Inquérito

julho 2016 / Inquérito / Sem vender a alma ao demônio

Texto publicado na edição #194

Sem vender a alma ao demônio

26 perguntas a Heloisa Seixas

> Por RASCUNHO

Heloisa Seixas, autor de O oitavo selo

Heloisa Seixas, autor de O oitavo selo.

Heloisa Seixas nasceu em 1952, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Antes de dedicar-se exclusivamente à literatura, trabalhou durante anos como jornalista e tradutora. Estreou na literatura depois dos 40 anos com Pente de Vênus (contos), publicado em 1995 e finalista do Prêmio Jabuti. De lá para cá, escreveu romances, crônicas, teatro, não-ficção e literatura juvenil e infantil. Seu livro mais recente é O oitavo selo, uma mistura de ficção e realidade, narrando os confrontos de seu marido, Ruy Castro, com a morte. O livro foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Com quase 40 anos. Não tenho, até hoje, explicação para o que aconteceu. Os textos começaram a transbordar, só isso. Foi uma coisa que aconteceu, de certa forma, à minha revelia.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Todos os meus livros têm velhos, gatos, portas, olhos, lama. Descobri isso um dia, sem querer. Não sei a razão. Não tenho dúvida de que sou, como diria Nelson Rodrigues, “uma flor de obsessão”.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Leio sempre dois ou três livros ao mesmo tempo. Sou bem eclética, mas guardo sempre uma leitura leve para a hora de dormir. Imprescindível é ler — não importa o quê.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma (ou Temer), qual seria?
Para Dilma ou Temer, recomendaria um livro para colorir.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Já escrevi em circunstâncias muito adversas. No meio da noite, sentada na cama. Ou fazendo anotações no verso de um talão de cheques. Não há regra para isso. Nem deve haver.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio, boa luz. E um bom livro, claro. Não precisa de mais nada, mas se tiver um gato ao lado é melhor ainda.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Faço muitas coisas hoje em dia. Não trabalho só com livros, mas também com teatro e até televisão. Mas minha matéria-prima é, e sempre foi, a palavra. Então, se estou lidando com a palavra, estou feliz. E ser produtivo é isso: trabalhar no que gosta.

Num país como o nosso, onde tão poucos leem, qualquer pessoa que abra um livro já deve ser considerada um bom leitor.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A surpresa, aquele momento da escrita de ficção em que a história ou o personagem tomam as rédeas, e o escritor vai a reboque. É incrível quando isso acontece.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Preocupar-se com os outros, com o que dirão, se irão gostar ou não, se o livro vai vender ou não. Qualquer preocupação desse tipo equivale a vender a alma ao demônio. O escritor só pode escrever aquilo que, dentro de si, pede para ser escrito.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Toda profissão tem panelinhas e elas são sempre um pouco incômodas. Perceber que há pessoas que, embora às vezes menos talentosas, vivem a vida literária de forma a aparecer, sempre — isso incomoda. Mas incomoda em termos. Para dizer a verdade, não perco muito tempo pensando no assunto.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Per Johns. Em geral, só se fala nele como tradutor da Karen Blixen, mas ele é autor de livros extraordinários, entre os quais destaco As aves de Cassandra.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Prefiro não fazer essas escolhas. Há sempre a chance de se cometer uma injustiça. Melhor não.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A desonestidade para com o leitor, e também do escritor para consigo mesmo.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não costumo estabelecer limites desse tipo. A escrita às vezes me surpreende. Nunca pensei em fazer um livro de não-ficção e fui surpreendida pela necessidade de escrever sobre o Alzheimer da minha mãe (O lugar escuro, que saiu em 2007). Por isso, nunca digo nunca.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Do câncer.

• Quando a inspiração não vem…
Só escrevo quando preciso escrever. Se o assunto se apresenta, eu deixo fluir.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Karen Blixen.

• O que é um bom leitor?
Não sei. Num país como o nosso, onde tão poucos leem, qualquer pessoa que abra um livro já deve ser considerada um bom leitor.

• O que te dá medo?
A política brasileira.

• O que te faz feliz?
Gatos, livros. Caminhar junto ao mar de Ipanema, com o Ruy (Castro).

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Dúvida, todas. Certeza, aquela de que já falei: nunca trair a si mesmo como escritor, nunca fazer concessões.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Ser verdadeira. Fiel a mim mesma, às minhas obsessões, aos meus temas.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nunca se render a modismos.

• Qual o limite da ficção?
Os limites estão cada vez mais incertos. Todas as fronteiras desaparecem. Há alguns anos venho gostando de brincar com os limites entre ficção e não-ficção, e acho que me espalhei bastante fazendo isso em meu último livro, O oitavo selo. Virou quase um jogo. A partir de um certo ponto, nem eu mesma sabia mais o que era real, o que era ficção.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ruy Castro (risos).

• O que você espera da eternidade?
Como acabei de chamá-lo de líder, vou citar uma frase dele: “Quando morrer não quero ir para o céu. Quero ir para um sebo”.

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