Inquérito

dezembro 2014 / Inquérito / Sem vaidade

Texto publicado na edição #177

Sem vaidade

Noemi Jaffe nasceu em São Paulo (SP), em 1962. Desde cedo inventava línguas, sotaques e desenhos, daí foram surgindo anotações, […]

> Por RASCUNHO

Noemi Jaffe nasceu em São Paulo (SP), em 1962. Desde cedo inventava línguas, sotaques e desenhos, daí foram surgindo anotações, redações escolares e tudo foi se encaminhando para o mundo literário. Foi só aos 43 anos, porém, que publicou seu primeiro livro de poesia. Doutorou-se em literatura brasileira pela USP. Atualmente, é professora da PUC-SP e faz crítica literária para a Folha de S. Paulo. É autora dos livros Todas as coisas pequenas, Quando nada está acontece e A verdadeira história do alfabeto, livro de contos que lhe rendeu o Prêmio Brasília de Literatura de 2014. É também organizadora da antologia de poemas de Arnaldo Antunes e mantém o blog nadaestaacontecendo.blogspot.com.br.

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Noemi Jaffe. Foto: Divulgação

Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Não tenho certeza, mas foi um processo que teve início bem cedo. Sempre adorei ler de tudo e imaginava as histórias que eu mesma poderia escrever. Inventava línguas, sotaques, desenhos. Aos poucos, fui transformando isso em anotações, redações escolares e o projeto foi tomando corpo. Mas só fui publicar meu primeiro livro de poesia aos 43 anos.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Tenho muito poucas. Nada de muito original. Escrevo em qualquer lugar, de qualquer jeito, em qualquer hora. Mas prefiro a manhã e lugares novos a cada vez. Só que sem fixação por nada.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Adoro ler jornais. Além disso, estou sempre fuçando coisas na internet e tenho obsessão por ouvir conversas alheias, no ônibus, na rua, para usá-las em exercícios e nos meus próprios textos, como fiz no meu livro recente comum de dois.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
A introdução do livro José e seus irmãos, de Thomas Mann, em que ele fala sobre a relatividade do tempo. Essa introdução ajuda, de forma concreta, a fazer sentir na pele o que significa a passagem do tempo e como somos insignificantes.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Gosto da manhã, de silêncio e de lugares desconhecidos. Outra cidade, outra casa, outra biblioteca. Mas não faço questão de nada disso. A circunstância ideal para escrever, sem demagogia, é sentar e escrever, sem esperar pela circunstância ideal.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Gosto do silêncio, para poder me concentrar. Mas consigo ler muito bem no ônibus e em lugares de espera. Me concentro bastante fora do meu ambiente.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia em que fiz leituras criativas, de teoria e/ou de ficção. Não necessariamente um dia em que consegui escrever. Prefiro, de longe, ler. Gosto muito também de revisar. Revisar o que escrevi e encontrar várias soluções para falhas.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Encontrar formas de solucionar problemas: na frase, no enredo, na construção da personagem, no diálogo. Estar diante de algo que eu considero ruim e ficar lá, matutando, quase desistindo, quando surge uma saída. É muito gostoso.

Qual o maior inimigo de um escritor?
Achar que existe perfeição e, talvez, a própria existência dessa perfeição, sob a forma dos grandes escritores.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Vaidade, vaidade, vaidade e ficar reclamando de ter sido injustiçado.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Adorei um poeta, que conheci muito recentemente, infelizmente já falecido, chamado Alberto da Cunha Melo. Outra poeta incrível, que o país vai descobrir, é a Sarah Rebecca Kerskey, uma inglesa mais baiana que muitos baianos, e que atualmente mora em Salvador.

Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Dicionário analógico. Descartável: Livros de autoajuda, incluindo aí Paulo Coelho.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Muita afetação. Quando o estilo supera tudo, daí acho irremediável. Devemos fazer como Lina Bo Bardi falou sobre o Masp: fazer uma coisa feia. Prefiro o feio ao belo. Literatura muito bela é horrível!

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Todos podem entrar. Sem discriminação. Desde palito de dentes até a guerra.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Ah, numa viagem de ônibus, em pé, espremida, às 6 da tarde.

Quando a inspiração não vem…
Dicionário analógico na cabeça.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Primo Levi.

O que é um bom leitor?
Quem aceita ler várias vezes o mesmo texto e aquele que não desiste.

O que te dá medo?
Na vida, que meus filhos sofram. Na literatura, tenho medo de escritores que mandam no mercado.

O que te faz feliz?
Na vida e na literatura, o que me faz feliz é ter amigos.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Sem frase de efeito, “a certeza da dúvida”. Quase nunca tenho certezas e não acredito nelas.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Precisão, originalidade, densidade e risco.

A literatura tem alguma obrigação?
Em princípio, a literatura é livre. Essa é sua obrigação, entretanto.

Qual o limite da ficção?
Quase jogar-se no fundo do abismo, mas não se suicidar.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
O meu líder, meu modelo de literatura inatingível, é Rumo ao farol, de Virginia Woolf. Eu o levaria para aquelas frases. Elas são o meu líder.

• O que você espera da eternidade?
Espero virar vegetal. Não quero virar mineral nem animal. Quero virar planta.

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