Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / Sem respostas

Texto publicado na edição #145

Sem respostas

Nove ensaios sobre nove livros, nove autores que, segundo a análise de Alain Finkielkraut, apresentam o equilíbrio entre razão e […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Nove ensaios sobre nove livros, nove autores que, segundo a análise de Alain Finkielkraut, apresentam o equilíbrio entre razão e sensibilidade. O título Um coração inteligente é de autoria do rei Salomão ao pedir a Deus que lhe permitisse um coração nesses moldes.

Bíblia à parte, ou não, mal começa a leitura e o perfume que emana é o do exagero. Logo, a suspeita se confirmará.

No intento de revelar o que pode ser um coração inteligente, Finkielkraut lança mão de obras de nove autores, os nossos conhecidos Dostoiévski, Joseph Conrad, Henry James, Karen Blixen, Albert Camus, Milan Kundera e Philip Roth, e outros dois, Vasily Grossman e Sebastian Haffner, pelo menos para este aprendiz completamente desconhecidos. Peço perdão. Sem arrependimentos. Mas o que seria um coração inteligente? A resposta deve satisfazer Salomão, Finkielkraut, e, dentro do possível, você, sensível e prático leitor. Antes da resposta, porém, outra pergunta: o coração inteligente que buscamos é o de Finkielkraut ou dos autores das obras analisadas?

O filósofo francês gasta tempo e papel parafraseando trechos das obras escolhidas que mostrariam o ritmo dos batimentos do tal coração inteligente, quando poderia arriscar, evitar a trilha da obviedade. Afinal de contas, razão e sensibilidade na dose certa, quem não quer? Resposta da segunda pergunta: buscamos o coração de Finkielkraut e dos outros sete autores, excluo os dois desconhecidos por mim. Não encontramos o de Finki…

Sei que ainda falta responder a primeira questão. Responderei, embora subvertendo a ordem.

Antes, temos tempo, convém darmos espaço à literatura, ou melhor, a algo que também esperamos da literatura e de toda forma de expressão artística: o comprometimento de lutar contra o óbvio, contra o comodismo. Mas há quanto tempo a literatura repousa no berço doce dessa mesmice?

Um coração inteligente não foge à regra. A literatura não deve ser examinada como um ser pertencente ao mundo exclusivamente literário. Literatura implica estabelecer relações. A sensibilidade — evito utilizar a palavra coração por ser você, imprescindível leitor, alfabetizado, bem alfabetizado — é um componente básico das artes. E arte que mereça essa denominação precisa ser feita com inteligência. Certo? Claro que estou certo! Então, qual a novidade no livro de Alain Finkielkraut? Nenhuma.

Talvez quase uma: a de pretender orientar nossa imaginação.

Alain Finkielkraut tranca, aprisiona a literatura, dá a entender se tratar de um dos disfarces do sublime, num deserto de mistério. Ao mesmo tempo faz da literatura sua ferramenta principal na empreitada de desvendar o mistério maior: o que vem a ser o mundo? Não espere respostas, caro leitor.

Quanto à minha resposta à primeira pergunta: não sei o que é um coração inteligente. Ou, quem sabe, seja aquele que dispensa pontes de safena.

Mistificações à parte, vale a pena folhear Um coração inteligente, copiar os títulos daqueles sete autores e ler ou reler.

E Finkielkraut encontrou seu berço esplêndido, deitou e pelo visto não sairá da posição tão cedo. Ano passado, a editora Stock publicou, na França, Et si l’amour durait. Logo chegará nossa tradução. Aguarde.

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Corac¸a~o inteligente_Capa 02

Alain Finkielkraut
Trad.: Marcos de Castro
Civilização Brasileira
240 págs.