Dom Casmurro

novembro 2012 / Dom Casmurro / Sérgio de Castro Pinto

Texto publicado na edição #151

Sérgio de Castro Pinto

Sete poemas de Sérgio de Castro Pinto

> Por SÉRGIO DE CASTRO PINTO

aspirador

tamanduá do lar
que aspira
os meus dias
convertidos em pó

dias enfileirados
um a um tombados
pedras de dominó

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intertextualidade

é quando o tigre de blake
devora o rouxinol de keats
e põe-se a comer alpiste
e a rugir trinado
meio fera meio pássaro

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tamanduá

tudo é uma questão
de peso e medida:
o tamanduá é feliz

com a boca cheia de formiga.

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didi

didi bate a falta com efeito.

o goleiro adversário é puro espanto:
vê a bola de couro
me-ta-mor-fo-se-ar-se
em uma folha seca
do mais triste outono.

a torcida faz a festa.
e a bola não é mais a bola,
a redonda, o balão, a esfera,
não é mais folha seca,
mas a semente, o goivo,

a flor do gol explodindo em primavera.

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jairzinho: o furacão da copa

furacão tornado brisa
estufando a rede
do adversário

e o peito pátrio da torcida

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leônidas

ciclista
da bicicleta
que és,

a bola
pedalas
com os pés
e de ponta-
-cabeça
levitas:

beija-flor
que sorve
o néctar do gol

e embriaga a torcida.

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esta lua

esta lua turca cai feito uma luva
na praia da urca, na pedra da gávea.
esta lua cheia é um túrgido ubre
espargindo leite sobre a madrugada.
pálida e sem luz esta lua minguante
é leite com água, chama dos amantes.

candeeiro de luz bruxuleante,
hóstia andante de uma irmã de caridade,
esta lua é o branco marfim de um elefante
perfurando do céu o toldo estrelado,
mastodonte manso, pacificado,
urinando gotas de luar no gozo
dos amantes tristes e extenuados.

esta lua é o osso adamantino dos cachorros
que a farejam como detetives loucos,
noite e dia, dia e noite, a toda hora,
lambendo os dedos róseos da aurora.

lua trânsfuga, doudivanas, tresloucada,
dos bêbados, das putas, dos pederastas.
lua tremeluzindo, estrela espatifada,
nas pupilas aquosas dos vira-latas.

lua dos haicais, amassada pelas águas.
lua que flagra o súbito peixe-espada
esgrimindo no ar a lâmina prateada.

esta lua ilumina a copa dos cajueiros
onde os ventos alíferos, ligeiros,
com dedos de hábil carpinteiro,
envernizam as castanhas, rolimãs
que giram, enluarados seixos,
castanholas que estalam, tatalam,
batendo de frio o impaludado queixo.

lua que se banha numa poça de piche,
nada há que a tisne, seja o azeviche
ou a lama, continua lua-alvaiade,
lua-cisne, lua-argêntea, lua-porcelana.

louça louçã, esta lua já entornou a via láctea
nos olhos abertos dos que hoje dormem
(sob mil pálpebras) o sono de pedra das estátuas.

lua-amazona, que com a roseta das estrelas
esporeia o negro ventre da poldra desvairada,
que relincha, resfolega, bate os cascos inquieta,
luzindo uma branca lua de pelos sobre a testa.

luas espetadas, roletes de cana, de néctar,
redondas, feéricos buquês das namoradas.

lua das canoas do parque, transatlânticos
singrando as águas da infância, indo
muito além da taprobana e de pasárgada.

esta lua é a gambiarra da ponta do seixas,
ribalta em que as espumas das ondas
são brancas lãs de ovelhas tosquiadas,
balindo, balindo mansas, na beira da praia.

raios de lua extraviados são filhos enfurecidos,
proscritos, exilados, raios que ribombam –
ventríloquos – pela garganta do trovão.
nos céus do inverno, relâmpagos espionam,
emissários do verão.

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