida pelo Manifesto: Convergência (ainda em progresso), vamos apreciar as considerações enviadas pela jornalista e escritora Nanete Neves, pelo professor e escritor Marco Aqueiva e pelo professor e pesquisador Ramiro Giroldo. Os novos parágrafos do Manifesto: Convergência podem ser lidos no blogue Paisagem: Personas (paisagempersonas.wordpress.com).

Muros e egos distorcidos
Visando fortalecer a autoestima, mal o indivíduo nasce, já lhe inculcam a noção de que ele é único, especial, belo, importante. Sem limites, ele cresce acreditando nisso, cada vez mais se acha o máximo e vai deixando de ver (e valorizar) o que também é belo no outro. A trajetória de muitos é assim alicerçada, engrossando o time dos ególatras. Na literatura, ególatras autorais.

Ouço muito: “Não leio outros autores para não contaminar minha escrita”, quando na verdade, se fosse sincera, deveria dizer “Não leio porque não tenho paciência” ou “Tenho sérios problemas de assimilação e não consigo compreender o que leio”. Mas esse indivíduo que não lê (ou lê apenas em diagonal, e depois sai criticando) produz e muito, caudalosamente. Em geral, quanto pior leitor ele for, mais palavroso se torna, então produz textos quilométricos para, no final, pouco de relevante dizer.

E são justamente esses que mais têm receio de ser copiados, que providenciam registros das suas obras-sempre-primas, porque, afinal, tudo que deles brota é genial.

Venho do jornalismo (coalhado de gênios). Porém, no meio literário, isso é ainda mais frequente. Um mestre me disse: “Se nos copiam é porque nosso texto é bom. Deixe que copiem, isso é a prova de que estamos no caminho certo”. Hoje, concordo totalmente com esse modo de pensar.

Não concordo com o Manifesto: Convergência na sua totalidade. Venho lendo o escultor e ensaísta Jimmie Durham, nascido nos EUA, de ascendência escocesa e cheroqui, cujo pensamento transita por cosmovisões distintas. Ele provoca a linguagem, contesta os limites identitários, reelabora geopolíticas e confunde a noção hegemônica de História. Sua obra escancara os absurdos da normalidade e aponta para a permanência de mecanismos de segregação, opressão e exploração de origem colonial, instigando uma autocrítica do pensamento ocidental.

Por isso que a questão dos muros do Manifesto me incomoda, são eles que criam divisões instransponíveis, e não há como relativizá-los com boas intenções. Mas me alinho a ele quando aponta o caminho de uma nova fraternidade em busca da originalidade, porque acredito profundamente que, juntos, somos mais fortes, sempre. Uma andorinha só não faz verão, mas quando em bando, elas fazem um barulho danado, e podem abalar as estruturas caquéticas.

Entretanto, só consegue exercitar o jogo do nós quem tem o ego resolvido. Os demais seguirão com seus talentos mal orientados, fechados em suas torres, cercados de muros, lustrando o próprio ego e vaidade e, mais triste, o ressentimento. Não tem coisa pior que escritor (ou artista) ressentido, sentindo-se mal reconhecido, injustiçado.

Fecho com o Manifesto: Convergência que a maior subversão está em acabar com a noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária, porque isso nos leva de volta aos muros. Com o planeta cada vez mais conectado, o compartilhamento revoluciona a questão de autoria e nos propõe desafios cada vez maiores se quisermos ser universais. Isso sim é utopia!
[Nanete Neves]

Maldade e ilusão
Sem o pensamento da liberdade, seria impossível justificar teoricamente a sociedade organizada.
(Theodor Adorno)

Elástica, uma trama se alastra como uma conhecida e velha melodia. A manhã sob o cinza se infiltra no fundo dos olhos contraluz. O dia já pulsa ainda úmido pelo lado de dentro do muro. Utopias estão lá no concreto do musgo, na extensão ao pé do paredão. Outras vicejam não menos melodiosas nos longos braços da unha-de-gato. Emaranha-se uma joaninha cheia de medo na teia. Mais à frente, na cerca viva de azaleia, um colibri oscila frenético e cintilante suas minúsculas asas em guizo quando as pequenas garras metálicas de uma miudinha impõe sua lei.

Muros não são construções de um só dia. Tal como os muros, utopias são existências concretas que brotam da desconfiança do corpo em relação ao meio hostil, e do poder que exercem sobre o ser humano. Contra si mesmo cada um de nós perde muito para permanecer vivo. Ou ganha algo para estender-se cadáver em uma meia vida. Quem hoje se interessa sinceramente por cultivar utopias? Muitos têm consciência de que a vida que se vive é prisão, confinamento cômodo do lado de cá das paredes que isolam, do monitor que abre para a ilusão do mundo virtual.

O presente nos assassina nessa trama viva que repercute aquém e além dos muros. Moral à custa de suor, sangue e chagas, alimentamos esses mesmos muros de uma letalidade que sustenta a mesma conhecida e velha melodia entoada pela opressão e poder. Porém, no mesmo presente que nos assassina a liberdade de sermos diferentes e lutarmos pela construção de outro mundo, já vibra a metáfora viva de alguns pés de alguma outra coisa que talvez já não seja poder e opressão. O que se vê é um caminho que porá abaixo os muros? O que se verá é a construção de bons sonhos sonhados juntos, castelos duma Nova Utopia?

Ela já nasceu! Nininha que ainda não conhecemos bem a face rosada e risonha, talvez já olhe com relativo espanto a velha e decrépita Matriarca de Todas as Utopias, como se já conhecesse todas suas irmãs e primas. Todas! Sonhei outro dia que em breve ela nos perguntará numa enquete do Risobook:

— Vocês costumam mesmo apreciar a compra de denúncias e a queima de utopias em praça pública, não é mesmo?

Pensei comigo que o mundo é mesmo feito de maldade. Maldade e igual medida de ilusão, esta talvez com maior poder destrutivo. Então, afaguei-lhe as tranças malformadas e, pensando que qualquer ideal de liberdade não se sustenta sem as bases da reciprocidade, respondi a ela sem hesitar:

— Cada uma de vocês é de algum modo de uma impertinência útil. Por isso, eu nunca conheci utopia que não tivesse levado porrada!
[Marco Aqueiva]

Utopia e arte-ação
A utopia que de fato o é depende da arte, pois está fadada à distopia quando se vê privada da abertura aos mais diversos olhares, da livre exploração de caminhos possíveis (ainda que aparentemente impossíveis), do movimento. Dinâmica, sempre avessa à autoritária rigidez conceitual que tenta descrevê-la, a arte é o próprio lugar do outro — e a utopia que se faz mais necessária do que nunca é também uma utopia do outro, da abertura à diferença.

A arte pretensamente bem resolvida, que pensa muito bem compreender seus propósitos e suas funções histórico-sociais, que nasce para servir a algo maior, que não chafurda em dúvidas, contradições e paradoxos, é, na verdade, uma provável agente da distopia. Propõe uma verdade fechada; apresenta respostas e não perguntas. A certeza pragmática pouco ou nada tem a ver com a expressão artística, e nem com a utopia aberta e dinâmica que hoje demandamos.

Quando portadora de pretensas verdades fechadas, a arte abdica da função utópica que deveria ser-lhe intrínseca. Passa a promover a ordem, mesmo quando à primeira vista parece almejar a subversão do status quo. E a ordem, ainda que não a vigente, tem o péssimo hábito de se converter em excesso de ordem — Huxley nos alertou disso. Tal excesso é o que abre as portas para a distopia e converte a utopia em seu oposto.

Embora assinalemos os perigos que cercam a arte que se quer engajada e apenas promove o nivelamento das diferenças, não é menos problemática aquela que substitui a utopia pelo conformismo. Tal ponto foi destacado nos parágrafos iniciais do Manifesto: Convergência: os produtos da indústria cultural tendem a nublar a percepção crítica dos arredores e mesmo o senso estético. Se a arte e a utopia são indissociáveis, por fomentarem ambas um olhar aberto à diferença, qualquer instância capaz de nublar o senso estético é uma agente da distopia. E, como tal, deve ser combatida.

O que se faz necessário é o que nos falta: uma utopia dinâmica e aberta à diferença, ao outro. E, em simbiose, uma arte livre para escolher seus caminhos, para se reinventar por meio do contato com expressões diferentes. Abrindo-se às influências outras, a arte pode hoje cumprir sua função utópica.
[Ramiro Giroldo]

Print Friendly