Vidraça

outubro 2018 / Vidraça / Sexo da discórdia

Texto publicado na edição #222

Sexo da discórdia

Notas sobre literatura e mercado editorial

> Por Jonatan Silva | Coluna

A Companhia das Letras anunciou a reedição do livro Aparelho sexual e cia, de Zep e Hélène Bruller. A decisão foi tomada após o presidenciável Jair Bolsonaro apresentar a obra como parte do “kit gay” durante entrevista ao Jornal Nacional em 28 de agosto. A editora publicou uma nota ainda no mesmo dia, afirmando ser orgulhosa do livro. “O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), um específico à ‘Orientação Sexual’ para crianças, jovens e adolescentes”, diz o texto.

Maçã da discórdia
As redes sociais se transformaram em um palco para maluco. Desta vez, o alvo é a escritor Ana Maria Machado, cujo livro O menino que espiava pra dentro, publicado pela primeira vez em 1983, tem apontado como um incentivador do suicídio infantil. A campanha foi encabeçada por uma mãe que citou um trecho da obra no qual o personagem principal come uma maçã e embarca para o mundo dos sonhos. A Global, editora responsável pelo livro, afirmou que a fruta é uma referência aos clássicos da literatura infantil como A Bela Adormecida e A Branca de Neve.

Ruffato e os clássicos
Luiz Ruffato está comemorando três anos do blog Lendo os Clássicos (http://lendoosclassicosluizruffato.blogspot.com/), espaço de anotações sobre livros fundamentais da literatura ocidental. Neste período, foram 196 títulos resenhados — média de cinco livros por mês — com uma audiência de quase 400 mil visualizações (isso, sem propaganda e sem patrocínio). A postagem mais acessada até hoje é a crítica sobre Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.

Crônicas eternas
O Instituto Moreira Salles lançou em setembro o Portal da Crônica Brasileira, que apresenta mais de 2,5 mil recortes de jornais com textos Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem Braga e Otto Lara Resende. No site, todos os dias haverá um destaque no topo da homepage para uma “crônica do dia”. Também contará com uma coluna quinzenal do editor do site, Humberto Werneck, intitulada Rés do chão. O site trará ainda a gravação mensal de uma crônica, em áudio. A primeiro delas é Meu ideal seria escrever…, de Rubem Braga, com leitura de Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do IMS.

Autobiográfico ou profético
A escritora norte-americana Nancy Crampton-Brophy, autora de romances de suspense, foi detida no dia de 5 setembro acusada de assassinar o seu companheiro, o professor de gastronomia e chef Dan Brophy em junho deste ano. O fato curioso é que Nancy havia escrito um texto, em 2011, em um blog, chamado justamente Como matar seu marido. O tema, a morte do cônjuge, aparecia com frequência em seus livros, como é o caso de O policial errado ou O marido errado. O que teria motivado o crime é um mistério para polícia, que está investigando o caso e acredita que o texto pode produzir algumas pistas sobre a questão.

Hatoum leva o Pato
A União Brasileira dos Estudantes (UBE) concedeu a Milton Hatoum o prêmio Juca Pato deste ano pelo romance A noite da espera, publicado pela Companhia das Letras. De acordo com Durval de Noronha Goyos Jr, presidente da UBE, “Hatoum é um dos maiores escritores de todos os tempos”. Hatoum também está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de 2018. 

Prêmio São Paulo
Além do autor de Dois irmãos, concorrem os escritores — ao Prêmio São Paulo de Melhor Livro do Ano, cujo valor oferecido ao autor é de R$ 200 mil — Ana Paula Maia, Carol Bensimon, Evandro Affonso Ferreira, Heloisa Seixas, Joca Reiners Terron, Leonardo Brasiliense, Marcelo Mirisola, Márcia Barbieri, Micheliny Verunschk. A premiação escolherá também um vencedor nas categorias Melhor Livro de Romance do Ano — Autor Estreante com mais de 40 anos e Melhor Livro de Romance do Ano — Autor Estreante com até 40 anos.

Breves

• A Livraria Cultura, dona da marca FNAC no Brasil, anunciou em setembro o fechamento de quatro lojas da rede francesa. Serão encerradas as unidades do Shopping Morumbi, na capital paulista; do Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas (SP); do ParkShopping (Brasília) e do ParkShopping Barigüi (Curitiba).

• O Grupo Companhia das Letras publicou em setembro duas importantes biografias. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiros, mostra — sob uma perspectiva feminista — a vida da companheira de Lampião. Já Dostoiévski, de Joseph Frank, percorre o contexto pessoal, político e cultural daquele é considerado o maior escritor russo.

• A Bienal do Livro de São Paulo de 2020 terá novo endereço. Acontecerá no Expo Center Norte, um espaço com 92 mil metros quadrados, distribuídos em cinco pavilhões e 21 auditórios.

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